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À PROCURA DE UMA CLAREIRA

Muitas coisas são capazes de empobrecer e perverter o debate político, mas não há nada mais maquiavelicamente perverso do que fixar um rótulo infame no adversário — como nazista, fascista, machista, racista e tutti quanti —, pois, quando se adota esse tipo de procedimento, desumaniza-se o oponente, inviabilizando qualquer possibilidade de debate e entendimento. É o chamado reductio ad Hitlerum que, de forma cínica, associa todos aqueles que discordam de seus postulados políticos ao Adolfo Bigodinho do Satanás para descredibilizar perante a opinião pública a imagem do opositor e, desta forma, poder contabilizar para si o “monopólio das virtudes”, como bem lembra o filósofo Leo Strauss. Um exemplo que ilustra claramente esse empobrecimento do debate público é a forma como se está discutindo o “boicote” como sendo uma prática típica de nazistas. E o mais interessante é o ar condescendente com que algumas pessoas dizem isso, como se estivessem dando uma aula de história e civilidade par...

SOB O OLHAR DO XERIFE DE NOTTINGHAM

Um dos traços da nossa cultura política são as práticas de mandonismo que se fazem presentes de norte a sul do Brasil desde longa data. Claro, cada momento histórico tem lá suas peculiaridades, cada região, suas especificidades; mas esse trem doído continua presente em nossa sociedade — com outras roupagens, é claro. Todos conhecemos a história da formação dos redutos eleitorais cativos que são controlados por caciques políticos — redutos estes edificados com uma série de benefícios regalados aos seus eleitores que, nos termos populares, sentem-se obrigados a votar em quem o cacique indicar. O historiador José Murilo de Carvalho, em seu livro Cidadania no Brasil: O longo caminho , chama-nos a atenção para esse triste traço da história política do nosso país, no qual os cidadãos se encontram em uma situação de fragilidade dentro de uma sociedade sem uma sólida cultura de participação democrática. Detalhe importante: o grande despreparo não vem tanto da parte dos cidadãos desvalidos, mas...

NÃO É O PONTO FINAL

É sempre importante lembrarmos que aquilo que chamamos de derradeira e última batalha, na grande maioria das vezes, é apenas mais um capítulo da nossa fatigante jornada por este desolado deserto da vida, Neste espinhoso caminho, por esse vale de lágrimas. 24/X/2026.

NAS FRONTEIRAS DA LOUCURA - Notas e reflexões heterodoxas

1. É muito bom, muito bom mesmo, dispormos de algum tempo ocioso, desde que saibamos o que fazer com ele. Se soubermos, o ócio torna-se uma fonte de elevação e aprimoramento; caso contrário, será apenas mais um agravante da nossa tendência à degradação. 2. Muitos manifestam sua preocupação — sincera ou não — com a polarização política que, ano após ano, vem escalando nas sociedades contemporâneas, acirrando disputas e elevando os ânimos. Diante desse quadro, fica a pergunta: que fazer? Não pergunto o que as lideranças e partidos políticos podem fazer, mas sim o que nós, cidadãos comuns, podemos e devemos fazer uns em relação aos outros. A resposta, no meu entender, é muito simples: devemos aprender a nos perdoar mutuamente. E tal aprendizado começa com o nosso primeiro passo nessa direção, e não com a expectativa passiva de que os nossos semelhantes tomem a iniciativa. 3. É justo, é muitíssimo justo lutarmos para defender nossas ideias e ideais, desde que realmente compreendamos, com u...

O FIM NÃO ESTÁ NA PRÓXIMA PÁGINA

Há momentos na história em que praticamente toda a sociedade se vê imersa em um clima de grande ansiedade que nos devora; e, sem dúvida alguma, os dias próximos à realização de um pleito eleitoral são um desses ditos-cujos. É simplesmente fascinante, como diria o senhor Spock, a forma como ficamos nestes dias — tendo em vista que tais ocasiões mexem com uma gama significativa de interesses (alguns justos, outros mesquinhos), com preocupações (umas razoáveis, outras chegando a raiar a histeria coletiva) e, é claro, bolinam com nossos afetos e desafetos, que já se encontram pra lá de desordenados. Jorge Amado, em seu romance Os Ásperos Tempos — primeiro volume da trilogia Subterrâneos da Liberdade —, retrata os dias que antecedem o golpe de 1937, que instaurou a ditadura do Estado Novo, e pinta com sua paleta literária alguns lances dos primeiros tempos do novo regime. Mostra-nos a forma como os mais variados estratos sociais, grupos políticos e econômicos percebiam e analisavam aquele m...

