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NÃO TINHA COMO TER UM RESULTADO DIFERENTE

Esta semana me sobrou um tempinho e, por isso, dei um pulo no sebo de que sou freguês de longa data para dar uma olhadela nas velhas novidades que lá havia. Para minha felicidade, encontrei o livro Meretrizes e Doutores: saber médico e prostituição no Rio de Janeiro (1840–1890), de Magali Engel. Ao folheá-lo, tenho uma grata surpresa: o referido livro tinha pertencido à minha ex-professora Terezinha Saldanha — que Deus a tenha. Sempre que podia, levava meus filhos comigo a sebos, livrarias e bibliotecas. Hoje raramente faço isso, pois atualmente eles vão por conta própria e, às vezes, para minha alegria, são eles que me convidam para fazer um tour entre estantes de livros novos e usados. Amo livros. Não vivo sem eles. E o gozado nessa paixão é que ela surgiu em mim antes mesmo do gosto pela leitura germinar. Quando criança, passava muitas e muitas vezes a tarde toda na biblioteca do colégio. Lendo livros? Não. Admirando-os nas estantes, pegando um e outro para folheá-los e, é claro, ...

NOSSA VIL SITUAÇÃO

Uma coisa é a automação De todo o processo de produção Que nos causa tanta aflição. Outra coisa é a automação Da mente dos cidadãos, Que não mais pensam Sobre a nossa vil Situação. 07/IX/2026.

MALÍCIA EM MASSA

O problema do mundo atual Não é tanto a chamada Inteligência artificial, Muito menos o é A nossa intratável Burrice natural. O mal que nos ameaça É a malícia humana Que hoje, em massa, Se processa. 07/IX/2026.

QUANDO A GRITARIA CHEGA NA ABÓBADA CELESTE - Notas e reflexões heterodoxas

1. O primeiro sinal de que a nossa vaidade suplanta a razoabilidade e o senso das proporções é a necessidade de querer sempre ter a última palavra em uma discussão ou em uma conversa. # 2. A necessidade de querermos sempre ter razão é um claro sintoma de que nós não temos o costume de usar a dita-cuja da razão. # 3. Repare — e repare bem, para em dois palitos perceber — que as pessoas que mais facilmente desdenham da compaixão por aqueles cidadãos que são seus desafetos, por miudezas ideológicas sem razão, são justamente aquelas figuras que vivem o dia todo, e praticamente todos os dias, arrotando empatia, ética, cidadania e, é claro, democracia. # 4. Permitir que as raposas fiquem responsáveis pelo galinheiro, como bem nos ensina o velho ditado popular, é uma tremenda de uma imprudência — para não dizer uma imbecilidade. Agora, permitir que os porcos tornem-se os senhores incontestáveis de toda uma propriedade, seja ela uma granja, um sítio ou uma fazenda, não é outra coisa senão a ma...

A ESPADA DE DEMÓSTENES NOSSA DE CADA DIA

Como e por que escrever em um país onde a maioria avassaladora da população que sabe ler não quer nem saber de tomar em suas mãos um livro para ler — e, quando por descuido pega um, é um livro de autoajuda? Complicado, não é mesmo, meu velho? Apenas um parêntese: nada contra os livros deste naipe porque, de certa forma, eles são como um verbete de enciclopédia ou da Wikipédia: errado não é começar tomando um como ponto de partida; o problema é ficar com ele e apenas nele como referência última e absoluta. Fecha parêntese. E veja só como o trem é doido neste nosso país lindo e complicado por natureza: de acordo com o Instituto Paulo Montenegro, que nos apresenta o INAF (Indicador de Analfabetismo Funcional), o cenário entre aqueles que são alfabetizados é ainda mais — como diria o senhor Spock — fascinante. Segundo o referido instituto, integram a população brasileira entre 15 e 64 anos de idade apenas 7% de analfabetos. Porém, entre os que são considerados alfabetizados, temos 22% de l...

PULANDO SEM PARAQUEDAS - Notas e reflexões heterodoxas

1. O nosso sentimentalismo não é — e nunca será — causa suficiente para gerar um ato de bondade. Na verdade, na grande maioria das vezes, ele é um grande obstáculo. # 2. Há uma diferença abissal entre parecer bom e ser bom; e, para uma pessoa de olhar e discernimento dispersos, distinguir uma coisa da outra é, praticamente, uma impossibilidade. # 3. Como reconhecer um tirano? Eis aí uma pergunta que vale ouro. Na real, há muitos sinais que podem denunciar um figurão desse naipe, mas de todos eles há um que é a sua marca distintiva: querer obstruir a livre circulação de informações sob a justificativa de que está fazendo isso em nome de um "bem maior". Meu amigo, qualquer um que venha insinuar algo assim, pode ter certeza, bom sujeito não é. # 4. Urge ter paciência quando tudo à nossa volta nos convida a mergulhar num oceano de histeria. Urge, mas é um trem danado de difícil manter a cabeça no lugar num quadro assim. E como é! # 5. Ler um e-book é uma maravilha pela comodidade...

