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O AVESSO DA EDUCAÇÃO

Há um velho provérbio popular que nos lembra que a dor ensina a gemer. Dito de outro modo, seriam os obstáculos e as dificuldades a mãe e o pai do aprendizado, não a vida mansa sem nenhuma espécie de perrengue. Por essa razão, educadores como Jules Payot tinham uma clara consciência da importância da formação, da educação da vontade para que os indivíduos pudessem realmente crescer em espírito e verdade. Quando nossa vontade não é vergada, quando ela não é contrariada, ao invés de nos tornarmos indivíduos independentes, capazes de agir de forma minimamente eficaz, eficiente e efetiva, o que teremos como resultado majoritário são pencas e mais pencas de indivíduos que literalmente desmoronam todas as vezes em que têm a necessidade de realizar uma tarefa que exija um mínimo de esforço focado; porque, ao invés de tornarem-se autônomos, foram reduzidos a meras figuras autômatas. E vejam só como são as coisas: os antigos monges do deserto sabiam muito bem que o único animal que, por sua p...

ALÉM DA LETARGIA DA ALMA - Notas e Reflexões Heterodoxas Semanais

É fácil, muito fácil, esquecer o enorme esforço psíquico necessário para aprendermos alguma coisa com um mínimo de maestria. E, por esquecermos, com o tempo, ao invés de aprender mais e mais coisas com alguma profundidade, vamos nos mantendo rasos, superficiais e estagnados. # Todo brasileiro, de certa forma, leva dentro de si, como se fosse o cadáver de um homem morto, a fisionomia de um indivíduo que pode nascer, mas que até o momento não foi parido pela nossa alma; e, em muitos casos, jamais chegará a ver a luz da vida, tamanho o grau de letargia em que muitas pessoas se encontram. # Diante de muitas situações complexas, as pessoas tentam complicar as coisas, crentes de que, agindo assim, irão resolvê-las. Outras, por sua vez, diante das mesmas situações, acabam agindo de forma simplória e, por conta disso, dão com os burros n'água. Enfim, para encarar quadros complexos é necessário que sejamos simples, mas, feliz ou infelizmente, não existe nada mais complexo do que agirmos com...

A EDUCAÇÃO QUE NÃO TEMOS

Uma vez um sacerdote, ao final de uma Missa, disse laconicamente — de forma curta e grossa, feito um pino de patrola — que Deus não resiste a um homem de joelhos e com seu coração na mão, porque não há nada mais encantador neste mundo do que um coração humilde voltando as batidas dos seus átrios e ventrículos para o Alto. E, sejamos francos: estes dois pontos foram excluídos do horizonte da vida moderna. E não estou falando de senso religioso, não. Refiro-me à virtude da humildade como alicerce do ato de aprender, como bem nos ensina Hugo de São Vítor em seus “Opúsculos sobre o modo de aprender”, e ao senso de hierarquia, que é um instrumento imprescindível para ordenar os nossos apetites, inclinações, aptidões e habilidades para que possamos nos aprimorar como pessoa e, consequentemente, nos elevar em dignidade e verdade, como bem nos lembram tanto Gustavo Corção quanto José Ortega y Gasset. De mais a mais, é importante lembrar que a virtude da humildade não pode, de jeito-maneira, ...

DA VILEZA NOSSA DE CADA DIA - Notas e Reflexões Heterodoxas Semanais

Uma punição, para ter sentido, deve ter por objetivo o sincero desejo de corrigir e elevar, em dignidade e verdade, o outro. Caso contrário, é apenas uma expressão vil de sadismo fantasiado de bom-mocismo justiceiro. # Se o nosso coração está ébrio do cálice amargo do desejo de vingança, devemos nos distanciar, o mais que pudermos, de qualquer possibilidade de punirmos alguém — especialmente aqueles por quem tenhamos algum tipo de ressentimento. # Uma das grandes leviandades a que, vez por outra, nos entregamos nesta vida é a de imaginarmos que somos pessoas justas, muitíssimo justas; e, ao agirmos desse modo, esquecemo-nos de que estamos sempre diante de Deus, e Ele sabe muito bem que tipo de pessoa nós realmente somos. # É um sinal de grande inclemência destruir a vida de uma pessoa não porque ela faz algo abominável, mas simplesmente porque ela pensa de uma forma diferente da nossa. E o pior nisso tudo é que, todas as vezes que agimos dessa forma desapiedada, ainda por cima acredita...

O SILÊNCIO DE PILATOS

No mundo atual, há uma grande valorização daquilo que se convencionou chamar de “opinião própria”; e, se esta for qualificada como sendo uma “opinião crítica”, aí a sua cotação vai para as alturas. Porém, como muitas outras coisas que abundam no mundo contemporâneo, essa supervalorização da posse de uma “opinião” é apenas mais um trem fuçado de valor duvidoso. Só isso, e olhe lá. Pessoalmente falando, não dou importância nenhuma para a opinião de ninguém, muito menos para as minhas, pois toda opinião é apenas uma impressão imprecisa a respeito de algo ou de alguém e, como tal, é apenas uma geringonça de pouca valia. De mais a mais, se tivermos nossas vistas invadidas pela luz de uma verdade, o que faremos? Ficaremos agarrados à nossa opinião criticamente furada ou a deixaremos de lado para abraçar a verdade que nos foi revelada por uma determinada circunstância da vida? Bem, foi o que eu imaginei. Infelizmente, tratamos as nossas opiniões como se fossem bichinhos de estimação e, ao f...

