Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo escrevinhadas quixotescas

GRANDEZAS DESDENHADAS

Há algumas questões que deveriam ser consideradas centrais quando o assunto é a educação, mas que, na época em que vivemos, acabam sendo varridas para debaixo do tapete da vida. A primeira delas é, conforme nos ensina a professora Inger Enkvist, que o aprendizado — pouco importa do que seja — exige o esforço de quem pretende aprender, o qual deve comprometer-se por inteiro naquilo que está executando para realmente fazer-se presente; e esse esforço pressupõe uma consequente mudança na personalidade do sujeito como nos ensina Hugo de São Vitor. Sua atitude diante da vida, frente a si mesmo e perante os estudos deve, gradativamente, levá-lo a transubstanciar-se da água para o vinho, deixando as atitudes dispersivas para trás e centrando-se em novas ações de forma responsável. Um detalhe que muitíssimas vezes é desdenhado é o fato de que o aprendizado — repito, de qualquer coisa — não existirá se este não levar o aluno a sofrer uma transformação tangível porque o aprendizado, seja do qu...

O AVESSO DA EDUCAÇÃO

Há um velho provérbio popular que nos lembra que a dor ensina a gemer. Dito de outro modo, seriam os obstáculos e as dificuldades a mãe e o pai do aprendizado, não a vida mansa sem nenhuma espécie de perrengue. Por essa razão, educadores como Jules Payot tinham uma clara consciência da importância da formação, da educação da vontade para que os indivíduos pudessem realmente crescer em espírito e verdade. Quando nossa vontade não é vergada, quando ela não é contrariada, ao invés de nos tornarmos indivíduos independentes, capazes de agir de forma minimamente eficaz, eficiente e efetiva, o que teremos como resultado majoritário são pencas e mais pencas de indivíduos que literalmente desmoronam todas as vezes em que têm a necessidade de realizar uma tarefa que exija um mínimo de esforço focado; porque, ao invés de tornarem-se autônomos, foram reduzidos a meras figuras autômatas. E vejam só como são as coisas: os antigos monges do deserto sabiam muito bem que o único animal que, por sua p...

A EDUCAÇÃO QUE NÃO TEMOS

Uma vez um sacerdote, ao final de uma Missa, disse laconicamente — de forma curta e grossa, feito um pino de patrola — que Deus não resiste a um homem de joelhos e com seu coração na mão, porque não há nada mais encantador neste mundo do que um coração humilde voltando as batidas dos seus átrios e ventrículos para o Alto. E, sejamos francos: estes dois pontos foram excluídos do horizonte da vida moderna. E não estou falando de senso religioso, não. Refiro-me à virtude da humildade como alicerce do ato de aprender, como bem nos ensina Hugo de São Vítor em seus “Opúsculos sobre o modo de aprender”, e ao senso de hierarquia, que é um instrumento imprescindível para ordenar os nossos apetites, inclinações, aptidões e habilidades para que possamos nos aprimorar como pessoa e, consequentemente, nos elevar em dignidade e verdade, como bem nos lembram tanto Gustavo Corção quanto José Ortega y Gasset. De mais a mais, é importante lembrar que a virtude da humildade não pode, de jeito-maneira, ...

O SILÊNCIO DE PILATOS

No mundo atual, há uma grande valorização daquilo que se convencionou chamar de “opinião própria”; e, se esta for qualificada como sendo uma “opinião crítica”, aí a sua cotação vai para as alturas. Porém, como muitas outras coisas que abundam no mundo contemporâneo, essa supervalorização da posse de uma “opinião” é apenas mais um trem fuçado de valor duvidoso. Só isso, e olhe lá. Pessoalmente falando, não dou importância nenhuma para a opinião de ninguém, muito menos para as minhas, pois toda opinião é apenas uma impressão imprecisa a respeito de algo ou de alguém e, como tal, é apenas uma geringonça de pouca valia. De mais a mais, se tivermos nossas vistas invadidas pela luz de uma verdade, o que faremos? Ficaremos agarrados à nossa opinião criticamente furada ou a deixaremos de lado para abraçar a verdade que nos foi revelada por uma determinada circunstância da vida? Bem, foi o que eu imaginei. Infelizmente, tratamos as nossas opiniões como se fossem bichinhos de estimação e, ao f...

