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A JOIA QUE FOI MALANDRAMENTE PERDIDA

No livro “A bacia de Pilatos”, de Humberto de Campos, há um conto que nos apresenta a história de um padre italiano que estava vindo para o Brasil. Quando o navio estava se aproximando da baía de Guanabara, ele se dirigiu ao convés para contemplar a paisagem. E eis que, do nada, apareceram duas portuguesas. Pediram a bênção e perguntaram se o vigário conhecia o Brasil. Ele disse que sim e que, na sua humilde opinião, não existia lugar mais belo na face da Terra. Impressionadas com o entusiasmo do homem de Deus, perguntaram-lhe como era a fiscalização e, de pronto, ele disse: “Rígida, minhas filhas. Não passa nada.” Então, as duas abriram o jogo. Disseram que estavam vindo para assumir a herança de um tio, uma propriedade em Barbacena (sempre em Barbacena), e que, por isso, estavam trazendo consigo as joias da família; joias essas que estavam há gerações na família e que, por essa razão, não dispunham de nota fiscal. Diante disso, elas temiam perdê-las na aduana. E o que é que o padre t...

PENSO, LOGO ME ARREBENTO - Notas e reflexões heterodoxas semanais

O que é excessivamente fácil impede o aprendiz de realizar plenamente suas potencialidades, ao mesmo tempo que infunde em seu coração um tremendo sentimento de arrogância e soberba. # A grande tragédia das classes falantes do mundo contemporâneo — que se creem letradas por serem diplomadas — é que elas confundem facilmente a inspiração das musas com a agitação das massas. # Como muito bem nos ensina o poeta espanhol Antonio Machado, é de fundamental importância que aprendamos a distinguir as vozes da nossa consciência dos ecos da sua ausência. # Todos os extremos têm lá as suas razões. Claro, boa parte dessas razões é equivocada, do princípio ao fim; mas, mesmo assim, sempre há aqui e acolá um e outro espasmo de lucidez. # Cogito, ergo sum. Penso, logo existo. Bem, é aí que a porca torce o rabo, porque após pensarmos, muitas e muitas vezes, logo na sequência, acabamos tropeçando e quebrando a cara, não é mesmo? # A disciplina é a base do aprendizado — do aprendizado de qualquer coisa. ...

ESPARRELAS PUBLICITÁRIAS NADA EDIFICANTES

É curioso ver que na arena do poder — e fora dela também — muitíssimas pessoas se esforçam para mostrar para todo mundo, menos para Deus, que são pessoas de valor e não sujeitinhos cuja dignidade tem um preço, sempre devidamente atualizado e corrigido pela inflação. E o que mais chama a atenção é que, quanto mais essas figuras, figurinhas e figurões tentam provar que são criaturas de alma ilibada, mais se enrolam nos próprios pés. Na verdade, todos nós, em algum momento de nossas vidas, acabamos por cair nesse tipo de esparrela e terminamos por pagar aquele mico existencial nada original de querer posar de detentores de uma dignidade que não nos pertence. Bem, noves fora zero, há um momento em que todos nós podemos ver com clareza de que material é feito o nosso caráter e qual é a têmpera de nossa alma: é quando estamos diante da morte; da nossa morte. É quando estamos frente à possibilidade de ficarmos cara a cara com ela que realmente iremos descobrir qual é a envergadura do noss...

A CAPELINHA

Num domingo de Pentecostes, Próximo ao cair da tarde, A campainha da casa tocou, Anunciando a chegada dela. Era nossa vizinha que trazia A imagem de Nossa Senhora, Para pernoitar em nosso lar, Junto de nossa família. Acolhi com alegria a chegada Da singela capelinha de Nossa Senhora Aparecida, Que numa tarde silenciosa E ensolarada de Pentecostes Agraciou-nos com sua visita. Dartagnan da Silva Zanela, 24/V/2026.

CONTRA AS ALMAS SEBOSAS - Notas e reflexões heterodoxas semanais

De um modo geral e nada preciso, podemos dizer que a maneira de pensar do brasileiro médio — com todos os seus diplomas e certificados de sabe-se lá o quê — acaba sendo frequentemente cingida e diagramada por opiniões soltas em misto com um punhado de ilusões travestidas de justa indignação. # Como nos ensina o filósofo espanhol Julián Marías, a História vinga-se, pela simples força das coisas, de todas as tentativas de ignorá-la. # Não devemos, de jeito maneira, querer nos adaptar ao espírito dos tempos, mas sim nos esforçar para absorvê-lo e transcendê-lo dialeticamente. # Nenhuma mudança — nenhuminha — faz sentido se não estiver alicerçada sobre um fundo de permanência sólido, que seja reflexo e símbolo temporal daquilo que faz morada na eternidade. # É importante lembrarmos que o tradicionalismo não é o mesmo que o conservadorismo. O tradicionalismo, em todas as suas formas, é apenas uma manifestação de decadência; logo, de mudança revolucionária às avessas. # A admiração é, de cer...

