De tempos em tempos, todo cronista, seja ele um mestre ou um mero artesão, se defronta com o dia fatídico em que lhe dá um terrível branco na cuca; em que não lhe pinta nenhuma inspiração para escrever, por mais insípida que seja. Quando isso acontece, sinceramente, é de lascar. Imagino que deva existir uma série de razões sociológicas e psicológicas que nos ajudem a ter uma visão mais clara das causas desse fenômeno, mas que, francamente, não vêm ao caso neste momento. Isso porque, quando deitamos nossas vistas nas páginas que foram redigidas pelos grandes cronistas brasileiros — naquelas que foram escritas sem a menor fagulha de inspiração —, entendemos em dois palitos que, nas mãos certas, até mesmo a monotonia e a ausência de qualquer lampejo tomam uma forma singular, criativa e profundamente humana. Quando Rubem Braga escrevia suas crônicas sem assunto, convidava-nos a prestarmos mais atenção em nossa monotonia cotidiana, nos detalhes da vida que, por inúmeras razões, acabam sem...