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Mostrando postagens com o rótulo escrevinhadas quixotescas

COM QUANTAS GRACINHAS SE FAZ UMA DEMOCRACIA

Uma frase que é repetida por inúmeras pessoas após um pleito eleitoral é aquela que, com todas as letras, afirma que o povo não sabe votar, e que esse seria o grande problema da nossa sociedade. Aliás, sempre achei muito gozada essa mania pequeno-burguesa da esquerda engajada, da direita militante e dos isentões petulantes de fazer cara de desdém e dizer, com empáfia e nojinho, que o povo não sabe isso e não sabe aquilo. Pois é, mas seria apenas o tal do povo — sempre ele — que não sabe votar? Para ser bem franco, eu mesmo não sei votar. Sim, sei muito bem apertar os botões das maquininhas de pililim que animam a festa da democracia brazuca, mas confesso que não sei escolher muito bem os nossos representantes. Isso mesmo que você acabou de ler, cara-pálida. Desde que me conheço por gente, venho votando errado pelas razões certas e, de vez em quando, votando certo pelas razões erradas. E tem outra! Não tenho a menor dúvida de que, provavelmente, irei votar errado novamente; mas tent...

NÃO É ASSIM QUE A BANDA DEVERIA TOCAR

Estou lendo, entre outras coisas, o livro “Os Tempos Ásperos” de Jorge Amado. Um baita livro, para o meu gosto. Mas não é a respeito desta sua obra que pretendo parlar, mas sim sobre uma declaração proferida pelo autor em uma entrevista onde disse, de forma lacônica, feito pino de patrola, que ideologias, sem exceção, são todas um monte de fezes. Umas fedem mais, outras mais ainda, mas todas elas, juntas ou separadas, são o que são, e ponto final. Ainda na mesma entrevista, Amado, de uma forma não tão amável, disse com todas as letras que é importante lembrarmos e, se possível for, jamais esquecermos que existem filhos de uma boa mãe de direita, da mesma forma que existem filhos do mesmo naipe de esquerda — e de centro também —, porque, se há uma coisa que é muito bem distribuída neste país, é a canalhice; e se não somos capazes de perceber isso, imagino que está mais do que na hora de revermos alguns conceitos — e preconceitos — que carregamos em nossa algibeira mental. Sobre esse p...

A SUTIL E PERIGOSA LINHA DA GALHOFA

O filósofo Cornelius Castoriadis dizia que a crença expressa pelas sociedades democráticas no poder do sufrágio universal seria similar à crença dos católicos na presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento. Ao lermos essas palavras do referido filósofo, podemos ficar um tanto aturdidos com o seu viés anarquista e um tanto anticlerical; porém, suas observações são, no meu entender, de grande relevância para melhor compreendermos os assim chamados “ataques à democracia”. Dito isso, vem comigo: como todos nós sabemos, há muitíssimos casos de transubstanciação eucarística que foram cuidadosamente documentados, e o foram porque, antes de qualquer coisa, são submetidos a uma rigorosa série de exames. Aliás, este é o procedimento adotado pela Santa Sé quando o assunto são milagres. Trocando em miúdos, esse babado é levado muitíssimo a sério. Agora, quando o assunto é a expressão cristalina da vontade popular através do sufrágio universal, nós podemos colocá-lo à pro...

O SENHOR DAS MOSCAS SOB NOVA DIREÇÃO

Dias atrás, todos devem ter tomado conhecimento do acontecido em uma escola de ensino fundamental, onde os alunos de uma turma colocaram cacos de vidro na água da professora. Diante do ocorrido, penso que há dois pontos que devem ser levados em conta. Primeiramente, não há o que discutir: isso foi uma monstruosidade. Em segundo lugar, temos muito que discutir, porque isso é uma monstruosidade. E a primeira pergunta que todos nós deveríamos fazer é como permitimos que algo assim acontecesse. E não me refiro apenas às autoridades constituídas, às famílias, aos professores e tutti quanti. Refiro-me, sim, à sociedade — toda ela —, porque o tempo todo as crianças estão aprendendo, e estão aprendendo conosco através de nossas palavras, atos e omissões. De todas as nossas falhas, há uma que está no cerne desta trágica questão: a nossa recusa, o nosso medo de agir como adultos diante dos infantes. Isso mesmo! A nossa recusa em educá-los. A sociedade se nega a esse papel porque exercê-lo é desc...

