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Mostrando postagens com o rótulo escrevinhadas quixotescas

SOB O OLHAR DO XERIFE DE NOTTINGHAM

Um dos traços da nossa cultura política são as práticas de mandonismo que se fazem presentes de norte a sul do Brasil desde longa data. Claro, cada momento histórico tem lá suas peculiaridades, cada região, suas especificidades; mas esse trem doído continua presente em nossa sociedade — com outras roupagens, é claro. Todos conhecemos a história da formação dos redutos eleitorais cativos que são controlados por caciques políticos — redutos estes edificados com uma série de benefícios regalados aos seus eleitores que, nos termos populares, sentem-se obrigados a votar em quem o cacique indicar. O historiador José Murilo de Carvalho, em seu livro Cidadania no Brasil: O longo caminho , chama-nos a atenção para esse triste traço da história política do nosso país, no qual os cidadãos se encontram em uma situação de fragilidade dentro de uma sociedade sem uma sólida cultura de participação democrática. Detalhe importante: o grande despreparo não vem tanto da parte dos cidadãos desvalidos, mas...

O FIM NÃO ESTÁ NA PRÓXIMA PÁGINA

Há momentos na história em que praticamente toda a sociedade se vê imersa em um clima de grande ansiedade que nos devora; e, sem dúvida alguma, os dias próximos à realização de um pleito eleitoral são um desses ditos-cujos. É simplesmente fascinante, como diria o senhor Spock, a forma como ficamos nestes dias — tendo em vista que tais ocasiões mexem com uma gama significativa de interesses (alguns justos, outros mesquinhos), com preocupações (umas razoáveis, outras chegando a raiar a histeria coletiva) e, é claro, bolinam com nossos afetos e desafetos, que já se encontram pra lá de desordenados. Jorge Amado, em seu romance Os Ásperos Tempos — primeiro volume da trilogia Subterrâneos da Liberdade —, retrata os dias que antecedem o golpe de 1937, que instaurou a ditadura do Estado Novo, e pinta com sua paleta literária alguns lances dos primeiros tempos do novo regime. Mostra-nos a forma como os mais variados estratos sociais, grupos políticos e econômicos percebiam e analisavam aquele m...

ATÉ O ÚLTIMO SUSPIRO

Provavelmente o amigo leitor já deve ter assistido no YouTube à homenagem ao Led Zeppelin realizada no Kennedy Center Honors, em Washington, no ano de 2012, onde, entre outras coisas, foi executada de forma magistral a canção Stairway to Heaven. Na plateia, obviamente, estavam Robert Plant, Jimmy Page e John Paul Jones. Quem ainda não assistiu, por favor, pare de ler esta escrevinhada e vá assistir. E, se já assistiu, vá mais uma vez. Assistiu? Maravilha! Eu amo essa música e, toda vez que vejo essa apresentação, meus olhos ficam nadando em lágrimas enquanto minha garganta engasga. Não apenas pela beleza do show — que conta com Jason Bonham, filho de John Bonham, falecido baterista do Led Zeppelin, e interpretação de Ann e Nancy Wilson, do Heart, acompanhadas por músicos e coral —, mas também e principalmente pela vista que temos do olhar dos três remanescentes da banda homenageada que, na plateia, assistiam a tudo extasiados de emoção. Aliás, de todos eles, o olhar de Robert Plant s...

NA NOITE MAIS ESCURA

Lembro-me de ter lido, num dos livros de Domenico De Masi — Criatividade e Grupos Criativos: Descoberta e Invenção —, que um cidadão ateniense adulto, por volta dos seus trinta anos de idade, teria assistido a aproximadamente trezentas peças de teatro. Ao ler isso, mais que depressa, coloquei-me a matutar com meus alfarrábios e a me perguntar quantas peças assisti em minha porca vida. Quantas? Pouquíssimas, tendo em vista que sempre fui um caipira que vive entocado no mato. Na verdade, poucas são as pessoas que podem se vangloriar de ter tido a grata satisfação de assistir a tantas peças. Pouquíssimas mesmo. Ao constatar isso, porca miséria, fiquei pensando em minha inenarrável miséria cultural e no quão apartada minha alma encontrava-se do terapêutico efeito catártico que o teatro pode proporcionar ao coração humano, instalando-nos na realidade e ordenando as nossas paixões e inquietações. Mas então, lembrei-me da grande paixão que, desde menino, nutro pela sétima arte e toquei-me da ...