O PRIMEIRO PASSO DE UMA GRANDE JORNADA

O professor Antônio Cândido, em uma entrevista há muito concedida, disse uma obviedade ululante que, como todas as obviedades, precisa ser repetida porque nós, seres humaninhos, temos o péssimo hábito de esquecer tudo aquilo que realmente tem alguma importância. Disse ele que a leitura de Homero, Cervantes, Shakespeare, Dumas, Dostoiévski, Machado e companhia limitada, juntamente com o conhecimento de histórias folclóricas, literatura de cordel e demais preciosidades, nunca fez mal a ninguém. Aliás, até onde sabemos, ninguém ficou estúpido ou se tornou uma pessoa pior por ter se entregado a esse tipo de desfrute literário. Além disso, Northrop Frye e Harold Bloom nos lembram que a literatura, por meio de suas páginas, nos apresenta vidas humanas possíveis que, se forem lidas, apropriadas e devidamente interiorizadas, enriquecem a nossa alma com perspectivas que seriam literalmente inacessíveis a uma pessoa que sabe ler e não lê. E tem mais! Por termos contato com esses dramas humanos f...

XUCRISMO DECANTADO - Notas e reflexões heterodoxas

1. Uma coisa é planejar aquilo que iremos fazer; outra coisa é ficar ciscando em círculo feito galizé ao redor das miudezas de meia dúzia de papéis ornados com gráficos, tópicos e tabelas, achando que, fazendo isso, estamos resolvendo algum problema. # 2. Quando um gestor, chefe ou líder não quer resolver um problema, ele convoca uma reunião. E se as reuniões tornam-se uma fáustica rotina, é sinal de que, além de não quererem resolver os problemas existentes, esses burocratas querem inventar novos problemas para continuarem na mesma — porém, agora com um volume bem maior de pepinos sem solução alguma, só para dar stress e azia. # 3. Não se permita desanimar. Se há uma coisa que o mundo à nossa volta mais deseja é nos ver cabisbaixos, com os faróis da alma à meia-luz, arrastando os para-choques do caráter na poeira da vã-glória. Não se permita. Permita-se chorar, gritar bem alto — a ponto de fazer zunir os ouvidos das estrelas —, mas não se permita desanimar e desistir de seja lá o que ...

MUITO ALÉM DO MEGAMENTE - Notas e reflexões heterodoxas

1. A sabedoria nos convida a ouvi-la (Provérbios VIII). Ouvir com atenção aquilo que ela sussurra em nosso coração. Porém, no mundo atual, quantas são das pessoas que realmente procuram ouvir o seu semelhante com a devida reverência que ele merece? Aliás, quem procura ouvir com o coração aberto as palavras ditas ou berradas pelos seus inimigos e desafetos, procurando meditar sobre elas para, assim, poder separar o que é verdadeiro daquilo que é falso? Pois é. Se agimos assim uns em relação aos outros, dificilmente a sabedoria encontrará morada nos átrios do nosso coração porque, na real, nós a recusamos com a nossa intratável malícia. # 2. O humor é fundamental para podermos crescer em espírito e verdade — o bom humor, a ironia e companhia limitada; quanto à criancice, não (Provérbios IX). Neca de pitibiriba. Para podermos realmente robustecer a nossa alma, é imprescindível que procuremos deixar nossas atitudes petulantes para trás e, gradativamente, passarmos a cultivar novos hábitos ...

APENAS UM RELES PROFESSOR - Notas e reflexões heterodoxas

1. Na dúvida, pare, ore e reflita; e, após refletir a respeito de seus caminhos e descaminhos, ore mais uma vez antes de voltar a colocar o seu pé nas estradas da vida. # 2. Muitos se dizem de direita, outros tantos afirmam que são de esquerda e, ainda, há aqueles que juram de pés juntos que são moderados. A partir desses rótulos, muitos bons e velhos amigos se engalfinham. Porém, no fundo — e não é tão fundo assim —, grande parte dos brasileiros não é nada disso; na real, a grande maioria dos brasileiros tem uma mentalidade fisiológica bem rastaquera e, para não ficar feio, apenas a fantasia com um rótulo ideológico para não sair, assim, tão mal na fita. # 3. Todos nós cremos que temos ideias geniais em nossa cumbuca, mas esse balão de originalidade estoura quando somos obrigados a colocá-las no papel e torná-las minimamente inteligíveis. E isso acontece porque, quando vamos escrever, somos obrigados a pensar naquilo que estávamos “ideando” e, ao fazê-lo, descobrimos que não havia...