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Mostrando postagens com o rótulo diário quixotesco

NAS FRONTEIRAS DA LOUCURA - Notas e reflexões heterodoxas

1. É muito bom, muito bom mesmo, dispormos de algum tempo ocioso, desde que saibamos o que fazer com ele. Se soubermos, o ócio torna-se uma fonte de elevação e aprimoramento; caso contrário, será apenas mais um agravante da nossa tendência à degradação. 2. Muitos manifestam sua preocupação — sincera ou não — com a polarização política que, ano após ano, vem escalando nas sociedades contemporâneas, acirrando disputas e elevando os ânimos. Diante desse quadro, fica a pergunta: que fazer? Não pergunto o que as lideranças e partidos políticos podem fazer, mas sim o que nós, cidadãos comuns, podemos e devemos fazer uns em relação aos outros. A resposta, no meu entender, é muito simples: devemos aprender a nos perdoar mutuamente. E tal aprendizado começa com o nosso primeiro passo nessa direção, e não com a expectativa passiva de que os nossos semelhantes tomem a iniciativa. 3. É justo, é muitíssimo justo lutarmos para defender nossas ideias e ideais, desde que realmente compreendamos, com u...

O FUTURO COMEÇA LOGO ALÍ - Notas e reflexões heterodoxas

1. Pare e pense numa coisa: faz algumas décadas que a formação do caráter deixou de ser uma das colunas fundamentais que dão sustentação às preocupações educacionais, seja da parte dos planejadores estatais, seja da parte das famílias — tradicionais ou não. Todos estão preocupados em saber se os infantes serão bem-sucedidos materialmente, profissionalmente, emocionalmente e o caramba a quatro; mas se eles serão pessoas de caráter — dignas, prestativas e boas —, francamente, aparentemente tornou-se algo secundário. Por isso — e por muito mais —, nossa educação encontra-se no estado em que está. 2. Há uma velha canção do Raul Seixas em que ele diz: "eu não preciso ler jornais / mentir sozinho eu sou capaz". Acho essa afirmação fantástica, não porque os jornais sejam instrumentos de disseminação deliberada de desinformação e demais tranqueiras do gênero — nada disso. Gosto das palavras do nosso "maluco beleza" porque todo mentiroso gosta de adornar suas mentiras com al...

A VAIDADE DA CRÍTICA DESNECESSÁRIA - Notas e reflexões heterodoxas

1. Todo bom mané gosta de dizer que pensa criticamente, como se afirmar isso transformasse sua opinião sem valia em alguma coisa que preste. # 2. Toda vez que dizemos que apreciamos a opinião de alguém por considerarmos a pessoa crítica, não estamos dizendo que o que foi dito seja algo inteligente pra caramba. Nada disso, cara-pálida. Na real, estamos apenas dizendo que concordamos com o que foi dito pelo fulano porque está de acordo com aquilo que nós pensamos. Só isso e olhe lá. # 3. Quando o assunto é esse trololó de criticidade, estou com o filósofo espanhol Gregorio Luri, que, de forma curta e grossa, feito pino de patrola, nos lembra que apenas podemos dizer que pensamos criticamente quando somos capazes de pensar a partir dos corolários opostos às nossas convicções e, vez por outra, sermos capazes de discordar de nós mesmos — de admitir que estávamos redondamente errados. Se não somos capazes disso, sinto muito, mas nós não somos críticos nem na casa do chapéu. # 4. Colocar defe...

NÃO DÁ MAIS PARA ESCONDER DEBAIXO DO TAPETE - Notas e reflexões heterodoxas

1. Quando as coisas não vão muito bem, é comum ouvirmos as pessoas dizerem que é preciso inovar, que uma revolução faz-se necessária; e, na maioria das vezes, o que seria urgente, de fato, é que paremos de inovar e passemos a considerar a possibilidade de darmos alguns passos para trás. # 2. Uma das ideias mais perniciosas que já foram semeadas nas salas de aula é aquela que afirma que o aluno é um cliente e que deve ser tratado como tal. Não, cara-pálida. Um aluno não é um cliente; é uma pessoa em formação que deve ser devidamente instruída e corrigida por uma autoridade que, até a véspera, era chamada pela alcunha de professor. # 3. É simplesmente fascinante vermos pessoas que nunca se deram ao trabalho de educar alguém ficarem dando pitaco sobre o que se deve fazer para bem educar um aluno; e se torna mais fascinante ainda quando essas pessoas são os pais de algum "alecrim dourado" da vida. # 4. Não existe pensamento crítico se nós não procuramos apresentá-lo textualmente....