NÃO É PRECISO SER UM PSICOPATA PARA SER MAU

Seja ou não um ano eleitoral, sempre aparece aqui e acolá aquela turma que franze a testa, aperta bem os olhos para secar os outros com sua visão aquém do alcance e, com o dedo em riste, diz a todo e qualquer desavisado que ele precisa, urgentemente, tomar consciência — a seco, sem nenhum golinho de água. O engraçado nesse tipo de conversa fiada é que, em regra, as pessoas que mais curtem aparecer em público — nas redes sociais ou num universo botecológico — para cobrar dos outros uma postura mais consciente sobre isso e aquilo são justamente as que, de forma escancarada, apresentam inequívocos sinais de um profundo estado de, como direi, decomposição cognitiva. E o pior é que, muitas vezes, somos nós mesmos que nos encontramos nesta putrefata condição, onde somos capazes de identificar o cisco e a remela nos olhos de terceiros, mas fazemos uma senhora de uma vista grossa para os entulhos e crostas que estão acumulados em nossa própria vista. Podemos dizer que, quando agimos assim, ...

BASTA UMA CANETA AZUL

Um querido ex-professor, em suas aulas, sempre procurava nos advertir que tudo nesta vida tem segundas intenções, mesmo um gentil “bom-dia”; o que não significa, necessariamente, que elas precisem ser más. Pensando nisso, lembrei-me de uma passagem da obra “Ortodoxia”, de G. K. Chesterton, onde o autor nos conta uma historieta muito sugestiva, conhecida popularmente como “a parábola do poste”. Conta-nos ele que, em uma cidadezinha qualquer, havia um poste de luz que seria removido pelas autoridades públicas e, para tanto, foi feita uma grande campanha para “esclarecer” a população sobre a importância da remoção deste trambolho barroco que atrapalhava a via pública e que, de acordo com os mesmos, era muito antiquado, desalinhado e, por isso, não ornava com os novos tempos. Papo vai, papo vem, e a galera galerosa estava toda muito animada com a remoção do dito-cujo e, em meio a toda essa empolgação, eis que apareceu um frade franciscano, com seu surrado hábito cinza. Ele se inscreveu par...

UM GUETO CERCADO POR PALAVRAS

Muito se fala hoje em dia a respeito dessa tal de empatia. Em todas as direções para as quais voltamos os nossos olhos cansados, inevitavelmente iremos avistar uma figura falando a respeito; e o mais curioso é que, via de regra, os sujeitos que não param nem para respirar para falar sobre isso o fazem sempre com um certo ar de superioridade em relação a todos os demais mortais que, diferentemente deles, nunca pararam para pensar com a mesma “seriedade” a respeito do assunto. Ao apontar isso não estou, de modo algum, dizendo que não devemos procurar nos colocar no lugar do outro para ver a vida a partir dos seus olhos, e sentir as dores do mundo a partir do seu nervo da alma exposto. Nada disso, cara pálida. O que digo e repito é que “empatia”, como toda palavra que é repetida à exaustão, acaba perdendo toda a sua substancialidade e, por conta disso, termina sendo apenas mais um jargão publicitário, um cacoete mental que as almas desavisadas — e as levianas também — utilizam para rotul...

