Pular para o conteúdo principal

O FANTASMA QUE ASSOMBRA A MÁQUINA

Não sei dizer se são as ideias que movem o mundo. Francamente, creio que o calibre do meu velho tinteiro não seja suficiente para meditar sobre essa questão. Porém, uma coisa me parece mais do que certa: as ideias que temos a respeito do mundo e de nós mesmos nos movem e nos levam para bem longe.

 

Terão aqueles que irão discordar desse simplório escrevinhador, dizendo que o que nos arrasta de um lado para o outro neste mundão de meu Deus é o tal do dinheiro e, à primeira vista, muitos de nós poderemos concordar com essa afirmação. Entretanto, não é o dinheiro, em si, que nos puxa de um lado para o outro, mas sim as ideias que cultivamos sobre ele e, consequentemente, o valor e a importância que atribuímos aos numerários.

 

E é claro que, também, haverá outros que afirmariam que o que realmente balança o nosso coração e faz ele dançar um pagode em nosso peito é o dito-cujo do poder, a procura pelo status, pela fama e todas as demais traquitanas similares. Pois é. Em alguma medida, isso é verdade; todavia, não é a glória em si que leva fileiras de pessoas a se engalfinharem por um trono de sal com pés de barro, mas sim, isso mesmo, a ideia que as pessoas têm a respeito do poder, da glória e do reconhecimento social.

 

Seja como for, não temos para onde correr. As ideias que cultivamos amorosamente em nosso íntimo, em grande medida, determinam a fisionomia da nossa personalidade e o modo como encaramos a vida. Ideias essas que, muitas e muitas vezes, nós simplesmente fomos assimilando a esmo, conforme elas foram aparecendo em nossa vida, conforme a sociedade, a grande mídia, os algoritmos e tutti quanti iam nos apresentando.

 

E as assimilamos não porque fizemos, como se diz, um exame crítico das abençoadas; nada disso. Simplesmente as assimilamos porque nos pareceram agradáveis e, em casos mais severos, as pessoas são incapazes de determinar como elas, as tais das suas ideias, surgiram em sua vida. E se nós não sabemos explicar como uma ideia passou a habitar a nossa vida, é sinal de que não somos nós que a possuímos, mas sim ela que nos possui, reduzindo-nos à condição de um reles marionete que, como todo marionete, acredita, candidamente, ser tão autônomo quanto crítico.

 

Por isso, revisar nossos valores, criticar nossas ideias e opiniões não é apenas um dever; é uma prática indispensável para não nos perdermos de nós mesmos.

 

*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “A QUADRATURA DO CÍRCULO VICIOSO”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

BASTA UMA CANETA AZUL

Um querido ex-professor, em suas aulas, sempre procurava nos advertir que tudo nesta vida tem segundas intenções, mesmo um gentil “bom-dia”; o que não significa, necessariamente, que elas precisem ser más. Pensando nisso, lembrei-me de uma passagem da obra “Ortodoxia”, de G. K. Chesterton, onde o autor nos conta uma historieta muito sugestiva, conhecida popularmente como “a parábola do poste”. Conta-nos ele que, em uma cidadezinha qualquer, havia um poste de luz que seria removido pelas autoridades públicas e, para tanto, foi feita uma grande campanha para “esclarecer” a população sobre a importância da remoção deste trambolho barroco que atrapalhava a via pública e que, de acordo com os mesmos, era muito antiquado, desalinhado e, por isso, não ornava com os novos tempos. Papo vai, papo vem, e a galera galerosa estava toda muito animada com a remoção do dito-cujo e, em meio a toda essa empolgação, eis que apareceu um frade franciscano, com seu surrado hábito cinza. Ele se inscreveu par...

A EDUCAÇÃO NÃO PODE SER RIFADA

O futuro dos filhos de Deus não está à venda, mesmo assim, tem gente que quer porque quer rifá-lo, em regime de urgência.   Semana passada, fomos todos pegos de surpresa pelo anúncio do governo do Estado que pretende, na voada, iniciar o processo de terceirização da gestão de duzentos Colégios e, ao anunciar esse controverso projeto, afirmava que o fazia com seu burocrático coração cheio, até a tampa, de boas intenções, dando-nos a entender que o futuro dos filhos de Deus lhes pertence.   Não, não lhes pertence e, quanto às suas boníssimas intenções, é importante lembrarmos que aquele lugarzinho, que exala enxofre, está repleto delas.   Dito isso, sigamos com o andor. Quando o assunto em pauta é a tal da educação, inúmeros equívocos acabam se sobrepondo e, em razão disso, os reais problemas que afetam a formação das crianças e dos jovens acabam sendo desdenhados, devido a quantidade de questões secundárias que são colocadas em destaque, nas nossas vistas, em regime de urg...

A UNHA ENCRAVADA QUE NARCISO NÃO VIU

A verdade não existe; há apenas impressões pessoais, diz o sujeito que afirma que tudo é relativo. O engraçado nessa afirmação é que, além de ser autocontraditória, é negada frontalmente pelas atitudes das pessoas que dizem defendê-la até debaixo d’água. Reparem, e reparem bem, como a galera que diz que tudo é relativo chega salivar, com as veias do pescoço saltadas, quando alguém tem a petulância de discordar de uma vírgula de qualquer coisa que elas afirmam como sendo certa. E eis que, num estalar de dedos, toda aquela afetação de ponderação vai pro vinagre, tendo em vista que para esses abençoados, tudo é relativo, tudinho, mas suas opiniões, convicções ideológicas e o caramba a quatro, são inquestionáveis. Detalhe importante: o problema não está no relativismo em si, mas sim, no uso canhestro que se faz dele. Ora, uma coisa é relativizarmos o nosso ponto de vista, como uma estratégia metodológica para entendermos situações, realidades e pessoas que, muitas vezes, são muitíssimo dif...