COM O CORAÇÃO NA MÃO

Lembro-me da primeira vez que assisti ao filme A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson. Como também não esqueço o guaju que se espalhou pelos quatro ventos contra a obra, com incontáveis figuras, figurinhas, figuraças e figurões rasgando as vestes por conta da forma crua com que o diretor procurou retratar a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. E, do mesmo modo, não me esqueço das palavras ditas pelo Papa São João Paulo II que, ao ser perguntado sobre o que achou do filme, disse, de forma lacônica: “Foi assim”. Mas, como estava dizendo, não me esqueço da primeira vez que o assisti. Cheguei ao cinema, tomei meu assento e, enquanto aguardava o início da exibição, havia um clima levemente festivo dentro da sala de projeção, típico de um cinema. De repente, a luz foi apagada, a exibição começou e, gradativamente, o silêncio tomou conta da sala; o ambiente foi tomado pelas cenas da película, com os diálogos das personagens encenadas nas línguas da época — aramaico, hebraico e latim — junta...

A NÉVOA DA PRESUNÇÃO

Há muito, Manuel Castells declarou que a época em que vivemos poderia ser chamada de “A Era da Informação”. Na verdade, ele não foi o único a apontar nessa direção, mas, até onde sei, é o único que escreveu uma volumosa trilogia para explicar esses tempos tão fascinantes quanto obscuros nos quais vivemos. É uma era fascinante pelo fácil acesso que temos às informações — de toda e qualquer ordem — quanto aos meios para produzir e disseminar tudo o que nos der na telha; e isso, venhamos e convenhamos, é algo realmente fascinante. Por isso, neste quesito, discordo tanto de Umberto Eco quanto de Jacques Le Goff quando estes afirmaram que a internet acabou apenas dando voz e vez aos idiotas de todo o mundo. Não que não tenhamos boleiras de tontos que dizem tonterias para uma multidão ávida por idiotices; claro que há. O problema é que a forma como eles afirmaram isso dá a impressão de que, na era anterior ao advento da internet, não havia disparates que eram disseminados a torto e a direi...

A ORQUESTRA DA VAIDADE

Procurar dizer com clareza aquilo que pensamos é importante, mas muito mais importante que isso é pensar com serenidade e clareza tudo aquilo que nós temos a intenção de dizer. Aí estão duas regras simples que todos nós poderíamos seguir se não tivéssemos nosso coração maculado pela vaidade e pela soberba que governam, discretamente, o nosso modo de ser. Na real, nós realmente pensamos seriamente naquilo que estamos dizendo a respeito de qualquer assunto, ou apenas reagimos, simiescamente, aos estímulos que recebemos do meio social e midiático? Pois é. Se não paramos para refletir sobre isso, é bem provável que nunca tenhamos realmente parado para pensar sobre o que quer que seja; e nossa possível reação epidérmica a estas míseras linhas seja um claro sinal de que grande parte das nossas respostas às mensagens que recebemos é apenas, e tão somente, uma reação midiaticamente condicionada — jamais uma reflexão crítica, como gostamos de chamar. Se estivermos dispostos, existem vários cami...

HAVIA MAIS DE UMA PEDRA

Há décadas um hábito me acompanha: sempre tenho comigo ao menos um livro para fazer-me companhia nas horas vagas — que, na maioria das vezes, são apenas alguns minutos. Mesmo tendo um punhado de e-books no celular, ainda continuo tendo sempre em mãos um ou dois títulos para aproveitar bem as migalhas de tempo que a rotina do dia a dia sempre me regala e que, sem a menor cerimônia, procuro aproveitar ao máximo. Tento seguir à risca uma regra simples: a ocasião faz quem a gente quer ser, sempre. Por isso, seja numa aula vaga, no intervalo, durante a aplicação de uma prova (enquanto caminho pela sala, silenciosamente, fico com um olho no livro e com o outro na turma), na fila do correio, no ônibus, na antessala de um consultório médico ou odontológico, enfim, procuro sempre lembrar-me da lição do sociólogo italiano Domenico De Masi: atualmente, o tempo ocioso e livre é abundante em nossa vida; o problema é que ele, o tempo livre, é mal distribuído, mal utilizado e, na grande maioria das ...

