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MUITO ALÉM DO REINO DAS ÁGUAS CLARAS

Diante dos dilemas que a vida nos apresenta, podemos reagir de inúmeras maneiras, dependendo do nosso temperamento, da disposição do nosso espírito, da nossa força de vontade e, é claro, dos valores que norteiam a nossa caminhada por esse mundão de meu Deus. Mas penso que podemos agrupar todas as reações humanas possíveis e pensáveis diante dos perrengues em três tipos de atitude, as quais poderíamos chamar de: ativa, passiva e alternativa. Pouco importa qual seja o quadro; esses são os três balaios nos quais, penso eu, podemos reunir as diversas formas de conduta diante dos entreveros que pintam em nosso caminho. Para explicar as três atitudes possíveis frente à vida, convido o amigo leitor a imaginar-se em uma canoa, navegando no remanso de um rio qualquer e, lá pelas tantas, eis que as águas mudam de temperamento, tornando-se uma corredeira. Para a nossa infelicidade, temos nossa vista invadida pela imagem borbulhante de uma cachoeira que, de forma inclemente, quer porque quer nos engolir. Imaginou? Beleza, então vem comigo para o próximo parágrafo. Diante dessa situação, podemos, furiosamente, remar contra a correnteza e contra toda a desesperança para evitarmos a tragédia que se apresenta como inevitável. Bem, esse é um exemplo de atitude ativa. Se não somos daqueles que gostam de lutar batalhas perdidas, podemos então, estoicamente — ou não —, deitar calmamente no fundo da canoa, cruzar os braços sobre o peito e deixar que as águas nos levem para muito além do reino das Águas Claras, abraçando assim o nosso destino. Essa, por óbvio e por certo, seria a atitude passiva. Por fim, teríamos a atitude alternativa. Lá está o caboclo em sua canoa, diante da cachoeira e, ao invés de lutar pela vida até o último suspiro ou de abraçar sem temor a ferocidade do seu destino, ele fica em pé na canoa e, furiosamente, começa a xingar a força das águas, os céus, tudo e todos, como se tal atitude tivesse algum valor. Quando voltamos nossas vistas para os desafios que vicejam no mundo contemporâneo e paramos para refletir um cadinho a respeito das inúmeras incertezas que nos assombram — e sobre as muitas certezas aterradoras que nos circundam —, brota em alguns momentos em nosso peito um sentimento de impotência e desesperança. E é bem aí que o trem desanda, tal qual na cena hipotética da canoa que é tragada pela cachoeira, porque a realidade exige uma resposta de nós e, para ser sincero, espero que a sua, amigo leitor, não seja uma resposta alternativa. Até mais.


*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “O SEPULCRO CAIADO”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela 




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