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À PROCURA DE UMA CLAREIRA

Muitas coisas são capazes de empobrecer e perverter o debate político, mas não há nada mais maquiavelicamente perverso do que fixar um rótulo infame no adversário — como nazista, fascista, machista, racista e tutti quanti —, pois, quando se adota esse tipo de procedimento, desumaniza-se o oponente, inviabilizando qualquer possibilidade de debate e entendimento. É o chamado reductio ad Hitlerum que, de forma cínica, associa todos aqueles que discordam de seus postulados políticos ao Adolfo Bigodinho do Satanás para descredibilizar perante a opinião pública a imagem do opositor e, desta forma, poder contabilizar para si o “monopólio das virtudes”, como bem lembra o filósofo Leo Strauss. Um exemplo que ilustra claramente esse empobrecimento do debate público é a forma como se está discutindo o “boicote” como sendo uma prática típica de nazistas. E o mais interessante é o ar condescendente com que algumas pessoas dizem isso, como se estivessem dando uma aula de história e civilidade para a galera galerosa nas redes sociais. Mas a pergunta fica em aberto: é ou não é uma prática exclusiva dos nacional-socialistas? Bem, vamos por partes. Para começo de prosa, a prática de boicotes é tradicionalmente empregada como uma estratégia de luta política não violenta que foi defendida por vários filósofos e empreendida por várias lideranças políticas no correr da história. O primeiro que eu destacaria seria Étienne de La Boétie, em seu livro Discurso da servidão voluntária — aliás, o primeiro livro de filosofia política que li em minha porca vida. Mas a referência mais importante sobre esse tema, com toda certeza, foi Henry Thoreau que, em seu livro A desobediência civil, defendia esse tipo de prática como uma estratégia política legítima. Atualmente, destacaria um autor em particular que advoga em favor de estratégias de luta não violenta e o faço porque suas obras merecem ser lidas. Refiro-me a Gene Sharp, principalmente o seu livro Da ditadura à democracia, que deveria ser uma leitura obrigatória, tendo em vista que ele lista e explica uma série de táticas de desobediência civil que podem ser utilizadas de forma legítima para enfrentar uma tirania, nos casos mais severos, ou contra medidas indesejáveis, em situações menos drásticas. Detalhe importante que eu já estava me esquecendo: o senhor Thoreau é singular porque influenciou diretamente lideranças políticas como Mahatma Gandhi e Martin Luther King Jr. em suas lutas. Bem, a esta altura do campeonato, alguém ainda teria a desfaçatez de afirmar que esses cavalheiros estavam fazendo cosplay de fascistas ou de qualquer tranqueira similar? Imagino que não; e, por isso mesmo, pergunto: dá para entender por que essa mania de rotular de forma infame os adversários apenas empobrece pra caramba qualquer debate? Se houvesse um ambiente político saudável em nosso país, ao invés de ficar rotulando os indivíduos de nazistas por defenderem o uso de uma tática não violenta de ação política, perguntar-se-ia se o uso desta tática é legítimo, proporcional e necessário. Aliás, quando a esquerda, há não muito tempo, usou esse mesmo estratagema contra algumas empresas que haviam apoiado seus adversários políticos, foi um uso necessário, proporcional e legítimo? E verdade seja dita: atualmente estão circulando listas de boicote de direita, de esquerda, do avesso, tico-tico no fubá, enfim, temos listas para todos os gostos e, diante de todas elas, o questionamento é o mesmo. Por essa razão, sempre é bom lembrarmos a advertência de George Orwell, que dizia em seu ensaio O que é fascismo? que essa mania de chamar todo mundo de fascista — que impera no Ocidente desde a primeira metade do século passado — acabaria levando as pessoas a perderem a capacidade de reconhecer as características próprias do fascismo e de identificar um Estado totalitário, mesmo estando sob sua batuta. Ou, como afirmou sarcasticamente o escritor italiano Ignazio Silone, que num futuro não muito distante o fascismo retornaria, mas com o nome de antifascismo. Enfim, esses são alguns dos fatos que, penso eu, todos nós deveríamos ponderar com muita seriedade e serenidade.


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Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO LEVIATÔ, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela 




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