Pular para o conteúdo principal

Postagens

SOBRE A TIRANIA DO OLHAR ENVIESADO - notas e reflexões heterodoxas semanais

Errarmos na forma é algo compreensível e até mesmo aceitável; agora, errar na intenção não, porque são outros quinhentos. # Quando o homem empenha-se em negar o seu destino eterno, ele acaba, cedo ou tarde, perdendo a sua confiança na natureza humana, porque a nossa natureza decaída, sem o guiamento divino, é tremendamente traiçoeira. # Buscar a sabedoria, em sua essência, significa ter olhos e ouvidos atentos para toda e qualquer instrução que nos for brindada pela vida para, com ela, crescermos em espírito e verdade. # Nem mesmo um santo é capaz de dizer algo que toque profundamente o coração de um orgulhoso. # Deus veio revelar-nos o Seu rosto no rosto humano, nos mostrar a Sua presença perenemente refletida no nosso olhar. # Tomemos cuidado — muito cuidado — para não acabarmos nivelando a realidade ao patamar limitado e limitante das nossas interpretações pretensamente críticas. # A felicidade plena neste mundo é impossível; o impossível necessário. # Uma das principais causas dos ...

COM O CORAÇÃO NA MÃO

Lembro-me da primeira vez que assisti ao filme A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson. Como também não esqueço o guaju que se espalhou pelos quatro ventos contra a obra, com incontáveis figuras, figurinhas, figuraças e figurões rasgando as vestes por conta da forma crua com que o diretor procurou retratar a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. E, do mesmo modo, não me esqueço das palavras ditas pelo Papa São João Paulo II que, ao ser perguntado sobre o que achou do filme, disse, de forma lacônica: “Foi assim”. Mas, como estava dizendo, não me esqueço da primeira vez que o assisti. Cheguei ao cinema, tomei meu assento e, enquanto aguardava o início da exibição, havia um clima levemente festivo dentro da sala de projeção, típico de um cinema. De repente, a luz foi apagada, a exibição começou e, gradativamente, o silêncio tomou conta da sala; o ambiente foi tomado pelas cenas da película, com os diálogos das personagens encenadas nas línguas da época — aramaico, hebraico e latim — junta...

ENTRE O DESDÉM E A PRONTIDÃO - notas e reflexões heterodoxas semanais

Sem se darem conta, muitíssimas vezes os divergentes estão plenamente certos naquilo em que divergem. E é uma pena que estejam tão aturdidos pelas emoções do momento para perceberem que estão falando do mesmo problema a partir de perspectivas distorcidas. # Deus, em sua infinita e inefável sutileza, escreve o Seu santo nome na alma de cada ser humano. # Três conselhos providenciais que desdenhamos frequentemente: sejamos atentos, muito atentos, ao ouvir qualquer coisa, por mais banal que seja; procuremos estar sempre de prontidão para estudar, orar e trabalhar; por fim, nunca — nunca mesmo — nos afobemos para responder a alguém. # Três perguntas que toda pessoa deve fazer a si mesma: o que o ser humano deve fazer? O que, frequentemente, o ser humano faz? Quais são os motivos que levam o ser humano a fazer o que faz e a desdenhar aquilo que ele deveria fazer? # Tudo nos é útil, tudo, desde que não nos esqueçamos de que aqui estamos para servir a vontade de Deus. # Todos nós já levamos a...

A NÉVOA DA PRESUNÇÃO

Há muito, Manuel Castells declarou que a época em que vivemos poderia ser chamada de “A Era da Informação”. Na verdade, ele não foi o único a apontar nessa direção, mas, até onde sei, é o único que escreveu uma volumosa trilogia para explicar esses tempos tão fascinantes quanto obscuros nos quais vivemos. É uma era fascinante pelo fácil acesso que temos às informações — de toda e qualquer ordem — quanto aos meios para produzir e disseminar tudo o que nos der na telha; e isso, venhamos e convenhamos, é algo realmente fascinante. Por isso, neste quesito, discordo tanto de Umberto Eco quanto de Jacques Le Goff quando estes afirmaram que a internet acabou apenas dando voz e vez aos idiotas de todo o mundo. Não que não tenhamos boleiras de tontos que dizem tonterias para uma multidão ávida por idiotices; claro que há. O problema é que a forma como eles afirmaram isso dá a impressão de que, na era anterior ao advento da internet, não havia disparates que eram disseminados a torto e a direi...

A ORQUESTRA DA VAIDADE

Procurar dizer com clareza aquilo que pensamos é importante, mas muito mais importante que isso é pensar com serenidade e clareza tudo aquilo que nós temos a intenção de dizer. Aí estão duas regras simples que todos nós poderíamos seguir se não tivéssemos nosso coração maculado pela vaidade e pela soberba que governam, discretamente, o nosso modo de ser. Na real, nós realmente pensamos seriamente naquilo que estamos dizendo a respeito de qualquer assunto, ou apenas reagimos, simiescamente, aos estímulos que recebemos do meio social e midiático? Pois é. Se não paramos para refletir sobre isso, é bem provável que nunca tenhamos realmente parado para pensar sobre o que quer que seja; e nossa possível reação epidérmica a estas míseras linhas seja um claro sinal de que grande parte das nossas respostas às mensagens que recebemos é apenas, e tão somente, uma reação midiaticamente condicionada — jamais uma reflexão crítica, como gostamos de chamar. Se estivermos dispostos, existem vários cami...