SILENCIAR É PRECISO

Na sociedade contemporânea, somos diariamente, de forma sorrateira, convidados a manifestar um punhado de opiniões a respeito dos mais variados assuntos. Na grande maioria das vezes, se não os desconhecemos por completo, temos apenas uma noção muito superficial a respeito deles; mesmo assim, somos instados a nos posicionar e, ao fim e ao cabo, nos manifestamos. E o pior de tudo é que, em grande medida, nós opinamos de forma impensada, irrefletida, e acreditamos que nossos colóquios, com essa feição mal acabada, são dignos de respeito, apesar de não termos manifestado a reverência devida ao conhecimento da verdade dos fatos sobre os quais estamos opinando. Mas fazer isso — nos dedicar com afinco para conhecer algo —, “sacumé”, dá um trabalho danado; já falar pelos cotovelos, posando ter uma autoridade que não temos, é muito mais fácil e gostoso, não é mesmo? Mas aí vem a pergunta que não quer calar: nós não deveríamos ter uma opinião crítica sobre tudo o que está acontecendo no mundo em...

PARA SUPERARMOS A DITADURA DOS OFENDIDOS

Toda ferramenta tem sua utilidade quando a empregamos de forma apropriada. Agora, quando inventamos de trocar os pés pelas mãos, não devemos esperar muita coisa; e tal regra não vale apenas para as bugigangas físicas, mas também, e principalmente, para as traquitanas intelectuais. De todos os instrumentos intelectuais de que dispomos para analisar as aventuras e desventuras humanas em sociedade, um que acaba frequentemente sendo utilizado de uma forma atravessada é o dito-cujo do relativismo. Essa bênção, enquanto ferramenta de análise, é extremamente versátil, pois nos permite adentrar os hábitos e valores de um grupo social para compreendê-lo a partir das suas próprias referências, permitindo-nos ver o mundo através dos seus olhos, como bem nos ensina Bronisław Malinowski. Essa postura de “empatia antropológica”, da mesma forma que permite a um estudioso compreender com clareza o universo cultural de um grupo aborígene, também nos habilita a compreender a visão de mundo dos difere...

AQUELA PEQUENEZ QUE NÃO NOS ABANDONA

O escritor Josué Montello nos ensina que o dever número um de um crítico é compreender. Com base nesta lição devidamente aprendida com o mestre, sempre procuro deixar claro para meus alunos que eles não têm a menor obrigação de concordar com uma opinião quando essa lhes é apresentada, pouco importa quem seja o seu autor; entretanto, eles têm o dever moral de, com sinceridade, esforçar-se para realmente compreendê-la. Lição similar é-nos ensinada através da obra do filósofo Mário Ferreira dos Santos, que procurava, nas palavras dele, identificar em todas as filosofias de que tomava conhecimento as suas “positividades” e, é claro, as suas “negatividades”, através de uma análise “decadialética”. Procedendo por este riscado, ele conseguia ter uma visão ampla e profunda a respeito das ideias e opiniões de que discordava e, de quebra, acabava aprofundando e ampliando os fundamentos de suas próprias interpretações e pontos de vista. Um exemplo mui ilustrativo de seu modus operandi foi o deb...