QUANDO A GRITARIA CHEGA NA ABÓBADA CELESTE - Notas e reflexões heterodoxas

1. O primeiro sinal de que a nossa vaidade suplanta a razoabilidade e o senso das proporções é a necessidade de querer sempre ter a última palavra em uma discussão ou em uma conversa. # 2. A necessidade de querermos sempre ter razão é um claro sintoma de que nós não temos o costume de usar a dita-cuja da razão. # 3. Repare — e repare bem, para em dois palitos perceber — que as pessoas que mais facilmente desdenham da compaixão por aqueles cidadãos que são seus desafetos, por miudezas ideológicas sem razão, são justamente aquelas figuras que vivem o dia todo, e praticamente todos os dias, arrotando empatia, ética, cidadania e, é claro, democracia. # 4. Permitir que as raposas fiquem responsáveis pelo galinheiro, como bem nos ensina o velho ditado popular, é uma tremenda de uma imprudência — para não dizer uma imbecilidade. Agora, permitir que os porcos tornem-se os senhores incontestáveis de toda uma propriedade, seja ela uma granja, um sítio ou uma fazenda, não é outra coisa senão a ma...

PULANDO SEM PARAQUEDAS - Notas e reflexões heterodoxas

1. O nosso sentimentalismo não é — e nunca será — causa suficiente para gerar um ato de bondade. Na verdade, na grande maioria das vezes, ele é um grande obstáculo. # 2. Há uma diferença abissal entre parecer bom e ser bom; e, para uma pessoa de olhar e discernimento dispersos, distinguir uma coisa da outra é, praticamente, uma impossibilidade. # 3. Como reconhecer um tirano? Eis aí uma pergunta que vale ouro. Na real, há muitos sinais que podem denunciar um figurão desse naipe, mas de todos eles há um que é a sua marca distintiva: querer obstruir a livre circulação de informações sob a justificativa de que está fazendo isso em nome de um "bem maior". Meu amigo, qualquer um que venha insinuar algo assim, pode ter certeza, bom sujeito não é. # 4. Urge ter paciência quando tudo à nossa volta nos convida a mergulhar num oceano de histeria. Urge, mas é um trem danado de difícil manter a cabeça no lugar num quadro assim. E como é! # 5. Ler um e-book é uma maravilha pela comodidade...

XUCRISMO DECANTADO - Notas e reflexões heterodoxas

1. Uma coisa é planejar aquilo que iremos fazer; outra coisa é ficar ciscando em círculo feito galizé ao redor das miudezas de meia dúzia de papéis ornados com gráficos, tópicos e tabelas, achando que, fazendo isso, estamos resolvendo algum problema. # 2. Quando um gestor, chefe ou líder não quer resolver um problema, ele convoca uma reunião. E se as reuniões tornam-se uma fáustica rotina, é sinal de que, além de não quererem resolver os problemas existentes, esses burocratas querem inventar novos problemas para continuarem na mesma — porém, agora com um volume bem maior de pepinos sem solução alguma, só para dar stress e azia. # 3. Não se permita desanimar. Se há uma coisa que o mundo à nossa volta mais deseja é nos ver cabisbaixos, com os faróis da alma à meia-luz, arrastando os para-choques do caráter na poeira da vã-glória. Não se permita. Permita-se chorar, gritar bem alto — a ponto de fazer zunir os ouvidos das estrelas —, mas não se permita desanimar e desistir de seja lá o que ...

MUITO ALÉM DO MEGAMENTE - Notas e reflexões heterodoxas

1. A sabedoria nos convida a ouvi-la (Provérbios VIII). Ouvir com atenção aquilo que ela sussurra em nosso coração. Porém, no mundo atual, quantas são das pessoas que realmente procuram ouvir o seu semelhante com a devida reverência que ele merece? Aliás, quem procura ouvir com o coração aberto as palavras ditas ou berradas pelos seus inimigos e desafetos, procurando meditar sobre elas para, assim, poder separar o que é verdadeiro daquilo que é falso? Pois é. Se agimos assim uns em relação aos outros, dificilmente a sabedoria encontrará morada nos átrios do nosso coração porque, na real, nós a recusamos com a nossa intratável malícia. # 2. O humor é fundamental para podermos crescer em espírito e verdade — o bom humor, a ironia e companhia limitada; quanto à criancice, não (Provérbios IX). Neca de pitibiriba. Para podermos realmente robustecer a nossa alma, é imprescindível que procuremos deixar nossas atitudes petulantes para trás e, gradativamente, passarmos a cultivar novos hábitos ...

