Há muito, Manuel Castells declarou que a época em que vivemos poderia ser chamada de “A Era da Informação”. Na verdade, ele não foi o único a apontar nessa direção, mas, até onde sei, é o único que escreveu uma volumosa trilogia para explicar esses tempos tão fascinantes quanto obscuros nos quais vivemos.
É uma era fascinante pelo fácil acesso que todos podemos ter tanto às informações — de toda e qualquer ordem — quanto aos meios para produzir e disseminar tudo o que nos der na telha; e isso, venhamos e convenhamos, é algo realmente fascinante.
Por isso, neste quesito, discordo tanto de Umberto Eco quanto de Jacques Le Goff quando estes afirmaram que a internet deu voz e vez aos idiotas de todo o mundo. Não que não tenhamos boleiras de tontos que dizem tonterias para uma multidão ávida por idiotices; claro que há. O problema é que a forma como eles afirmaram isso dá a impressão de que, na era anterior ao advento da internet, não havia disparates que eram disseminados a torto e a direito pelas televisões e pelas páginas impressas.
Tendo isso em conta, sou franco em dizer que prefiro uma sociedade onde todos possam ter acesso aos meios de comunicar-se e de informar-se livremente, pois acredito que seja mil vezes melhor viver em um mundo onde todo e qualquer idiota tenha direito a expressar-se e galgar o seu lugarzinho ao sol a ter de existir num universo onde meia dúzia de idiotas, pretensamente iluminados, arrogem para si o direito de dizer quais idiotas poderão comunicar-se com as multidões. Digo isso porque, conforme canta a inflamação de minha costela anarquista, são sempre preferíveis os riscos da liberdade aos perigos da tirania maldisfarçada de soberania. Ponto.
Agora, saindo da dimensão fascinante e migrando para o lado obscuro da força, vemos que o acesso maior à informação acabou coincidindo com um aumento crescente de toda ordem de incompreensão e, sejamos francos: a culpa não é dos idiotas, nem da internet. Ao menos não toda.
Muito dessa atmosfera plúmbea que pesa sobre a “Era da Comunicação” deve-se a vários fatores, mas, de todos eles, penso que podemos destacar dois. O primeiro refere-se ao nosso desejo atávico de nos informar não para conhecer, mas sim para confirmar as nossas convicções; tal atitude está a léguas de distância daquilo que poderíamos chamar de um processo ativo de construção do conhecimento. Na verdade, é com base nessa inclinação torta que se forma aquela névoa de ignorância presunçosa que paira sobre as “bolhas digitais”.
Juntamente com essa vontade de dar aquele ar de superioridade para nossas opiniões rasas, temos a nossa incapacidade de realizar distinções — incapacidade essa que é devidamente alimentada pela ansiedade inconfessada que, por sua vez, é instilada em nossos corações pela velocidade maquinal das mídias digitais, consumidas de forma desregrada por nós.
Neste ponto, estou com Umberto Eco que, em seu livro “A Passo de Caranguejo: Guerras Quentes e Populismo de Mídia”, nos lembra que há uma distinção muito sutil entre explicar um fato, procurar compreendê-lo, justificá-lo e concordar com ele. Mas, como no mundo em que vivemos tais sutilezas são varridas para a lata de lixo da história, toda e qualquer distinção acaba tornando-se praticamente uma quimera.
Dito de outra forma, quando ouvimos alguém afirmar algo e somos incapazes de ponderar o que foi ouvido com base nestas quatro possibilidades, é sinal de que algo em nosso entendimento embruteceu. E a culpa não é da internet, nem dos idiotas, porque a responsabilidade realmente é nossa.
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Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS”, entre outros livros.
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