Pular para o conteúdo principal

O PALCO GIRATÓRIO DA INFORMAÇÃO

“Apocalípticos e Integrados” é uma obra de Umberto Eco que, francamente, penso que todos que se preocupam com os efeitos da cultura de massa na formação da personalidade deveriam ler e, após isso, refletir serenamente a respeito dos seus apontamentos e considerações.

 

De todas as advertências, há uma que considero basilar: o fato de que boa parte das pessoas que reconhecem os males fomentados pela indústria cultural frequentemente são incapazes de perceber o quanto ela mesma afeta sua visão deformada e deformante da sociedade e de si mesmas.

 

Todos nós, em maior ou menor medida, fomos e somos afetados pela cultura de massa. Podemos afirmar, sem medo de errar, que ela é, para todos nós, como o ar que respiramos: está presente em tudo, em todos e, é claro, em nós também.

 

Por isso, como nos lembram tanto Umberto Eco quanto Vargas Llosa, devemos nos manter vigilantes com relação a tudo aquilo que cremos ser a nossa mais lúcida e crítica opinião, porque muitas vezes ela não passa de um simples subproduto da mentalidade massificante que passou a fazer morada em nossa consciência sem pagar aluguel.

 

Ou, como bem nos adverte Ortega y Gasset, muitas vezes aquilo que soberbamente chamamos de nossa opinião “criticamente crítica” não passa de um estranho que nos habita, apenas uma macaqueação de uma corrente de opinião que está circulando pelos quatro cantos digitais deste mundão de meu Deus.

 

Não apenas isso. Somos convidados pela cultura de massa a sempre ter uma opinião deformada sobre tudo, a respeito de incontáveis temas sobre os quais nunca paramos para refletir. Pior! Nossa opinião irrefletida sobre inúmeros assuntos, invariavelmente não tem relevância alguma para o desenrolar dos fatos, mas nos dá aquela falsa sensação de que estamos fazendo algo importante, que estamos agindo de forma crítica e, é claro, consciente.

 

Tanto é assim que o consumo conspícuo de produtos da indústria cultural não nos propicia um sentido de aprofundamento e compreensão, mas apenas um desejo de consumir mais traquitanas similares, num loop sem fim.

 

Aliás, essa é a forma como muitas vezes nós consumimos notícias e esse comportamento compulsivo, diga-se de passagem, não contribui em nada para a autonomia do nosso pensamento, da mesma forma que ficar em negação não muda em nada essa situação, não mesmo.

 

*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “A QUADRATURA DO CÍRCULO VICIOSO”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ESTAVA CHOVENDO MUITO NAQUELA NOITE

Nos famigerados anos 80 fiz um curso de datilografia. Sim, eu fiz. Meus pais haviam comprado uma Olivetti portátil, cor verde. Uma beleza. Então todas as terças e quintas à noite, lá ia o pequeno Darta com aquela maleta verde para o colégio para aprender a usar apropriadamente o barulhento e pesado instrumento de escrita. Eu queria usá-la com a mesma maestria que meu pai, que datilografava um texto sem olhar para a máquina e, ainda por cima, o fazia com a devida tabulação. Era uma destreza que eu admirava.   Quando colocava-me em marcha rumo ao colégio, sempre era acompanhado pelo meu grande amigo Monique, meu cachorro. Não sei porque ele tinha esse nome. Quando iniciamos nossa amizade ele já respondia por essa alcunha. Pequenino, de pelo marrom-caramelo, bem clarinho, de cambitos curtos e, tal qual eu, um legítimo vira-lata.   Enquanto caminhava para o meu destino, ele ia junto comigo, ao meu lado e, no caminho, íamos batendo altos papos. Sim, quando criança, conversava muito...

A MELODIA DA VIDA

Rubens Fonseca nos ensina que nada temos a temer, exceto as palavras. Sim, as palavras. E ele sabia muito bem, muito bem mesmo, do que estava falando.   As palavras, literalmente, são facas de dois gumes e, afiadas ou não, cortam e ferem para todos os lados e direções, principalmente as mãos, e a língua, daqueles que as usam levianamente.   Aliás, vocês viram o meme do garotinho que dizia para sua mãe que a avó estava precisando de um carregador para o celular? O meme da “pomadinha de cagador”? Bem esse.   Similares a ele, abundam na internet e, além deles nos brindarem com risos amarelados, nos revelam um problema tremendamente espinhoso.   Tendo isso em vista, creio que seja profícuo lembrarmos as palavras do poeta Octávio Paz que, certa feita havia dito que a religião originária da humanidade seria a poesia. Isso mesmo, a poesia.   Sem dúvida, essa é uma bela imagem para termos em mente, tendo em vista que Deus, para retificar os nossos caminhos, fez-se poeta...

REFLEXÕES [DEPRE]CÍVICAS

Período eleitoral é um momento em que todos devemos refletir não apenas sobre os rumos que o nosso município poderá tomar, mas também, a respeito da forma como nós contribuímos, em nosso dia a dia, para que bons ventos soprem em favor do mesmo.   #   #   #   A vida política não se restringe ao ano eleitoral, muito menos a ocupação de um cargo eletivo.   #   #   #   Uma das frases mais cínicas que um indivíduo pode dizer a respeito das lides e tretas políticas é essa: “eu não dependo de político”.   #   #   #   Sem dúvida alguma, a maioria dos problemas humanos não são resolvidos por meios políticos, mas isso não significa que ignorar a vida política seja um caminho apropriado.   #   #   #   As emoções fortes muitas e muitas vezes tomam conta de uma disputa eleitoral e, por isso mesmo, é de fundamental importância que saibamos viv...