A JOIA QUE FOI MALANDRAMENTE PERDIDA

No livro “A bacia de Pilatos”, de Humberto de Campos, há um conto que nos apresenta a história de um padre italiano que estava vindo para o Brasil. Quando o navio estava se aproximando da baía de Guanabara, ele se dirigiu ao convés para contemplar a paisagem. E eis que, do nada, apareceram duas portuguesas. Pediram a bênção e perguntaram se o vigário conhecia o Brasil. Ele disse que sim e que, na sua humilde opinião, não existia lugar mais belo na face da Terra. Impressionadas com o entusiasmo do homem de Deus, perguntaram-lhe como era a fiscalização e, de pronto, ele disse: “Rígida, minhas filhas. Não passa nada.” Então, as duas abriram o jogo. Disseram que estavam vindo para assumir a herança de um tio, uma propriedade em Barbacena (sempre em Barbacena), e que, por isso, estavam trazendo consigo as joias da família; joias essas que estavam há gerações na família e que, por essa razão, não dispunham de nota fiscal. Diante disso, elas temiam perdê-las na aduana. E o que é que o padre t...

ESPARRELAS PUBLICITÁRIAS NADA EDIFICANTES

É curioso ver que na arena do poder — e fora dela também — muitíssimas pessoas se esforçam para mostrar para todo mundo, menos para Deus, que são pessoas de valor e não sujeitinhos cuja dignidade tem um preço, sempre devidamente atualizado e corrigido pela inflação. E o que mais chama a atenção é que, quanto mais essas figuras, figurinhas e figurões tentam provar que são criaturas de alma ilibada, mais se enrolam nos próprios pés. Na verdade, todos nós, em algum momento de nossas vidas, acabamos por cair nesse tipo de esparrela e terminamos por pagar aquele mico existencial nada original de querer posar de detentores de uma dignidade que não nos pertence. Bem, noves fora zero, há um momento em que todos nós podemos ver com clareza de que material é feito o nosso caráter e qual é a têmpera de nossa alma: é quando estamos diante da morte; da nossa morte. É quando estamos frente à possibilidade de ficarmos cara a cara com ela que realmente iremos descobrir qual é a envergadura do noss...

É NO FOGO BRANDO QUE SE PREPARAM OS GRANDES MANJARES

Com o objetivo de resolver pequenos problemas é que surgem grandes inventos. Um destes, sem dúvida alguma, é a panela de pressão. Quem gosta das lides junto ao fogão sabe o quanto essa abençoadinha facilita a nossa vida. Há muito comprei uma para, é claro, ver se eu cozinho mais depressa. Sim, para cozinhar certas coisas e resolver determinados problemas, a urgência acaba sendo necessária; já outros, por sua natureza peculiar, demandam tempo e paciência — tempo que muitas vezes nos falta e paciência de que frequentemente não dispomos. E se há algo que todos nós deveríamos apreciar e ponderar com muita paciência são os “debates” que, de tempos em tempos, acabam tomando o centro das atenções. Estes, do seu jeitão todo especial, instigam-nos a nos indignarmos do nada e, com sangue nos olhos, a bradarmos aos quatro ventos a nossa opinião, tomando partido por essa ou por aquela bandeira, ideia, proposta ou por qualquer esparrela deste gênero. Tal fenômeno torna-se mais curioso quando esses ...

QUANDO A CENSURA ENTRA SEM PRECISAR PEDIR LICENÇA

A História nos ensina, de forma trágica, que existem mil e uma maneiras de censurar, de calar a boca daqueles que os donos do poder consideram inconvenientes. Não apenas a História, mas também a literatura que, através de obras distópicas, retrata-nos de forma alegórica o quão grande é a criatividade dos tiranos e tiranetes deste mundão para silenciar as vozes que não estão de acordo com sua opereta. De todas as obras distópicas, o livro “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, tem um lugar de destaque. Nesta distopia, o autor descreve-nos uma hipotética sociedade futura onde as pessoas não leem mais livros. Neste universo ficcional, ler é um crime gravíssimo e, por isso, todas as vezes que livros eram encontrados, eles eram queimados, ironicamente, pelo corpo de bombeiros que, com seus lança-chamas, consumia as obras à temperatura de 451 graus Fahrenheit. Mas por que fazer uma barbaridade dessas? Ora, porque livros são perigosos. Eles são um perigo porque expõem as pobres pessoinhas a difer...