HAVIA MAIS DE UMA PEDRA

Há décadas um hábito me acompanha: sempre tenho comigo ao menos um livro para fazer-me companhia nas horas vagas — que, na maioria das vezes, são apenas alguns minutos. Mesmo tendo um punhado de e-books no celular, ainda continuo tendo sempre em mãos um ou dois títulos para aproveitar bem as migalhas de tempo que a rotina do dia a dia sempre me regala e que, sem a menor cerimônia, procuro aproveitar ao máximo. Tento seguir à risca uma regra simples: a ocasião faz quem a gente quer ser, sempre. Por isso, seja numa aula vaga, no intervalo, durante a aplicação de uma prova (enquanto caminho pela sala, silenciosamente, fico com um olho no livro e com o outro na turma), na fila do correio, no ônibus, na antessala de um consultório médico ou odontológico, enfim, procuro sempre lembrar-me da lição do sociólogo italiano Domenico De Masi: atualmente, o tempo ocioso e livre é abundante em nossa vida; o problema é que ele, o tempo livre, é mal distribuído, mal utilizado e, na grande maioria das ...

PARA MINHA FILHA

Numa tarde, há quinze anos, Um sonho tornava-se real. Uma menininha linda nascia Para iluminar nossa vida. Daquela tarde em diante, Nossos dias foram outros, Com a alegria contagiante Que de ti emanava e emana. Com olhar soberano e radiante, Coroado pelos cabelos soltos, Brilha um sonho chamado Helena, Que hoje completa seus quinze, Com a força das heroínas gregas E com a bênção de uma santa romana. 14/III/2026 Dartagnan da Silva Zanela

SILENCIAR É PRECISO

Na sociedade contemporânea, somos diariamente, de forma sorrateira, convidados a manifestar um punhado de opiniões a respeito dos mais variados assuntos. Na grande maioria das vezes, se não os desconhecemos por completo, temos apenas uma noção muito superficial a respeito deles; mesmo assim, somos instados a nos posicionar e, ao fim e ao cabo, nos manifestamos. E o pior de tudo é que, em grande medida, nós opinamos de forma impensada, irrefletida, e acreditamos que nossos colóquios, com essa feição mal acabada, são dignos de respeito, apesar de não termos manifestado a reverência devida ao conhecimento da verdade dos fatos sobre os quais estamos opinando. Mas fazer isso — nos dedicar com afinco para conhecer algo —, “sacumé”, dá um trabalho danado; já falar pelos cotovelos, posando ter uma autoridade que não temos, é muito mais fácil e gostoso, não é mesmo? Mas aí vem a pergunta que não quer calar: nós não deveríamos ter uma opinião crítica sobre tudo o que está acontecendo no mundo em...

REFLEXÕES HETERODOXAS DE UM ESCREVINHADOR #007

Uma vida bem vivida é uma tarefa permanente. # Viver é preocupar-se. Por isso, o importante para bem vivermos é preocuparmo-nos com as coisas certas. # Todo indivíduo verdadeiramente sentimental tem horror a todo e qualquer sentimentalismo verbal. # O passado, por sua própria natureza, não reconhece o seu lugar: ele está sempre presente, mesmo que nós sejamos incapazes de reconhecê-lo. # Se nossos líderes e nós lêssemos mais poesia — se criássemos vergonha nas ventas e começássemos a ler poesia —, provavelmente seríamos pessoas mais sábias ou, pelo menos, não tão soberbas. # Nenhum povo acredita em seu governo; somente as massas — tanto as ignaras quanto as diplomadas — creem caninamente naqueles que elas imaginam ser seus líderes. # Um homem apenas tem o direito de olhar o seu semelhante de cima para baixo quando for ajudá-lo a levantar-se. * Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “BEM LONGE DO CORAÇÃO SELVAGEM”, entre outros ...

PARA SUPERARMOS A DITADURA DOS OFENDIDOS

Toda ferramenta tem sua utilidade quando a empregamos de forma apropriada. Agora, quando inventamos de trocar os pés pelas mãos, não devemos esperar muita coisa; e tal regra não vale apenas para as bugigangas físicas, mas também, e principalmente, para as traquitanas intelectuais. De todos os instrumentos intelectuais de que dispomos para analisar as aventuras e desventuras humanas em sociedade, um que acaba frequentemente sendo utilizado de uma forma atravessada é o dito-cujo do relativismo. Essa bênção, enquanto ferramenta de análise, é extremamente versátil, pois nos permite adentrar os hábitos e valores de um grupo social para compreendê-lo a partir das suas próprias referências, permitindo-nos ver o mundo através dos seus olhos, como bem nos ensina Bronisław Malinowski. Essa postura de “empatia antropológica”, da mesma forma que permite a um estudioso compreender com clareza o universo cultural de um grupo aborígene, também nos habilita a compreender a visão de mundo dos difere...