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QUANDO A GRITARIA CHEGA NA ABÓBADA CELESTE - Notas e reflexões heterodoxas

1. O primeiro sinal de que a nossa vaidade suplanta a razoabilidade e o senso das proporções é a necessidade de querer sempre ter a última palavra em uma discussão ou em uma conversa. # 2. A necessidade de querermos sempre ter razão é um claro sintoma de que nós não temos o costume de usar a dita-cuja da razão. # 3. Repare — e repare bem, para em dois palitos perceber — que as pessoas que mais facilmente desdenham da compaixão por aqueles cidadãos que são seus desafetos, por miudezas ideológicas sem razão, são justamente aquelas figuras que vivem o dia todo, e praticamente todos os dias, arrotando empatia, ética, cidadania e, é claro, democracia. # 4. Permitir que as raposas fiquem responsáveis pelo galinheiro, como bem nos ensina o velho ditado popular, é uma tremenda de uma imprudência — para não dizer uma imbecilidade. Agora, permitir que os porcos tornem-se os senhores incontestáveis de toda uma propriedade, seja ela uma granja, um sítio ou uma fazenda, não é outra coisa senão a ma...

A ESPADA DE DEMÓSTENES NOSSA DE CADA DIA

Como e por que escrever em um país onde a maioria avassaladora da população que sabe ler não quer nem saber de tomar em suas mãos um livro para ler — e, quando por descuido pega um, é um livro de autoajuda? Complicado, não é mesmo, meu velho? Apenas um parêntese: nada contra os livros deste naipe porque, de certa forma, eles são como um verbete de enciclopédia ou da Wikipédia: errado não é começar tomando um como ponto de partida; o problema é ficar com ele e apenas nele como referência última e absoluta. Fecha parêntese. E veja só como o trem é doido neste nosso país lindo e complicado por natureza: de acordo com o Instituto Paulo Montenegro, que nos apresenta o INAF (Indicador de Analfabetismo Funcional), o cenário entre aqueles que são alfabetizados é ainda mais — como diria o senhor Spock — fascinante. Segundo o referido instituto, integram a população brasileira entre 15 e 64 anos de idade apenas 7% de analfabetos. Porém, entre os que são considerados alfabetizados, temos 22% de l...

PULANDO SEM PARAQUEDAS - Notas e reflexões heterodoxas

1. O nosso sentimentalismo não é — e nunca será — causa suficiente para gerar um ato de bondade. Na verdade, na grande maioria das vezes, ele é um grande obstáculo. # 2. Há uma diferença abissal entre parecer bom e ser bom; e, para uma pessoa de olhar e discernimento dispersos, distinguir uma coisa da outra é, praticamente, uma impossibilidade. # 3. Como reconhecer um tirano? Eis aí uma pergunta que vale ouro. Na real, há muitos sinais que podem denunciar um figurão desse naipe, mas de todos eles há um que é a sua marca distintiva: querer obstruir a livre circulação de informações sob a justificativa de que está fazendo isso em nome de um "bem maior". Meu amigo, qualquer um que venha insinuar algo assim, pode ter certeza, bom sujeito não é. # 4. Urge ter paciência quando tudo à nossa volta nos convida a mergulhar num oceano de histeria. Urge, mas é um trem danado de difícil manter a cabeça no lugar num quadro assim. E como é! # 5. Ler um e-book é uma maravilha pela comodidade...

O PRIMEIRO PASSO DE UMA GRANDE JORNADA

O professor Antônio Cândido, em uma entrevista há muito concedida, disse uma obviedade ululante que, como todas as obviedades, precisa ser repetida porque nós, seres humaninhos, temos o péssimo hábito de esquecer tudo aquilo que realmente tem alguma importância. Disse ele que a leitura de Homero, Cervantes, Shakespeare, Dumas, Dostoiévski, Machado e companhia limitada, juntamente com o conhecimento de histórias folclóricas, literatura de cordel e demais preciosidades, nunca fez mal a ninguém. Aliás, até onde sabemos, ninguém ficou estúpido ou se tornou uma pessoa pior por ter se entregado a esse tipo de desfrute literário. Além disso, Northrop Frye e Harold Bloom nos lembram que a literatura, por meio de suas páginas, nos apresenta vidas humanas possíveis que, se forem lidas, apropriadas e devidamente interiorizadas, enriquecem a nossa alma com perspectivas que seriam literalmente inacessíveis a uma pessoa que sabe ler e não lê. E tem mais! Por termos contato com esses dramas humanos f...

XUCRISMO DECANTADO - Notas e reflexões heterodoxas

1. Uma coisa é planejar aquilo que iremos fazer; outra coisa é ficar ciscando em círculo feito galizé ao redor das miudezas de meia dúzia de papéis ornados com gráficos, tópicos e tabelas, achando que, fazendo isso, estamos resolvendo algum problema. # 2. Quando um gestor, chefe ou líder não quer resolver um problema, ele convoca uma reunião. E se as reuniões tornam-se uma fáustica rotina, é sinal de que, além de não quererem resolver os problemas existentes, esses burocratas querem inventar novos problemas para continuarem na mesma — porém, agora com um volume bem maior de pepinos sem solução alguma, só para dar stress e azia. # 3. Não se permita desanimar. Se há uma coisa que o mundo à nossa volta mais deseja é nos ver cabisbaixos, com os faróis da alma à meia-luz, arrastando os para-choques do caráter na poeira da vã-glória. Não se permita. Permita-se chorar, gritar bem alto — a ponto de fazer zunir os ouvidos das estrelas —, mas não se permita desanimar e desistir de seja lá o que ...