SOBRE A TIRANIA DO OLHAR ENVIESADO - notas e reflexões heterodoxas semanais

Errarmos na forma é algo compreensível e até mesmo aceitável; agora, errar na intenção não, porque são outros quinhentos. # Quando o homem empenha-se em negar o seu destino eterno, ele acaba, cedo ou tarde, perdendo a sua confiança na natureza humana, porque a nossa natureza decaída, sem o guiamento divino, é tremendamente traiçoeira. # Buscar a sabedoria, em sua essência, significa ter olhos e ouvidos atentos para toda e qualquer instrução que nos for brindada pela vida para, com ela, crescermos em espírito e verdade. # Nem mesmo um santo é capaz de dizer algo que toque profundamente o coração de um orgulhoso. # Deus veio revelar-nos o Seu rosto no rosto humano, nos mostrar a Sua presença perenemente refletida no nosso olhar. # Tomemos cuidado — muito cuidado — para não acabarmos nivelando a realidade ao patamar limitado e limitante das nossas interpretações pretensamente críticas. # A felicidade plena neste mundo é impossível; o impossível necessário. # Uma das principais causas dos ...

COM O CORAÇÃO NA MÃO

Lembro-me da primeira vez que assisti ao filme A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson. Como também não esqueço o guaju que se espalhou pelos quatro ventos contra a obra, com incontáveis figuras, figurinhas, figuraças e figurões rasgando as vestes por conta da forma crua com que o diretor procurou retratar a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. E, do mesmo modo, não me esqueço das palavras ditas pelo Papa São João Paulo II que, ao ser perguntado sobre o que achou do filme, disse, de forma lacônica: “Foi assim”. Mas, como estava dizendo, não me esqueço da primeira vez que o assisti. Cheguei ao cinema, tomei meu assento e, enquanto aguardava o início da exibição, havia um clima levemente festivo dentro da sala de projeção, típico de um cinema. De repente, a luz foi apagada, a exibição começou e, gradativamente, o silêncio tomou conta da sala; o ambiente foi tomado pelas cenas da película, com os diálogos das personagens encenadas nas línguas da época — aramaico, hebraico e latim — junta...

ENTRE O DESDÉM E A PRONTIDÃO - notas e reflexões heterodoxas semanais

Sem se darem conta, muitíssimas vezes os divergentes estão plenamente certos naquilo em que divergem. E é uma pena que estejam tão aturdidos pelas emoções do momento para perceberem que estão falando do mesmo problema a partir de perspectivas distorcidas. # Deus, em sua infinita e inefável sutileza, escreve o Seu santo nome na alma de cada ser humano. # Três conselhos providenciais que desdenhamos frequentemente: sejamos atentos, muito atentos, ao ouvir qualquer coisa, por mais banal que seja; procuremos estar sempre de prontidão para estudar, orar e trabalhar; por fim, nunca — nunca mesmo — nos afobemos para responder a alguém. # Três perguntas que toda pessoa deve fazer a si mesma: o que o ser humano deve fazer? O que, frequentemente, o ser humano faz? Quais são os motivos que levam o ser humano a fazer o que faz e a desdenhar aquilo que ele deveria fazer? # Tudo nos é útil, tudo, desde que não nos esqueçamos de que aqui estamos para servir a vontade de Deus. # Todos nós já levamos a...

A NÉVOA DA PRESUNÇÃO

Há muito, Manuel Castells declarou que a época em que vivemos poderia ser chamada de “A Era da Informação”. Na verdade, ele não foi o único a apontar nessa direção, mas, até onde sei, é o único que escreveu uma volumosa trilogia para explicar esses tempos tão fascinantes quanto obscuros nos quais vivemos. É uma era fascinante pelo fácil acesso que temos às informações — de toda e qualquer ordem — quanto aos meios para produzir e disseminar tudo o que nos der na telha; e isso, venhamos e convenhamos, é algo realmente fascinante. Por isso, neste quesito, discordo tanto de Umberto Eco quanto de Jacques Le Goff quando estes afirmaram que a internet acabou apenas dando voz e vez aos idiotas de todo o mundo. Não que não tenhamos boleiras de tontos que dizem tonterias para uma multidão ávida por idiotices; claro que há. O problema é que a forma como eles afirmaram isso dá a impressão de que, na era anterior ao advento da internet, não havia disparates que eram disseminados a torto e a direi...

A ORQUESTRA DA VAIDADE

Procurar dizer com clareza aquilo que pensamos é importante, mas muito mais importante que isso é pensar com serenidade e clareza tudo aquilo que nós temos a intenção de dizer. Aí estão duas regras simples que todos nós poderíamos seguir se não tivéssemos nosso coração maculado pela vaidade e pela soberba que governam, discretamente, o nosso modo de ser. Na real, nós realmente pensamos seriamente naquilo que estamos dizendo a respeito de qualquer assunto, ou apenas reagimos, simiescamente, aos estímulos que recebemos do meio social e midiático? Pois é. Se não paramos para refletir sobre isso, é bem provável que nunca tenhamos realmente parado para pensar sobre o que quer que seja; e nossa possível reação epidérmica a estas míseras linhas seja um claro sinal de que grande parte das nossas respostas às mensagens que recebemos é apenas, e tão somente, uma reação midiaticamente condicionada — jamais uma reflexão crítica, como gostamos de chamar. Se estivermos dispostos, existem vários cami...