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MUITO ALÉM DO REINO DAS ÁGUAS CLARAS

Diante dos dilemas que a vida nos apresenta, podemos reagir de inúmeras maneiras, dependendo do nosso temperamento, da disposição do nosso espírito, da nossa força de vontade e, é claro, dos valores que norteiam a nossa caminhada por esse mundão de meu Deus. Mas penso que podemos agrupar todas as reações humanas possíveis e pensáveis diante dos perrengues em três tipos de atitude, as quais poderíamos chamar de: ativa, passiva e alternativa. Pouco importa qual seja o quadro; esses são os três balaios nos quais, penso eu, podemos reunir as diversas formas de conduta diante dos entreveros que pintam em nosso caminho. Para explicar as três atitudes possíveis frente à vida, convido o amigo leitor a imaginar-se em uma canoa, navegando no remanso de um rio qualquer e, lá pelas tantas, eis que as águas mudam de temperamento, tornando-se uma corredeira. Para a nossa infelicidade, temos nossa vista invadida pela imagem borbulhante de uma cachoeira que, de forma inclemente, quer porque quer nos ...

REFLEXÕES HETERODOXAS DE UM ESCREVINHADOR #002

A sociedade — toda e qualquer sociedade — é composta por pessoas; logo, forçosamente, ela manifestará as mesmas qualidades dos seus integrantes. # Cada um tem as suas razões; cada qual tem as suas vaidades. # O egoísmo, em sua forma coletivista, manifesta-se como um sectarismo, justificado ou não por uma ideologia. A vaidade, quando se manifesta coletivamente, o faz na forma de uma ideologia que justifica toda e qualquer absurdidade. # Todo bom principiante é um pouco cético; já todo cético sempre será apenas um principiante. # A história seria a soma dos erros humanos narrados na forma de um drama paradoxal. # Para além dos mórbidos limites da razão pura, temos o pulsar da razão vital. # Neguemos o racionalismo, que nulifica a vida, e digamos "não" ao relativismo, que faz a razão evaporar. # Lembremos: o "não" nunca é definitivo, da mesma forma que o "sim" jamais é absoluto. # Três objetivos convergentes: purificação, iluminação e perfeição. Três caminhos...

A PEDAGOGIA DA VAIDADE

A professora Inger Enkvist, em seus livros e palestras, frequentemente chama a atenção para uma obviedade ululante que, para a infelicidade geral das futuras gerações, é desdenhada por praticamente todos nós. Ela afirma, de forma clara e categórica, que uma nação minimamente séria deve cultivar uma atenção especial para com a educação das tenras gerações; porque, se isso não for feito, estaremos literalmente colocando em risco a existência futura de toda a nossa sociedade. Por essa razão, e por inúmeras outras, não poderia haver espaço para levianas aventuras experimentais nesta seara. Aliás, quando tomamos a palavra educação e meditamos sobre o seu significado, compreendemos claramente o tamanho do enrosco em que estamos nos metendo, devido à forma como atualmente as autoridades (políticas e intelectuais) vêm tratando a questão. Como todos nós sabemos, educação vem do latim ex-ducere, que quer dizer, simplesmente, “guiar para fora”. Deste modo, o ato de educar consiste em levar o infa...

NÃO É APENAS UM CAJUZINHO

Navegar é preciso, viver não é preciso, diz o poeta; mas, hoje em dia, tornou-se praticamente impossível não singrarmos com nossa nau existencial pelo remanso das águas virtuais da internet. E, em meio às venturas e desventuras deste mundo de possibilidades sem fronteiras, é muito difícil não nos depararmos com um ou outro vídeo ou postagem falando das bonitezas da filosofia e do quanto esse trem nos faria um bem danado. E as pessoas que entram nessa vibe dizem que curtem esse embalo porque gostam muito de trocar opiniões com outras pessoas e, é claro, de discutir. Bem, isso pode ser divertido, pode inclusive ajudar a desenvolver habilidades retóricas que podem ser muito úteis em nossa vida, mas o fiar do nosso passo por essa trilha não nos leva ao filosofar, porque isso não é filosofia nem aqui, nem na casa do chapéu. O filosofar é, em sua essência, a procura amorosa e abnegada pela verdade; é a procura da unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa. Em resumidas ...

REFLEXÕES HETERODOXAS DE UM ESCREVINHADOR #001

Nem todas as sociedades possuem Estado, mas não há nenhuma sociedade que não possua alguma espécie de poder público. # Questionar não é negar. # A educação, necessariamente, se dá por meio do exemplo. Sem essa força, ela — a educação — acaba se tornando outra coisa. # Muitas vezes, aquilo que hoje parece ser uma forma de indiscrição, amanhã, provavelmente, poderá vir a ser uma fonte refinada de erudição. # Podemos, em alguma medida, entender o caráter como sendo a manifestação social da individualidade. # No fundo do poço da vida, há algo precioso a ser encontrado: a verdade sobre nós mesmos que, até então, tinha sido ignorada por nós. # Não basta afastar as pessoas do mal; é necessário estimulá-las a fazer o bem. # Obviedade das obviedades: nossos governantes e nossas elites são movidos apenas pelo amor-próprio, principalmente quando dizem que estão agindo pelo amor ao povo e à nação. * Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “...

FRAGMENTOS DE UM DIÁRIO HETERODOXO #030

Como nos ensina Ortega y Gasset, o ponto de vista cria o panorama. Por isso, muito cuidado com os pontos de vista que você imagina que sejam seus. # Ver e tocar os objetos é um modo de pensar. # Querer determinar isso ou aquilo, muitas vezes, é a causa de muitos equívocos, haja vista que as coisas e as pessoas apenas podem ser compreendidas nas relações que são estabelecidas entre elas. # Quando algo não nos interessa, dizemos: “Isso é muito profundo”. # A disciplina, em si, já é uma grande conquista. # Para ser um bom cidadão hoje em dia, é preciso não saber nada, não ler nada e, é claro, ter uma opinião [deformada] sobre tudo. # Ler é uma tecnologia. Escrever também. Provavelmente, as mais importantes de todas as tecnologias. # De certa forma, tudo nesta vida é leitura; tudo é, em alguma medida, decifração. # A dignidade humana é nutrida pelo amor a Deus presente em nossas ações e pensamentos. * Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. ...

QUANDO O NAUFRÁGIO É (IN)EVITÁVEL

José Ortega y Gasset dizia que as únicas ideias que realmente importam, que deveriam ser mortalmente levadas a sério por nós, são as ideias dos náufragos. Ora, se estivéssemos em um naufrágio, boiando entre o nada e lugar nenhum, com o firmamento sobre nossas cabeças, a imensidão diante de nossas vistas e apenas uma fugidia possibilidade de sobrevivência, as imagens, lembranças e ideias que, neste quadro, viessem à sua mente seriam, definitivamente, as coisas que realmente importam, tenhamos dado ou não importância a elas em nossa vida. A imagem do naufrágio, utilizada pelo filósofo espanhol, é muito ilustrativa, tendo em vista que viver, de certa forma, é uma sucessão de naufrágios existenciais; por isso, como dizia Fernando Pessoa, viver não é preciso, navegar é. E navegamos pelos dias da nossa vida, muitas e muitas vezes, como se não tivéssemos um rumo a seguir, cantando: “deixa a vida me levar, vida leva eu”. Noutros casos, de forma pouco refletida, escolhemos destinos que satisf...