A PEDREGOSA ESTRADA DA CIDADANIA

É curioso quando começamos a refletir sobre o tempo e, ao fazê-lo, as primeiras palavras que nos vêm à cabeça são aquelas presentes nas páginas do livro Confissões, de Santo Agostinho, onde o bispo de Hipona pergunta: o que é o tempo? E, na sequência, responde-nos: se ninguém me pergunta, eu sei; mas, se quero explicá-lo a quem me pergunta, já não sei. E é curioso refletirmos sobre isso porque, quando paramos para prestar a devida atenção na forma como experienciamos o tempo em nossas venturas e desventuras pra lá de humanas, notamos, num piscar de olhos, que suas três dimensões estão sempre presentes — juntas, fundidas e misturadas — em nosso horizonte de percepção. Como bem nos ensinam Gilberto Freyre e Peter Berger, todos nós guardamos em nossa consciência os fragmentos do passado, de tudo aquilo que foi vivido e testemunhado por nós. Por isso mesmo, esse passado em cacos sempre pode sofrer uma ressignificação, uma nova interpretação à luz daquilo que está sendo vivido por nós no pr...

O SEU NOME NÃO ERA POLACO

José Ortega y Gasset dizia que os gênios, por um traço que lhes é todo particular, acabavam criando o seu próprio ofício e, de certa forma, a sua própria identidade. Esse era o caso do próprio filósofo espanhol e, em grande medida, é o caminho pelo qual inúmeros homens comuns, com suas vidas comuns, vivem os seus dias extraordinários. Em minha porca vida, graças a Deus, conheci uma baciada de pessoas assim que, com seu jeitão, acabaram me ensinando muita coisa e, por isso, lhes sou muito grato. Outras tantas, além de terem me enriquecido com seus conhecimentos, acabaram se tornando fonte de inspiração e, por isso mesmo, tenho uma dívida com elas. Uma dessas pessoas, sem dúvida alguma, foi o meu querido amigo Acir das Neves, o tio Polaco — que, aliás, não tinha nenhuma ascendência polonesa. Conheci-o no ano 2000, quando minha esposa me apresentou a ele; e, daquele dia em diante, muitas foram as conversas, incontáveis foram os causos e memoráveis foram as lições. Lições, causos e convers...

UMA BÚSSOLA, UM MAPA E UM RUMO

Existem inúmeros livros que merecem ser revisitados de tempos em tempos. Um deles, sem dúvida alguma, é O homem medíocre , do filósofo argentino José Ingenieros — tendo em vista o estado em que se encontra o mundo contemporâneo e a forma como este afeta a nossa alma. Afinal, como o próprio autor nos lembra, muitos nascem neste mundão de meu Deus, mas poucos são os que realmente vivem. Para viver, é imprescindível dispor de uma personalidade bem formada, constituída de forma sólida; e, infelizmente, hoje em dia isso é coisa rara, mui rara. Resumindo o entrevero: os indivíduos desprovidos de personalidade apenas vegetam, feito samambaias que balançam suas folhas acompanhando a brisa — ou o vendaval — do momento, e nada mais. Dito de outra forma, o homem medíocre apenas consegue existir imerso na agitação, no alarido do mundo, chegando a ter um piripaque se for entregue a um momento de solitude e silêncio. Afinal, nesses momentos, ninguém consegue esquivar-se do sussurrar dos conselhos e...

NÃO TINHA COMO TER UM RESULTADO DIFERENTE

Esta semana me sobrou um tempinho e, por isso, dei um pulo no sebo de que sou freguês de longa data para dar uma olhadela nas velhas novidades que lá havia. Para minha felicidade, encontrei o livro Meretrizes e Doutores: saber médico e prostituição no Rio de Janeiro (1840–1890), de Magali Engel. Ao folheá-lo, tenho uma grata surpresa: o referido livro tinha pertencido à minha ex-professora Terezinha Saldanha — que Deus a tenha. Sempre que podia, levava meus filhos comigo a sebos, livrarias e bibliotecas. Hoje raramente faço isso, pois atualmente eles vão por conta própria e, às vezes, para minha alegria, são eles que me convidam para fazer um tour entre estantes de livros novos e usados. Amo livros. Não vivo sem eles. E o gozado nessa paixão é que ela surgiu em mim antes mesmo do gosto pela leitura germinar. Quando criança, passava muitas e muitas vezes a tarde toda na biblioteca do colégio. Lendo livros? Não. Admirando-os nas estantes, pegando um e outro para folheá-los e, é claro, ...

