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UMA VERSÃO MALACAFENTA DE NÓS MESMOS

A vida não é estática, por mais atarracada que seja a nossa maneira de encará-la. Ela é dinâmica, como nos lembra José Ortega y Gasset, e está em constante fluxo e refluxo, bonança e agitação, conforme as nossas decisões e frente às circunstâncias que se apresentam a nós.

 

Saber compreender e assimilar as circunstâncias da vida é a chave para que nos tornemos cientes das oportunidades e obstáculos que estão latentes e, principalmente, para nos tornarmos mais conscientes da pessoa que estamos nos tornando através das decisões que tomamos todo santo dia.

 

À primeira vista essa é uma tarefa simples por demais, porém (porque sempre há um porém), o nosso coração vive em desassossego, inquieto consigo, com tudo e com todos e, tal inquietude, é malandramente instigada pelo estilo de vida modernoso que levamos.

 

Aceitamos de bom-grado ser bombardeados com informações de relevância duvidosa, informações essas que chegam até nós pelas ondas da grande mídia, das redes sociais e demais tranqueiras similares; informações que nos levam a nos portarmos feito um futriqueiro hi-tec, querendo estar a par de todas as “novidades”, pouco importando se essas têm realmente alguma relevância.

 

E quanto mais temos nossa atenção sequestrada por essas tranqueiras, forjadas por traquitanas noticiosas e memes, menos tempo e disposição temos para nos dedicarmos às coisas que necessitam da nossa atenção e, principalmente, às pessoas que clamam por nossa companhia.

 

Que cena triste é a imagem de uma família reunida, onde todos estão com as janelas de suas almas voltadas para a tela dos celulares, com a televisão ligada e alguns, inclusive, com fones de ouvido. Todos estão fisicamente presentes na sala, mas ninguém está presente para o outro.

 

Sim, a existência humana é dinâmica, como bem nos lembra Ortega y Gasset, mas a dinâmica que estamos aplicando à nossa vida está tornando-a um simulacro de vida humana.

 

É no próximo que reconhecemos nossa humanidade, é na pessoa do outro que aprendemos o quão acanhados somos e, ao mesmo tempo, quão indeterminados podemos ser, tanto para o bem, quanto para o mal.

 

Por isso, ao desumanizarmos a pessoa do outro estamos deformando a nossa humanidade e, deste modo, corremos o risco de nos tornarmos apenas e tão somente uma caricatura malacafenta de nós mesmos.

 

Fim.

 

*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “A QUADRATURA DO CÍRCULO VICIOSO”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela



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