MUITO ALÉM DO TÉDIO

De tempos em tempos, todo cronista, seja ele um mestre ou um mero artesão, se defronta com o dia fatídico em que lhe dá um terrível branco na cuca; em que não lhe pinta nenhuma inspiração para escrever, por mais insípida que seja. Quando isso acontece, sinceramente, é de lascar. Imagino que deva existir uma série de razões sociológicas e psicológicas que nos ajudem a ter uma visão mais clara das causas desse fenômeno, mas que, francamente, não vêm ao caso neste momento. Isso porque, quando deitamos nossas vistas nas páginas que foram redigidas pelos grandes cronistas brasileiros — naquelas que foram escritas sem a menor fagulha de inspiração —, entendemos em dois palitos que, nas mãos certas, até mesmo a monotonia e a ausência de qualquer lampejo tomam uma forma singular, criativa e profundamente humana. Quando Rubem Braga escrevia suas crônicas sem assunto, convidava-nos a prestarmos mais atenção em nossa monotonia cotidiana, nos detalhes da vida que, por inúmeras razões, acabam sem...

A DESTRUIÇÃO SILENCIOSA DAS BIBLIOTECAS

Todos, ao menos da boca para fora, afirmam que a prática da leitura é de fundamental importância para o desenvolvimento cognitivo de uma pessoa; porém, a maneira como o ato de ler é apresentado soa, no mínimo, engraçada porque, na grande maioria dos casos, ele é tratado como se fosse algo natural e simples que, uma vez aprendido, estaria sacramentado, pronto e acabado. Pois é. Mas não é bem assim que a banda toca. Como nos lembra Gregorio Luri, ler não é algo natural — nada disso. Seu aprendizado exige esforço e deve ser consistente porque, antes de qualquer coisa, ler é colocar um texto dentro de um contexto; do seu devido contexto. Isso exige um grande empenho de nossa parte, e é justamente aí que a porca torce o rabo. A decodificação de um texto exige do leitor, além da capacidade de situar o escrito em um contexto apropriado, um domínio crescente do vocabulário, uma fluência na decodificação das palavras, uma certa musicalidade no momento de entoá-las (seja verbal ou mentalmente...

GRANDEZAS DESDENHADAS

Há algumas questões que deveriam ser consideradas centrais quando o assunto é a educação, mas que, na época em que vivemos, acabam sendo varridas para debaixo do tapete da vida. A primeira delas é, conforme nos ensina a professora Inger Enkvist, que o aprendizado — pouco importa do que seja — exige o esforço de quem pretende aprender, o qual deve comprometer-se por inteiro naquilo que está executando para realmente fazer-se presente; e esse esforço pressupõe uma consequente mudança na personalidade do sujeito como nos ensina Hugo de São Vitor. Sua atitude diante da vida, frente a si mesmo e perante os estudos deve, gradativamente, levá-lo a transubstanciar-se da água para o vinho, deixando as atitudes dispersivas para trás e centrando-se em novas ações de forma responsável. Um detalhe que muitíssimas vezes é desdenhado é o fato de que o aprendizado — repito, de qualquer coisa — não existirá se este não levar o aluno a sofrer uma transformação tangível porque o aprendizado, seja do qu...

O AVESSO DA EDUCAÇÃO

Há um velho provérbio popular que nos lembra que a dor ensina a gemer. Dito de outro modo, seriam os obstáculos e as dificuldades a mãe e o pai do aprendizado, não a vida mansa sem nenhuma espécie de perrengue. Por essa razão, educadores como Jules Payot tinham uma clara consciência da importância da formação, da educação da vontade para que os indivíduos pudessem realmente crescer em espírito e verdade. Quando nossa vontade não é vergada, quando ela não é contrariada, ao invés de nos tornarmos indivíduos independentes, capazes de agir de forma minimamente eficaz, eficiente e efetiva, o que teremos como resultado majoritário são pencas e mais pencas de indivíduos que literalmente desmoronam todas as vezes em que têm a necessidade de realizar uma tarefa que exija um mínimo de esforço focado; porque, ao invés de tornarem-se autônomos, foram reduzidos a meras figuras autômatas. E vejam só como são as coisas: os antigos monges do deserto sabiam muito bem que o único animal que, por sua p...