A VOZ QUE NINGUÉM QUER OUVIR

Um dos bens mais preciosos de que dispomos é o silêncio interior. Bem esse que o mundo moderno, através dos mais variados subterfúgios, tenta nos furtar, aliciando-nos a nos entregarmos de corpo e alma ao alarido e à dispersão, em uma farta variedade de manifestações. Se temos ciência do real valor deste bem, sabemos que todo santo dia temos que travar o bom combate para defendermos nossa solitude e, com ela, resguardar a nossa sanidade mental, moral e espiritual. Como bem nos lembra Umberto Eco, a cultura de massa não é um elemento externo, presente apenas na caixola dos outros — nada disso. Todos nós estamos imersos nela, somos afetados direta ou indiretamente por ela e, em maior ou menor medida, a dita-cuja se faz presente dentro de nós (lá ele!), perturbando e deformando o nosso modo de ser, turvando a nossa percepção de tudo, de todos e de nós mesmos. Sim, temos que pelejar um dia de cada vez, mas o Tempo Quaresmal é um momento propício para reforçarmos as trincheiras e defende...

A VISÃO AQUÉM DO ALCANCE

O ditado popular afirma que, em terra de cego, quem tem um olho é rei; porém, há quem desconfie de que, em terra de cego, quem tem um olho pode ser tido na conta de maluco. Bem, diante das duas possibilidades, algo me diz que a segunda seja a mais razoável. Compreender qualquer coisa com um mínimo de profundidade sempre nos traz uma sensação de satisfação, porque dissipa as brumas que até então turvavam o nosso entendimento a respeito de um determinado assunto; mas também, de lambuja, projeta sobre nós a impressão de que uma fatia significativa das pessoas irá nos olhar de soslaio, como se fôssemos uma figura esquisita, para dizer o mínimo. E está tudo bem. E está tudo bem porque conhecer não é repetir aquilo que nós e nossos semelhantes já sabemos. Aliás, fazer isso é apenas reforçar o senso comum que cultivamos e partilhamos com os demais. Conhecer é expor-se ao risco de equivocar-se e, equivocando-se, sentir-se obrigado a corrigir-se ou ser corrigido; e, como todos nós muito bem sab...

MUITO ALÉM DO REINO DAS ÁGUAS CLARAS

Diante dos dilemas que a vida nos apresenta, podemos reagir de inúmeras maneiras, dependendo do nosso temperamento, da disposição do nosso espírito, da nossa força de vontade e, é claro, dos valores que norteiam a nossa caminhada por esse mundão de meu Deus. Mas penso que podemos agrupar todas as reações humanas possíveis e pensáveis diante dos perrengues em três tipos de atitude, as quais poderíamos chamar de: ativa, passiva e alternativa. Pouco importa qual seja o quadro; esses são os três balaios nos quais, penso eu, podemos reunir as diversas formas de conduta diante dos entreveros que pintam em nosso caminho. Para explicar as três atitudes possíveis frente à vida, convido o amigo leitor a imaginar-se em uma canoa, navegando no remanso de um rio qualquer e, lá pelas tantas, eis que as águas mudam de temperamento, tornando-se uma corredeira. Para a nossa infelicidade, temos nossa vista invadida pela imagem borbulhante de uma cachoeira que, de forma inclemente, quer porque quer nos ...

A PEDAGOGIA DA VAIDADE

A professora Inger Enkvist, em seus livros e palestras, frequentemente chama a atenção para uma obviedade ululante que, para a infelicidade geral das futuras gerações, é desdenhada por praticamente todos nós. Ela afirma, de forma clara e categórica, que uma nação minimamente séria deve cultivar uma atenção especial para com a educação das tenras gerações; porque, se isso não for feito, estaremos literalmente colocando em risco a existência futura de toda a nossa sociedade. Por essa razão, e por inúmeras outras, não poderia haver espaço para levianas aventuras experimentais nesta seara. Aliás, quando tomamos a palavra educação e meditamos sobre o seu significado, compreendemos claramente o tamanho do enrosco em que estamos nos metendo, devido à forma como atualmente as autoridades (políticas e intelectuais) vêm tratando a questão. Como todos nós sabemos, educação vem do latim ex-ducere, que quer dizer, simplesmente, “guiar para fora”. Deste modo, o ato de educar consiste em levar o infa...