É NO FOGO BRANDO QUE SE PREPARAM OS GRANDES MANJARES

Com o objetivo de resolver pequenos problemas é que surgem grandes inventos. Um destes, sem dúvida alguma, é a panela de pressão. Quem gosta das lides junto ao fogão sabe o quanto essa abençoadinha facilita a nossa vida. Há muito comprei uma para, é claro, ver se eu cozinho mais depressa. Sim, para cozinhar certas coisas e resolver determinados problemas, a urgência acaba sendo necessária; já outros, por sua natureza peculiar, demandam tempo e paciência — tempo que muitas vezes nos falta e paciência de que frequentemente não dispomos. E se há algo que todos nós deveríamos apreciar e ponderar com muita paciência são os “debates” que, de tempos em tempos, acabam tomando o centro das atenções. Estes, do seu jeitão todo especial, instigam-nos a nos indignarmos do nada e, com sangue nos olhos, a bradarmos aos quatro ventos a nossa opinião, tomando partido por essa ou por aquela bandeira, ideia, proposta ou por qualquer esparrela deste gênero. Tal fenômeno torna-se mais curioso quando esses ...

PARA NOSSA REMISSÃO

A verdade se revela De forma sutil, discreta, Sem glamour nem holofotes. Revela-se a verdade Às almas que são simples No olhar e no coração. A verdade se apresenta, Sem fanfarra nem alarde, Aos corações que ardem Diante da formosura dela, Que toca as pustulentas chagas Da nossa alma manchada Pela ferida adâmica, Que deve ser reconhecida Para ser curada e redimida. 15/V/2026.

A MEDIOCRIDADE NOSSA DE CADA DIA - Notas e reflexões heterodoxas semanais

Se os fins que almejamos realizar são degradantes, que dignidade poderão ter os meios que iremos empregar para realizá-los? Essa é toda a tragédia de grande parte dos nossos planos. # Existem muitas vidas que nós deveríamos tomar como um tema frequente de meditação. Dentre elas, penso que deveríamos regularmente refletir sobre a vida de Judas Iscariotes e a respeito de São Dimas. # Seguir com retidão uma vocação é, com serenidade, questionar as ideias que afirmam que deve haver um equilíbrio entre o trabalho e a vida. # Não confundamos jamais a macaqueação de um ataque de histeria midiaticamente concebido com as sinapses de uma sincera e abnegada iniciação à procura pelo conhecimento honestamente edificado. # É importante não nos esquecermos de que as redes de informação não procuram maximizar a compreensão da verdade — nada disso. Elas procuram, invariavelmente, encontrar um equilíbrio entre os interesses de alguns grupos, as farsas convenientes, as verdades inapropriadas e a ordem qu...

QUANDO A CENSURA ENTRA SEM PRECISAR PEDIR LICENÇA

A História nos ensina, de forma trágica, que existem mil e uma maneiras de censurar, de calar a boca daqueles que os donos do poder consideram inconvenientes. Não apenas a História, mas também a literatura que, através de obras distópicas, retrata-nos de forma alegórica o quão grande é a criatividade dos tiranos e tiranetes deste mundão para silenciar as vozes que não estão de acordo com sua opereta. De todas as obras distópicas, o livro “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, tem um lugar de destaque. Nesta distopia, o autor descreve-nos uma hipotética sociedade futura onde as pessoas não leem mais livros. Neste universo ficcional, ler é um crime gravíssimo e, por isso, todas as vezes que livros eram encontrados, eles eram queimados, ironicamente, pelo corpo de bombeiros que, com seus lança-chamas, consumia as obras à temperatura de 451 graus Fahrenheit. Mas por que fazer uma barbaridade dessas? Ora, porque livros são perigosos. Eles são um perigo porque expõem as pobres pessoinhas a difer...

MUITO ALÉM DO TÉDIO

De tempos em tempos, todo cronista, seja ele um mestre ou um mero artesão, se defronta com o dia fatídico em que lhe dá um terrível branco na cuca; em que não lhe pinta nenhuma inspiração para escrever, por mais insípida que seja. Quando isso acontece, sinceramente, é de lascar. Imagino que deva existir uma série de razões sociológicas e psicológicas que nos ajudem a ter uma visão mais clara das causas desse fenômeno, mas que, francamente, não vêm ao caso neste momento. Isso porque, quando deitamos nossas vistas nas páginas que foram redigidas pelos grandes cronistas brasileiros — naquelas que foram escritas sem a menor fagulha de inspiração —, entendemos em dois palitos que, nas mãos certas, até mesmo a monotonia e a ausência de qualquer lampejo tomam uma forma singular, criativa e profundamente humana. Quando Rubem Braga escrevia suas crônicas sem assunto, convidava-nos a prestarmos mais atenção em nossa monotonia cotidiana, nos detalhes da vida que, por inúmeras razões, acabam sem...