MUITO ALÉM DO MEGAMENTE - Notas e reflexões heterodoxas

1. A sabedoria nos convida a ouvi-la (Provérbios VIII). Ouvir com atenção aquilo que ela sussurra em nosso coração. Porém, no mundo atual, quantas são das pessoas que realmente procuram ouvir o seu semelhante com a devida reverência que ele merece? Aliás, quem procura ouvir com o coração aberto as palavras ditas ou berradas pelos seus inimigos e desafetos, procurando meditar sobre elas para, assim, poder separar o que é verdadeiro daquilo que é falso? Pois é. Se agimos assim uns em relação aos outros, dificilmente a sabedoria encontrará morada nos átrios do nosso coração porque, na real, nós a recusamos com a nossa intratável malícia. # 2. O humor é fundamental para podermos crescer em espírito e verdade — o bom humor, a ironia e companhia limitada; quanto à criancice, não (Provérbios IX). Neca de pitibiriba. Para podermos realmente robustecer a nossa alma, é imprescindível que procuremos deixar nossas atitudes petulantes para trás e, gradativamente, passarmos a cultivar novos hábitos ...

APENAS UM RELES PROFESSOR - Notas e reflexões heterodoxas

1. Na dúvida, pare, ore e reflita; e, após refletir a respeito de seus caminhos e descaminhos, ore mais uma vez antes de voltar a colocar o seu pé nas estradas da vida. # 2. Muitos se dizem de direita, outros tantos afirmam que são de esquerda e, ainda, há aqueles que juram de pés juntos que são moderados. A partir desses rótulos, muitos bons e velhos amigos se engalfinham. Porém, no fundo — e não é tão fundo assim —, grande parte dos brasileiros não é nada disso; na real, a grande maioria dos brasileiros tem uma mentalidade fisiológica bem rastaquera e, para não ficar feio, apenas a fantasia com um rótulo ideológico para não sair, assim, tão mal na fita. # 3. Todos nós cremos que temos ideias geniais em nossa cumbuca, mas esse balão de originalidade estoura quando somos obrigados a colocá-las no papel e torná-las minimamente inteligíveis. E isso acontece porque, quando vamos escrever, somos obrigados a pensar naquilo que estávamos “ideando” e, ao fazê-lo, descobrimos que não havia...

A ARMADURA QUE NOS FALTA

Quando alguém, numa roda de conversa, resolve falar da importância da leitura, todos os presentes — e, talvez, até mesmo os ausentes — concordam que ela é realmente um trem indispensável para o bom desenvolvimento de uma pessoa. Até mesmo aqueles que têm alergia à leitura fazem pose, cara de gente séria, e concordam com o babado, porque é muito chique dizer que com livros e bons leitores se constrói uma grande nação. Sim, isso é chique e é a mais pura verdade, porque a leitura nos faz parar e nos convida a seguir num passo mais lento e, por isso, mais atento. E essa é a chave para a boa formação de um indivíduo, principalmente no mundo em que vivemos, onde somos praticamente o tempo todo instados a seguir o fluxo acelerado e sem fim de uma sociedade que tem o seu ritmo maquinal regido pelo pulso contínuo de vídeos desconexos e imagens fragmentadas. A leitura de uma obra literária exige a nossa entrega; ela não abre mão da nossa atenção para nos guiar pelas páginas codificadas de um liv...

ESSE É O MEU BRASIL E NINGUÉM TASCA - Notas e reflexões heterodoxas semanais

O Brasil é um país com uma história cheia de paradoxos interessantíssimos. É um cadinho de terra americana que, em pleno século XVII, ao final da União Ibérica, aclamou o senhor Amador Bueno como rei e este, por sua deixa, não aceitou, tendo de fugir da turba e se esconder num mosteiro para não ser trucidado pelo povo que queria coroá-lo de qualquer jeito. Ao mesmo tempo, é uma nação que teve um imperador, Dom Pedro II, que presenteou um idealista italiano chamado Giovanni Rossi com uma faixa de terras no Paraná para realizar o experimento de uma sociedade anarquista. Enfim, esse é o Brasil que eu tanto amo. # No Brasil contemporâneo, temos, entre aqueles que se dizem letrados e diplomados, a presença de uma indiscreta — digo, de uma aversão confessa — à grande literatura. Uma aversão tão grande que chega a ser manifestada nos currículos escolares. Por outro lado, no submundo do crime, junto a organizações como o PCC, testemunhamos a organização daquilo que os seus membros chamam de ...

DE VOLTA PARA O CAMINHO PARA DAMASCO

O finado Papa Bento XVI, em uma de suas preleções, nos chamava a atenção para a importância de procurarmos cultivar uma admiração particular por um santo, de sermos devotos de uma pessoa que procurou, com todas as forças de sua alma, amar a Deus e tomar o Evangelho como farol de sua vida. E, ao recomendar isso, ele não estava nos dizendo para termos pôsteres de um santo no quarto e andarmos com camisetas e broches dele como se fôssemos um adolescente fã de uma banda, nada disso. Se somos devotos de um santo, deveríamos, em suas palavras, procurar nos tornar familiares a ele, buscando conhecer a sua vida, as suas obras e o seu pensamento para, desse modo, aprendermos a crescer em espírito e verdade com ele. Bento XVI, por sua deixa, era devotíssimo de São José e de Santo Agostinho, o rochedo de Hipona. Não apenas isso: deste segundo, além de devoto, era um grande estudioso de sua obra; talvez um dos maiores do século XX. Quando li isso, há mais ou menos umas duas décadas, meu coração en...