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ATÉ O ÚLTIMO SUSPIRO

Provavelmente o amigo leitor já deve ter assistido no YouTube à homenagem ao Led Zeppelin realizada no Kennedy Center Honors, em Washington, no ano de 2012, onde, entre outras coisas, foi executada de forma magistral a canção Stairway to Heaven. Na plateia, obviamente, estavam Robert Plant, Jimmy Page e John Paul Jones. Quem ainda não assistiu, por favor, pare de ler esta escrevinhada e vá assistir. E, se já assistiu, vá mais uma vez. Assistiu? Maravilha! Eu amo essa música e, toda vez que vejo essa apresentação, meus olhos ficam nadando em lágrimas enquanto minha garganta engasga. Não apenas pela beleza do show — que conta com Jason Bonham, filho de John Bonham, falecido baterista do Led Zeppelin, e interpretação de Ann e Nancy Wilson, do Heart, acompanhadas por músicos e coral —, mas também e principalmente pela vista que temos do olhar dos três remanescentes da banda homenageada que, na plateia, assistiam a tudo extasiados de emoção. Aliás, de todos eles, o olhar de Robert Plant sem dúvida alguma era o mais enigmático. Visivelmente segurando o choro, com os olhos marejados durante toda a execução da música, revelava a alma de um homem que estava, naquele momento, revisitando toda a sua carreira, suas realizações, sua vida. Ele praticamente não pisca. Há momentos em que dá a impressão de que irá murmurar algo, cantar um trecho da canção, mas nada — nenhuma palavra saía. Os seus olhos silentes falavam tudo. Essa cena, à sua maneira, me leva a imaginar o martírio do meu santo padroeiro, São Tomás Becket, que foi assassinado por sicários amigos do rei Henrique II da Inglaterra diante do altar, enquanto rezava de joelhos. Ao ver o olhar compenetrado de Robert Plant diante do show, fico a imaginar que aquele olhar deveria ser similar ao de São Tomás Becket diante do altar onde ele tantas e tantas vezes celebrou a Santa Missa. O olhar de um homem que está tendo, diante de seus olhos, uma visão de toda a sua vida antes de ser martirizado. Todos nós, meros mortais, temos também experiências similares a essa, onde nosso coração, arrebatado pela emoção do momento, arrasta-nos para um turbilhão de memórias que se apresenta como a nossa vida vivida até ali. Uma experiência que, invariavelmente, nos faz refletir sobre quem nos tornamos e, com a alma desnuda, indaga-nos: valeu a pena? Faríamos tudo de novo? O que mudaríamos e por que faríamos isso? Quanto tempo ainda temos? Faço essas e outras perguntas todos os anos para mim mesmo em dois momentos em particular. Um deles é ao final de todo ano letivo; o outro é todo dia 15 de outubro, no Dia do Professor. Bah! Faz praticamente 31 anos que estamos caminhando neste riscado, onde colecionei muitas alegrias, muitas conquistas e, é claro, alguns punhados de tristezas, derrotas e desilusões que, tudo junto e misturado, fazem parte de quem eu sou. Lembro-me de quando, pela primeira vez, coloquei meus pés em uma sala de aula. A barba não era tão cerrada, era toda preta e meus cabelos eram longos. Usava camiseta branca, camisa xadrez aberta, calça jeans rasgada no joelho direito e sandálias de couro — enfim, uma figura. Uma figura que se apaixonou à primeira vista pelo ato mágico que é ensinar. Tamanho foi meu encantamento que uma amiga, à época, dizia que conseguia me ver, bem velhinho, em uma sala de aula. Hoje, alguns alunos às vezes me perguntam: o que eu gostaria de ser se não fosse professor? E a resposta é simples: eu não sei ser outra coisa senão professor. Bem ou mal, é isso o que sou. Passados todos esses anos — nos quais testemunhei o milagre da educação na vida de milhares de crianças, jovens e adultos —, apesar de minhas limitações como ser humano e de meus defeitos como docente, ainda consigo me imaginar velhinho, com os cabelos e barba brancos feito a neve, lecionando e fazendo o que amo até o último instante de minha vida. Mesmo que eu não tenha a maestria do vocalista do Led Zeppelin, nem as virtudes heroicas de São Tomás Becket.

*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO LEVIATÔ, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela 





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