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REFLEXÕES HETERODOXAS DE UM ESCREVINHADOR #002

A sociedade — toda e qualquer sociedade — é composta por pessoas; logo, forçosamente, ela manifestará as mesmas qualidades dos seus integrantes. # Cada um tem as suas razões; cada qual tem as suas vaidades. # O egoísmo, em sua forma coletivista, manifesta-se como um sectarismo, justificado ou não por uma ideologia. A vaidade, quando se manifesta coletivamente, o faz na forma de uma ideologia que justifica toda e qualquer absurdidade. # Todo bom principiante é um pouco cético; já todo cético sempre será apenas um principiante. # A história seria a soma dos erros humanos narrados na forma de um drama paradoxal. # Para além dos mórbidos limites da razão pura, temos o pulsar da razão vital. # Neguemos o racionalismo, que nulifica a vida, e digamos "não" ao relativismo, que faz a razão evaporar. # Lembremos: o "não" nunca é definitivo, da mesma forma que o "sim" jamais é absoluto. # Três objetivos convergentes: purificação, iluminação e perfeição. Três caminhos...

A PEDAGOGIA DA VAIDADE

A professora Inger Enkvist, em seus livros e palestras, frequentemente chama a atenção para uma obviedade ululante que, para a infelicidade geral das futuras gerações, é desdenhada por praticamente todos nós. Ela afirma, de forma clara e categórica, que uma nação minimamente séria deve cultivar uma atenção especial para com a educação das tenras gerações; porque, se isso não for feito, estaremos literalmente colocando em risco a existência futura de toda a nossa sociedade. Por essa razão, e por inúmeras outras, não poderia haver espaço para levianas aventuras experimentais nesta seara. Aliás, quando tomamos a palavra educação e meditamos sobre o seu significado, compreendemos claramente o tamanho do enrosco em que estamos nos metendo, devido à forma como atualmente as autoridades (políticas e intelectuais) vêm tratando a questão. Como todos nós sabemos, educação vem do latim ex-ducere, que quer dizer, simplesmente, “guiar para fora”. Deste modo, o ato de educar consiste em levar o infa...

NÃO É APENAS UM CAJUZINHO

Navegar é preciso, viver não é preciso, diz o poeta; mas, hoje em dia, tornou-se praticamente impossível não singrarmos com nossa nau existencial pelo remanso das águas virtuais da internet. E, em meio às venturas e desventuras deste mundo de possibilidades sem fronteiras, é muito difícil não nos depararmos com um ou outro vídeo ou postagem falando das bonitezas da filosofia e do quanto esse trem nos faria um bem danado. E as pessoas que entram nessa vibe dizem que curtem esse embalo porque gostam muito de trocar opiniões com outras pessoas e, é claro, de discutir. Bem, isso pode ser divertido, pode inclusive ajudar a desenvolver habilidades retóricas que podem ser muito úteis em nossa vida, mas o fiar do nosso passo por essa trilha não nos leva ao filosofar, porque isso não é filosofia nem aqui, nem na casa do chapéu. O filosofar é, em sua essência, a procura amorosa e abnegada pela verdade; é a procura da unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa. Em resumidas ...

REFLEXÕES HETERODOXAS DE UM ESCREVINHADOR #001

Nem todas as sociedades possuem Estado, mas não há nenhuma sociedade que não possua alguma espécie de poder público. # Questionar não é negar. # A educação, necessariamente, se dá por meio do exemplo. Sem essa força, ela — a educação — acaba se tornando outra coisa. # Muitas vezes, aquilo que hoje parece ser uma forma de indiscrição, amanhã, provavelmente, poderá vir a ser uma fonte refinada de erudição. # Podemos, em alguma medida, entender o caráter como sendo a manifestação social da individualidade. # No fundo do poço da vida, há algo precioso a ser encontrado: a verdade sobre nós mesmos que, até então, tinha sido ignorada por nós. # Não basta afastar as pessoas do mal; é necessário estimulá-las a fazer o bem. # Obviedade das obviedades: nossos governantes e nossas elites são movidos apenas pelo amor-próprio, principalmente quando dizem que estão agindo pelo amor ao povo e à nação. * Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “...

FRAGMENTOS DE UM DIÁRIO HETERODOXO #030

Como nos ensina Ortega y Gasset, o ponto de vista cria o panorama. Por isso, muito cuidado com os pontos de vista que você imagina que sejam seus. # Ver e tocar os objetos é um modo de pensar. # Querer determinar isso ou aquilo, muitas vezes, é a causa de muitos equívocos, haja vista que as coisas e as pessoas apenas podem ser compreendidas nas relações que são estabelecidas entre elas. # Quando algo não nos interessa, dizemos: “Isso é muito profundo”. # A disciplina, em si, já é uma grande conquista. # Para ser um bom cidadão hoje em dia, é preciso não saber nada, não ler nada e, é claro, ter uma opinião [deformada] sobre tudo. # Ler é uma tecnologia. Escrever também. Provavelmente, as mais importantes de todas as tecnologias. # De certa forma, tudo nesta vida é leitura; tudo é, em alguma medida, decifração. # A dignidade humana é nutrida pelo amor a Deus presente em nossas ações e pensamentos. * Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. ...

QUANDO O NAUFRÁGIO É (IN)EVITÁVEL

José Ortega y Gasset dizia que as únicas ideias que realmente importam, que deveriam ser mortalmente levadas a sério por nós, são as ideias dos náufragos. Ora, se estivéssemos em um naufrágio, boiando entre o nada e lugar nenhum, com o firmamento sobre nossas cabeças, a imensidão diante de nossas vistas e apenas uma fugidia possibilidade de sobrevivência, as imagens, lembranças e ideias que, neste quadro, viessem à sua mente seriam, definitivamente, as coisas que realmente importam, tenhamos dado ou não importância a elas em nossa vida. A imagem do naufrágio, utilizada pelo filósofo espanhol, é muito ilustrativa, tendo em vista que viver, de certa forma, é uma sucessão de naufrágios existenciais; por isso, como dizia Fernando Pessoa, viver não é preciso, navegar é. E navegamos pelos dias da nossa vida, muitas e muitas vezes, como se não tivéssemos um rumo a seguir, cantando: “deixa a vida me levar, vida leva eu”. Noutros casos, de forma pouco refletida, escolhemos destinos que satisf...

FRAGMENTOS DE UM DIÁRIO HETERODOXO #029

O que muitos chamam de cultura, de alta cultura, não passa de siricuticos de uma alma medíocre que se consome em risinhos histéricos. # Há algum antídoto para um simulacro de cultura e para uma consciência criticamente fingida? Sim: vergonha na cara e estudar com zelo e seriedade. # Ao romper de uma crise, podemos derramar lágrimas de angústia ou de arrependimento. Estas são lágrimas que lavam nossa alma; aquelas são as que irrigam nossas dores e excitam nossas mágoas. # Para entendermos de uma vez por todas que modismos não têm força para ditar as regras e guiar os rumos da história, basta que vejamos algumas fotos antigas. # Ser alguém na vida, muitas vezes, é uma forma de punição. # Ser autêntico é a base da genialidade. O problema é sabermos o que, de fato, seria essa tal de autenticidade neste mundo de simulacros. # É mais fácil manter a disciplina do que querer estar o tempo todo motivado. # Pecados que não provocam uma contrição em nosso coração geralmente nos levam a outros pec...