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SILENCIAR É PRECISO

Na sociedade contemporânea, somos diariamente, de forma sorrateira, convidados a manifestar um punhado de opiniões a respeito dos mais variados assuntos. Na grande maioria das vezes, se não os desconhecemos por completo, temos apenas uma noção muito superficial a respeito deles; mesmo assim, somos instados a nos posicionar e, ao fim e ao cabo, nos manifestamos.


E o pior de tudo é que, em grande medida, nós opinamos de forma impensada, irrefletida, e acreditamos que nossos colóquios, com essa feição mal acabada, são dignos de respeito, apesar de não termos manifestado a reverência devida ao conhecimento da verdade dos fatos sobre os quais estamos opinando. Mas fazer isso — nos dedicar com afinco para conhecer algo —, “sacumé”, dá um trabalho danado; já falar pelos cotovelos, posando ter uma autoridade que não temos, é muito mais fácil e gostoso, não é mesmo?


Mas aí vem a pergunta que não quer calar: nós não deveríamos ter uma opinião crítica sobre tudo o que está acontecendo no mundo em que vivemos? Não é isso que se ensina em todos os cantos e que se propagandeia por todos os lados como sendo um traço distintivo de, como se diz, um "bom cidadão"? Pois é.


De minha parte, ouso discordar e, por isso, pergunto: o que seria mais importante, termos um punhado de opiniões infundadas e levianas que consideramos nossas, ou renunciar a elas em favor de uma verdade que, após ter sido conhecida por nós, humilhou-nos por revelar-nos o tamanho do nosso equívoco? A meu ver, esse é o ponto.


No fundo, raras são as pessoas que realmente almejam procurar a verdade sobre o que quer que seja. Na maioria das vezes, o que nós queremos é apenas e tão somente confirmar aquilo que nós, por várias razões, acreditamos que seja “a verdade”, mesmo que nunca tenhamos realmente nos esforçado para conhecer qualquer coisa com um mínimo de profundidade. E é justamente a respeito de assuntos onde o nosso conhecimento é sumamente superficial que nós nos ofendemos com mais facilidade e agressividade [depre]cívica.


Por isso, matutando cá com meus botões, imagino que, neste tempo quaresmal, uma obra penitencial que poderia ser praticada por todos nós seria um voto de abstinência em matéria de opinião. Isso mesmo! Ficarmos quarenta dias ou, por que não, o resto de nossas vidas sem opinar a respeito de assuntos cujo entendimento nos seja severamente limitado. Se fizermos isso, iremos perceber de forma cristalina que as “nossas opiniões”, na maioria das vezes, nunca foram nossas e que, na real, ao dar eco a elas, não estaríamos contribuindo com nada para coisa nenhuma; mas o nosso silêncio obsequioso, com toda certeza, poderá mudar significativamente a nossa forma de ver o mundo, os nossos semelhantes e a maneira como ordenamos as prioridades da nossa vida.


*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “O SEPULCRO CAIADO”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela 




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