A ESPADA DE DEMÓSTENES NOSSA DE CADA DIA

Como e por que escrever em um país onde a maioria avassaladora da população que sabe ler não quer nem saber de tomar em suas mãos um livro para ler — e, quando por descuido pega um, é um livro de autoajuda? Complicado, não é mesmo, meu velho? Apenas um parêntese: nada contra os livros deste naipe porque, de certa forma, eles são como um verbete de enciclopédia ou da Wikipédia: errado não é começar tomando um como ponto de partida; o problema é ficar com ele e apenas nele como referência última e absoluta. Fecha parêntese. E veja só como o trem é doido neste nosso país lindo e complicado por natureza: de acordo com o Instituto Paulo Montenegro, que nos apresenta o INAF (Indicador de Analfabetismo Funcional), o cenário entre aqueles que são alfabetizados é ainda mais — como diria o senhor Spock — fascinante. Segundo o referido instituto, integram a população brasileira entre 15 e 64 anos de idade apenas 7% de analfabetos. Porém, entre os que são considerados alfabetizados, temos 22% de l...

O PRIMEIRO PASSO DE UMA GRANDE JORNADA

O professor Antônio Cândido, em uma entrevista há muito concedida, disse uma obviedade ululante que, como todas as obviedades, precisa ser repetida porque nós, seres humaninhos, temos o péssimo hábito de esquecer tudo aquilo que realmente tem alguma importância. Disse ele que a leitura de Homero, Cervantes, Shakespeare, Dumas, Dostoiévski, Machado e companhia limitada, juntamente com o conhecimento de histórias folclóricas, literatura de cordel e demais preciosidades, nunca fez mal a ninguém. Aliás, até onde sabemos, ninguém ficou estúpido ou se tornou uma pessoa pior por ter se entregado a esse tipo de desfrute literário. Além disso, Northrop Frye e Harold Bloom nos lembram que a literatura, por meio de suas páginas, nos apresenta vidas humanas possíveis que, se forem lidas, apropriadas e devidamente interiorizadas, enriquecem a nossa alma com perspectivas que seriam literalmente inacessíveis a uma pessoa que sabe ler e não lê. E tem mais! Por termos contato com esses dramas humanos f...

A ARMADURA QUE NOS FALTA

Quando alguém, numa roda de conversa, resolve falar da importância da leitura, todos os presentes — e, talvez, até mesmo os ausentes — concordam que ela é realmente um trem indispensável para o bom desenvolvimento de uma pessoa. Até mesmo aqueles que têm alergia à leitura fazem pose, cara de gente séria, e concordam com o babado, porque é muito chique dizer que com livros e bons leitores se constrói uma grande nação. Sim, isso é chique e é a mais pura verdade, porque a leitura nos faz parar e nos convida a seguir num passo mais lento e, por isso, mais atento. E essa é a chave para a boa formação de um indivíduo, principalmente no mundo em que vivemos, onde somos praticamente o tempo todo instados a seguir o fluxo acelerado e sem fim de uma sociedade que tem o seu ritmo maquinal regido pelo pulso contínuo de vídeos desconexos e imagens fragmentadas. A leitura de uma obra literária exige a nossa entrega; ela não abre mão da nossa atenção para nos guiar pelas páginas codificadas de um liv...

DE VOLTA PARA O CAMINHO PARA DAMASCO

O finado Papa Bento XVI, em uma de suas preleções, nos chamava a atenção para a importância de procurarmos cultivar uma admiração particular por um santo, de sermos devotos de uma pessoa que procurou, com todas as forças de sua alma, amar a Deus e tomar o Evangelho como farol de sua vida. E, ao recomendar isso, ele não estava nos dizendo para termos pôsteres de um santo no quarto e andarmos com camisetas e broches dele como se fôssemos um adolescente fã de uma banda, nada disso. Se somos devotos de um santo, deveríamos, em suas palavras, procurar nos tornar familiares a ele, buscando conhecer a sua vida, as suas obras e o seu pensamento para, desse modo, aprendermos a crescer em espírito e verdade com ele. Bento XVI, por sua deixa, era devotíssimo de São José e de Santo Agostinho, o rochedo de Hipona. Não apenas isso: deste segundo, além de devoto, era um grande estudioso de sua obra; talvez um dos maiores do século XX. Quando li isso, há mais ou menos umas duas décadas, meu coração en...