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É SEMPRE UM DEUS NOS ACUDA

Quando deitamos nossas vistas nas páginas das obras de escritores de elevado calibre, somos confrontados com o absurdo que habita o nosso coração. Aliás, quando tomamos em nossas mãos uma obra literária, ao mesmo tempo que a lemos, devemos permitir que nossa vida seja lida por ela.

 

De um jeito ou de outro, ver a vida — a nossa vida — através da vida das personagens das obras dos gigantes da literatura é como mirarmos as janelas da nossa alma na imagem do nosso rosto refletida em um espelho partido, o que, naturalmente, pode acabar por nos causar uma certa repulsa.

 

Porém, se vencermos essa primeira sensação e nos permitirmos olhar mais detidamente para o que cada um desses cacos nos revela a respeito de nós mesmos, inevitavelmente acabaremos não apenas vendo a vida como ela é, mas também, como diria Manuel Bandeira, poderemos ver a vida que poderia ter sido vivida por nós, mas não foi.

 

Realmente, é inevitável que, ao nos defrontarmos com a literatura, tenhamos uma certa crise, que sintamos os alicerces das nossas crenças e convicções abalados — e isso, diga-se de passagem, é muito bom.

 

Ora, crenças que não podem ser questionadas não merecem ser acalentados por nós. Se a literatura não se apresenta com esse poder, de nos convidar a ver a vida através de outros olhos, ela, sem querer querendo, acaba se apequenando.

 

Sobre isso, certa feita perguntaram a Milton Hatoum o que ele diria àqueles que consideravam seus livros pessimistas (ou algo que o valha). Ele, laconicamente, disse: “eu escrevo literatura, não autoajuda.”

 

Nada contra os livros de autoajuda. Nem a favor. Eles têm o seu valor, mas não podemos, de jeito-maneira, crer que eles tenham o mesmo significado que a grande literatura tem. Aliás, fazer isso seria o suprassumo da tolice.

 

Na verdade, é bem mais do que isso. No fundo — e não é tão fundo assim — nós não queremos questionar os nossos “valores”. Queremos apenas confirmá-los da forma mais insossa possível, para que nos sintamos seguros, pouco importando se estamos redondamente enganados, não é mesmo?


Por isso, Nietzsche indagava: quanto de verdade nós realmente somos capazes de ouvir e assimilar? Quanto? Foi o que eu pensei porque, no frigir dos ovos, verdade nos olhos dos outros é refresco; nos nossos, é sempre um Deus nos acuda.


E por hoje é só pessoal.

 

*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “A QUADRATURA DO CÍRCULO VICIOSO”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela




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