Pular para o conteúdo principal

PARA SUPERARMOS A DITADURA DOS OFENDIDOS

Toda ferramenta tem sua utilidade quando a empregamos de forma apropriada. Agora, quando inventamos de trocar os pés pelas mãos, não devemos esperar muita coisa; e tal regra não vale apenas para as bugigangas físicas, mas também, e principalmente, para as traquitanas intelectuais. De todos os instrumentos intelectuais de que dispomos para analisar as aventuras e desventuras humanas em sociedade, um que acaba frequentemente sendo utilizado de uma forma atravessada é o dito-cujo do relativismo. Essa bênção, enquanto ferramenta de análise, é extremamente versátil, pois nos permite adentrar os hábitos e valores de um grupo social para compreendê-lo a partir das suas próprias referências, permitindo-nos ver o mundo através dos seus olhos, como bem nos ensina Bronisław Malinowski. Essa postura de “empatia antropológica”, da mesma forma que permite a um estudioso compreender com clareza o universo cultural de um grupo aborígene, também nos habilita a compreender a visão de mundo dos diferentes grupos políticos e facções ideológicas que compõem o tecido social da nossa sociedade — desde que, de fato, estejamos dispostos a relativizar momentaneamente a nossa forma de ver a realidade para podermos abarcar a visão de mundo destes para, assim, transcendê-las, transcendendo-nos. Agora, a porca torce o rabo, e torce bonito, quando passamos a utilizar o relativismo como um critério último de referência. Ora, se tudo passa a ser considerado como tendo um valor relativo, consequentemente nada terá algum valor; e, se nada tem valor, tudo torna-se indigno de respeito. Dizer, de forma afetada ou não, que tudo tem o mesmo valor e importância é apenas uma forma “elegante” de afirmar que nada tem valor. Procedendo dessa forma, sem nos darmos conta, vamos derrubando todos os alicerces de sustentação da nossa personalidade e, consequentemente, vamos ficando tão fragilizados quanto desfibrados; pois, quando não mais consideramos a verdade como critério de orientação, qualquer subjetividade envenenada pelo materialismo, hedonismo e pela egolatria, acaba tomando o seu lugar em nosso coração. Tendo isso em vista, não é à toa, nem por acaso, que no mundo contemporâneo — onde tudo é relativizado, menos os delírios da nossa alma caprichosa — as pessoas acabam tornando-se hipersensíveis, ofendendo-se facilmente por qualquer bagatela e, ao mesmo tempo, portando-se de forma inclemente em relação a todos aqueles que destoam de sua perspectiva saturada de bile, agindo como um déspota ofendidíssimo. E o mais engraçado é que tais pessoas juram, de pés juntos, que são um poço de empatia, simpatia, alegria e, é claro, amor [muito amor]. Por isso, quando deparo-me com cenas dessas trupes, logo vem-me à mente uma passagem da vida de São Francisco de Assis, que estava chorando pela condenação de um homem à morte. Um de seus amigos, vendo isso, perguntou-lhe por que um homem tão bom como ele chorava por alguém tão mau como aquele condenado. O Poverello de Assis disse-lhe que, se aquele homem tivesse tido a vida que ele teve, provavelmente poderia ter sido um homem melhor do que ele; mas se ele, Francisco, tivesse tido a vida que o condenado viveu, possivelmente teria sido muito pior que ele. Resumindo: isso é empatia; já todo o resto é apenas e tão somente conversa fiada com mau hálito ideológico.

 

*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “O SEPULCRO CAIADO”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela 




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

NA NOITE MAIS ESCURA

Lembro-me de ter lido, num dos livros de Domenico De Masi — Criatividade e Grupos Criativos: Descoberta e Invenção —, que um cidadão ateniense adulto, por volta dos seus trinta anos de idade, teria assistido a aproximadamente trezentas peças de teatro. Ao ler isso, mais que depressa, coloquei-me a matutar com meus alfarrábios e a me perguntar quantas peças assisti em minha porca vida. Quantas? Pouquíssimas, tendo em vista que sempre fui um caipira que vive entocado no mato. Na verdade, poucas são as pessoas que podem se vangloriar de ter tido a grata satisfação de assistir a tantas peças. Pouquíssimas mesmo. Ao constatar isso, porca miséria, fiquei pensando em minha inenarrável miséria cultural e no quão apartada minha alma encontrava-se do terapêutico efeito catártico que o teatro pode proporcionar ao coração humano, instalando-nos na realidade e ordenando as nossas paixões e inquietações. Mas então, lembrei-me da grande paixão que, desde menino, nutro pela sétima arte e toquei-me da ...

A VIDADE DA CRÍTICA DESNECESSÁRIA - Notas e reflexões heterodoxas

1. Todo bom mané gosta de dizer que pensa criticamente, como se afirmar isso transformasse sua opinião sem valia em alguma coisa que preste. # 2. Toda vez que dizemos que apreciamos a opinião de alguém por considerarmos a pessoa crítica, não estamos dizendo que o que foi dito seja algo inteligente pra caramba. Nada disso, cara-pálida. Na real, estamos apenas dizendo que concordamos com o que foi dito pelo fulano porque está de acordo com aquilo que nós pensamos. Só isso e olhe lá. # 3. Quando o assunto é esse trololó de criticidade, estou com o filósofo espanhol Gregorio Luri, que, de forma curta e grossa, feito pino de patrola, nos lembra que apenas podemos dizer que pensamos criticamente quando somos capazes de pensar a partir dos corolários opostos às nossas convicções e, vez por outra, sermos capazes de discordar de nós mesmos — de admitir que estávamos redondamente errados. Se não somos capazes disso, sinto muito, mas nós não somos críticos nem na casa do chapéu. # 4. Colocar defe...

A PEDREGOSA ESTRADA DA CIDADANIA

É curioso quando começamos a refletir sobre o tempo e, ao fazê-lo, as primeiras palavras que nos vêm à cabeça são aquelas presentes nas páginas do livro Confissões, de Santo Agostinho, onde o bispo de Hipona pergunta: o que é o tempo? E, na sequência, responde-nos: se ninguém me pergunta, eu sei; mas, se quero explicá-lo a quem me pergunta, já não sei. E é curioso refletirmos sobre isso porque, quando paramos para prestar a devida atenção na forma como experienciamos o tempo em nossas venturas e desventuras pra lá de humanas, notamos, num piscar de olhos, que suas três dimensões estão sempre presentes — juntas, fundidas e misturadas — em nosso horizonte de percepção. Como bem nos ensinam Gilberto Freyre e Peter Berger, todos nós guardamos em nossa consciência os fragmentos do passado, de tudo aquilo que foi vivido e testemunhado por nós. Por isso mesmo, esse passado em cacos sempre pode sofrer uma ressignificação, uma nova interpretação à luz daquilo que está sendo vivido por nós no pr...