Pular para o conteúdo principal

COM O CORAÇÃO NA MÃO

Lembro-me da primeira vez que assisti ao filme A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson. Como também não esqueço o guaju que se espalhou pelos quatro ventos contra a obra, com incontáveis figuras, figurinhas, figuraças e figurões rasgando as vestes por conta da forma crua com que o diretor procurou retratar a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. E, do mesmo modo, não me esqueço das palavras ditas pelo Papa São João Paulo II que, ao ser perguntado sobre o que achou do filme, disse, de forma lacônica: “Foi assim”.


Mas, como estava dizendo, não me esqueço da primeira vez que o assisti. Cheguei ao cinema, tomei meu assento e, enquanto aguardava o início da exibição, havia um clima levemente festivo dentro da sala de projeção, típico de um cinema. De repente, a luz foi apagada, a exibição começou e, gradativamente, o silêncio tomou conta da sala; o ambiente foi tomado pelas cenas da película, com os diálogos das personagens encenadas nas línguas da época — aramaico, hebraico e latim — juntamente com uma trilha sonora que nos envolvia de tal forma que nos colocava como testemunhas diretas da Sexta-Feira Santa.


Até hoje, quando revejo esta obra de arte, sinto-me impactado, tendo o véu que encobre meus olhos e coração partido ao meio, tal qual o véu do Templo que se partiu quando Cristo expirou no alto do madeiro da cruz.


Desde seu nascimento neste mundo, o Nazareno foi um sinal de contradição entre os homens. Sua presença revela em nós — em cada um de nós — a pessoa que deveríamos ser, mas que resistimos e nos negamos, com muita força, a nos tornar. Por isso, não é à toa que o referido filme, à época, causou tanto escândalo entre aqueles que se consideram pessoas muito boas, boníssimas. Aliás, lembremos e, se possível for, jamais nos esqueçamos de que, como nos recorda Léon Bloy, no mundo há apenas dois tipos de pessoas: aquelas boas que se acham ruins, e as ruins que se consideram boas.


Isso mesmo! Toda pessoa que se considera muito boa, de certa forma, é movida por um “espírito de Caifás”, acreditando candidamente que está fazendo algo muito bom e justo através das suas maldades maldisfarçadas de cada dia. Espírito esse que, no início deste milênio, moveu muitos a apedrejar o filme em questão, e que move boleiras de outros a realizar mil e uma ações reprováveis, crentes de que, na verdade, estariam agindo de forma benemérita — seja nas redes sociais ou em círculos não tão privados de escarnecedores.


Mas voltemos ao ponto: a primeira vez que assisti ao filme supracitado. Após o término da exibição, ao invés de balbúrdia e agitação, conversas e cumprimentos entre amigos, havia apenas silêncio. Aquele silêncio que tememos ouvir. Todos, um a um, foram levantando-se para sair da sala. Eu fui diretamente para o elevador, com a cabeça baixa, pensativo com o que eu acabara de testemunhar, pensando na vida, na minha porca vida; então, resolvi levantar a minha cabeça e o que vi foi uma longa fila de pessoas silentes que, como eu, estavam de cabeça baixa, pensando. Por isso, repito: não é à toa, nem por acaso, que os ecos desta produção incomodaram tanta gente — e que até hoje incomodam.


Hoje, passadas duas décadas e meia, o filme pode ser assistido — ou revisitado — por qualquer um pela internet. E se formos fazer isso, façamos com os olhos bem abertos e, se possível for, com o coração na mão, para que o olhar do Servo Sofredor desnude-nos diante do altar da nossa consciência. Fazendo isso, com certeza o clima irá pesar, mas é preciso que ele pese para que nossa alma possa ser elevada ao encontro d’Ele.


*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

OS CRÍTICOS DO PAU OCO

Quando uma palavra passa a ser utilizada em demasia pela grande mídia e pelos autoproclamados “bem-pensantes”, é sinal de que o pobre vocábulo acabou perdendo praticamente todo o seu crédito cognitivo. Quando isso ocorre, ela passa a ser utilizada para sinalizar qualquer coisa e, por isso mesmo, termina significando coisa alguma. E isso, cara pálida, é uma tremenda enrascada porque abre as porteiras da vida para toda ordem de barbaridades. Um bom exemplo disso são os usos e abusos da palavra “crítico”. É educação crítica para cá, é opinião crítica para lá, pensamento crítico acolá; enfim, é um Deus nos acuda porque a única coisa que se faz presente em meio a tanta pretensa criticidade é o espírito de rebanho que, por sua própria natureza, sufoca qualquer possibilidade de uma opinião serena, de um pensamento independente e de uma educação emancipatória. Mas é claro que nós não iremos vestir, jamais, essa carapuça porque, “sacumé”, nós somos “críticos de fato”, não apenas de nome, como...

O AVESSO DA EDUCAÇÃO

Há um velho provérbio popular que nos lembra que a dor ensina a gemer. Dito de outro modo, seriam os obstáculos e as dificuldades a mãe e o pai do aprendizado, não a vida mansa sem nenhuma espécie de perrengue. Por essa razão, educadores como Jules Payot tinham uma clara consciência da importância da formação, da educação da vontade para que os indivíduos pudessem realmente crescer em espírito e verdade. Quando nossa vontade não é vergada, quando ela não é contrariada, ao invés de nos tornarmos indivíduos independentes, capazes de agir de forma minimamente eficaz, eficiente e efetiva, o que teremos como resultado majoritário são pencas e mais pencas de indivíduos que literalmente desmoronam todas as vezes em que têm a necessidade de realizar uma tarefa que exija um mínimo de esforço focado; porque, ao invés de tornarem-se autônomos, foram reduzidos a meras figuras autômatas. E vejam só como são as coisas: os antigos monges do deserto sabiam muito bem que o único animal que, por sua p...

COMPLEXO DE CHICÓ

Se tem um trem que as pessoas na sociedade moderna gostam de se ufanar é das suas opiniões e, quando se vangloriam disso, fazem questão de destacar que as suas opiniões sobre tudo e sobre todos não são opiniões chinfrim; nada disso, meu amigo, elas são “opiniões críticas”. Mas o que há de tão especial nisso para nos gabarmos? Como nos lembra o professor Gregório Luri, quando alguém começa a dizer que é muito crítica, a única coisa que esse abençoado está querendo dizer é que despreza e rechaça tudo aquilo que destoa dos seus pontos de vista e que irá tratar a pão de ló qualquer pataquada que esteja de acordo com tudo aquilo que ela supostamente pensa. Ui! Eu escrevi que muitas pessoas supostamente pensam? Sim. Eu queria ver — ah, como eu queria — essas mesmas alminhas críticas realizarem um inclemente exame de consciência sobre suas formosas opiniões a partir de uma questão, tão simples quanto modesta, como essa: quantas das nossas amadas e idolatradas opiniões são apenas e tão somen...