APENAS UM RELES PROFESSOR - Notas e reflexões heterodoxas

1. Na dúvida, pare, ore e reflita; e, após refletir a respeito de seus caminhos e descaminhos, ore mais uma vez antes de voltar a colocar o seu pé nas estradas da vida. # 2. Muitos se dizem de direita, outros tantos afirmam que são de esquerda e, ainda, há aqueles que juram de pés juntos que são moderados. A partir desses rótulos, muitos bons e velhos amigos se engalfinham. Porém, no fundo — e não é tão fundo assim —, grande parte dos brasileiros não é nada disso; na real, a grande maioria dos brasileiros tem uma mentalidade fisiológica bem rastaquera e, para não ficar feio, apenas a fantasia com um rótulo ideológico para não sair, assim, tão mal na fita. # 3. Todos nós cremos que temos ideias geniais em nossa cumbuca, mas esse balão de originalidade estoura quando somos obrigados a colocá-las no papel e torná-las minimamente inteligíveis. E isso acontece porque, quando vamos escrever, somos obrigados a pensar naquilo que estávamos “ideando” e, ao fazê-lo, descobrimos que não havia...

ESSE É O MEU BRASIL E NINGUÉM TASCA - Notas e reflexões heterodoxas semanais

O Brasil é um país com uma história cheia de paradoxos interessantíssimos. É um cadinho de terra americana que, em pleno século XVII, ao final da União Ibérica, aclamou o senhor Amador Bueno como rei e este, por sua deixa, não aceitou, tendo de fugir da turba e se esconder num mosteiro para não ser trucidado pelo povo que queria coroá-lo de qualquer jeito. Ao mesmo tempo, é uma nação que teve um imperador, Dom Pedro II, que presenteou um idealista italiano chamado Giovanni Rossi com uma faixa de terras no Paraná para realizar o experimento de uma sociedade anarquista. Enfim, esse é o Brasil que eu tanto amo. # No Brasil contemporâneo, temos, entre aqueles que se dizem letrados e diplomados, a presença de uma indiscreta — digo, de uma aversão confessa — à grande literatura. Uma aversão tão grande que chega a ser manifestada nos currículos escolares. Por outro lado, no submundo do crime, junto a organizações como o PCC, testemunhamos a organização daquilo que os seus membros chamam de ...

MATUTANDO A PARTIR DO LIVRO DOS PROVÉRBIOS (parte II) - Notas e reflexões heterodoxas semanais

Não repute ser sábio (Provérbios III, 7). Dito de outro modo: não se ache; não fique pensando que você é a última bolacha do pacote. Todos nós, lá no nosso íntimo, temos uma centelha de soberba — centelha essa que, às vezes, incendeia a nossa alma inteira. Sim, sei que muitas e muitas vezes afirmamos que não somos assim nem assado; porém, basta que alguém nos aponte um erro em nosso modo de ser ou em algo que realizamos para que, mais do que depressa, a centelha de soberba que habita em nós ateie fogo em tudo. Afinal, "sacumé", a gente é "humilde" — desde que não apontem as nossas falhas, não é mesmo? # O primeiro grande sinal de que uma pessoa é tremendamente estúpida é a aversão à correção (Provérbios III, 11-14). Ora, meu caro Watson, quem imagina que sempre está certo, coberto de razão da cabeça aos pés, com o perdão da palavra, pediu para ser tonto e deu eco. Sim, eu sei, todo mundo sabe que ser corrigido não é algo agradável, da mesma forma que os remédios, de...

MATUTANDO A PARTIR DO LIVRO DOS PROVÉRBIOS (parte I) - Notas e reflexões heterodoxas semanais

O temor de Deus é o princípio da sabedoria, nos ensina a Sagrada Escritura (Provérbios I, 7). Em grande medida, o homem moderno virou as costas e fez pouco caso desta orientação, crendo que estaria livre para fazer o que lhe desse na ventana. Ledo engano: a partir do momento em que deixamos de lado o temor de Deus, passamos a nos borrar de medo da opinião alheia, do falatório dos sepulcros caiados, dos senhores deste mundo e, se bobear, até mesmo da nossa sombra. Enfim, por esse e por outros motivos é que não há a menor chance de cultivarmos a sabedoria se passamos a querer posar de galo véio prateado e cismar de ciscar para Aquele que é o princípio e o fim de todas as coisas. # O insensato despreza a disciplina (Provérbios I, 7). Dito de outro modo, o homem moderno acredita que é capaz de tudo, inclusive de se autogovernar, sem ter que proceder com retidão em sua vida. Como nos ensinam os filósofos estoicos de forma simples e direta, disciplina é liberdade; e qualquer um que diga que ...