O FUTURO COMEÇA LOGO ALÍ - Notas e reflexões heterodoxas

1. Pare e pense numa coisa: faz algumas décadas que a formação do caráter deixou de ser uma das colunas fundamentais que dão sustentação às preocupações educacionais, seja da parte dos planejadores estatais, seja da parte das famílias — tradicionais ou não. Todos estão preocupados em saber se os infantes serão bem-sucedidos materialmente, profissionalmente, emocionalmente e o caramba a quatro; mas se eles serão pessoas de caráter — dignas, prestativas e boas —, francamente, aparentemente tornou-se algo secundário. Por isso — e por muito mais —, nossa educação encontra-se no estado em que está. 2. Há uma velha canção do Raul Seixas em que ele diz: "eu não preciso ler jornais / mentir sozinho eu sou capaz". Acho essa afirmação fantástica, não porque os jornais sejam instrumentos de disseminação deliberada de desinformação e demais tranqueiras do gênero — nada disso. Gosto das palavras do nosso "maluco beleza" porque todo mentiroso gosta de adornar suas mentiras com al...

ATÉ O ÚLTIMO SUSPIRO

Provavelmente o amigo leitor já deve ter assistido no YouTube à homenagem ao Led Zeppelin realizada no Kennedy Center Honors, em Washington, no ano de 2012, onde, entre outras coisas, foi executada de forma magistral a canção Stairway to Heaven. Na plateia, obviamente, estavam Robert Plant, Jimmy Page e John Paul Jones. Quem ainda não assistiu, por favor, pare de ler esta escrevinhada e vá assistir. E, se já assistiu, vá mais uma vez. Assistiu? Maravilha! Eu amo essa música e, toda vez que vejo essa apresentação, meus olhos ficam nadando em lágrimas enquanto minha garganta engasga. Não apenas pela beleza do show — que conta com Jason Bonham, filho de John Bonham, falecido baterista do Led Zeppelin, e interpretação de Ann e Nancy Wilson, do Heart, acompanhadas por músicos e coral —, mas também e principalmente pela vista que temos do olhar dos três remanescentes da banda homenageada que, na plateia, assistiam a tudo extasiados de emoção. Aliás, de todos eles, o olhar de Robert Plant s...

NA NOITE MAIS ESCURA

Lembro-me de ter lido, num dos livros de Domenico De Masi — Criatividade e Grupos Criativos: Descoberta e Invenção —, que um cidadão ateniense adulto, por volta dos seus trinta anos de idade, teria assistido a aproximadamente trezentas peças de teatro. Ao ler isso, mais que depressa, coloquei-me a matutar com meus alfarrábios e a me perguntar quantas peças assisti em minha porca vida. Quantas? Pouquíssimas, tendo em vista que sempre fui um caipira que vive entocado no mato. Na verdade, poucas são as pessoas que podem se vangloriar de ter tido a grata satisfação de assistir a tantas peças. Pouquíssimas mesmo. Ao constatar isso, porca miséria, fiquei pensando em minha inenarrável miséria cultural e no quão apartada minha alma encontrava-se do terapêutico efeito catártico que o teatro pode proporcionar ao coração humano, instalando-nos na realidade e ordenando as nossas paixões e inquietações. Mas então, lembrei-me da grande paixão que, desde menino, nutro pela sétima arte e toquei-me da ...

A VAIDADE DA CRÍTICA DESNECESSÁRIA - Notas e reflexões heterodoxas

1. Todo bom mané gosta de dizer que pensa criticamente, como se afirmar isso transformasse sua opinião sem valia em alguma coisa que preste. # 2. Toda vez que dizemos que apreciamos a opinião de alguém por considerarmos a pessoa crítica, não estamos dizendo que o que foi dito seja algo inteligente pra caramba. Nada disso, cara-pálida. Na real, estamos apenas dizendo que concordamos com o que foi dito pelo fulano porque está de acordo com aquilo que nós pensamos. Só isso e olhe lá. # 3. Quando o assunto é esse trololó de criticidade, estou com o filósofo espanhol Gregorio Luri, que, de forma curta e grossa, feito pino de patrola, nos lembra que apenas podemos dizer que pensamos criticamente quando somos capazes de pensar a partir dos corolários opostos às nossas convicções e, vez por outra, sermos capazes de discordar de nós mesmos — de admitir que estávamos redondamente errados. Se não somos capazes disso, sinto muito, mas nós não somos críticos nem na casa do chapéu. # 4. Colocar defe...

A PEDREGOSA ESTRADA DA CIDADANIA

É curioso quando começamos a refletir sobre o tempo e, ao fazê-lo, as primeiras palavras que nos vêm à cabeça são aquelas presentes nas páginas do livro Confissões, de Santo Agostinho, onde o bispo de Hipona pergunta: o que é o tempo? E, na sequência, responde-nos: se ninguém me pergunta, eu sei; mas, se quero explicá-lo a quem me pergunta, já não sei. E é curioso refletirmos sobre isso porque, quando paramos para prestar a devida atenção na forma como experienciamos o tempo em nossas venturas e desventuras pra lá de humanas, notamos, num piscar de olhos, que suas três dimensões estão sempre presentes — juntas, fundidas e misturadas — em nosso horizonte de percepção. Como bem nos ensinam Gilberto Freyre e Peter Berger, todos nós guardamos em nossa consciência os fragmentos do passado, de tudo aquilo que foi vivido e testemunhado por nós. Por isso mesmo, esse passado em cacos sempre pode sofrer uma ressignificação, uma nova interpretação à luz daquilo que está sendo vivido por nós no pr...