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O FUTURO COMEÇA LOGO ALÍ - Notas e reflexões heterodoxas

1. Pare e pense numa coisa: faz algumas décadas que a formação do caráter deixou de ser uma das colunas fundamentais que dão sustentação às preocupações educacionais, seja da parte dos planejadores estatais, seja da parte das famílias — tradicionais ou não. Todos estão preocupados em saber se os infantes serão bem-sucedidos materialmente, profissionalmente, emocionalmente e o caramba a quatro; mas se eles serão pessoas de caráter — dignas, prestativas e boas —, francamente, aparentemente tornou-se algo secundário. Por isso — e por muito mais —, nossa educação encontra-se no estado em que está.


2. Há uma velha canção do Raul Seixas em que ele diz: "eu não preciso ler jornais / mentir sozinho eu sou capaz". Acho essa afirmação fantástica, não porque os jornais sejam instrumentos de disseminação deliberada de desinformação e demais tranqueiras do gênero — nada disso. Gosto das palavras do nosso "maluco beleza" porque todo mentiroso gosta de adornar suas mentiras com alguma verdade publicada por um jornal para, dessa forma, dar alguma "credibilidade" à sua lorota mal-intencionada. Afinal, todo mentiroso, antes de qualquer coisa, é um baita de um covarde.


3. A imprensa livre, com todos os seus defeitos e limitações, é a pedra fundamental de sustentação da sociedade ocidental de um  modo geral, e da sociedade brasileira de maneira particular. Pois, como há muito foi sentenciado por Nelson Rodrigues, no Brasil quem realmente desvela os crimes é a imprensa. Não a imprensa como um todo, mas uma penca de pessoas que, através da tribuna, têm a coragem e a ousadia de proclamar a verdade, mesmo que os donos do poder fiquem pau da vida com isso.


4. Grandes jornais, pequenos jornais e a chamada imprensa nanica, juntos e misturados, devem coexistir. Não porque afirmar isso seja fofo, mas sim porque o ato de informar, como toda ação humana, é passível de falhas. Por isso mesmo, a liberdade de imprensa é fundamental para que os mais variados órgãos de mídia, independentemente do seu tamanho e prestígio, possam, com humildade e sobriedade, corrigir-se mutuamente. Dito de outra forma, não é um órgão censor que irá garantir o fim dos engodos e mentiras — hoje chamados de fake news —, mas sim a liberdade de dizer a verdade, correndo o risco de errar ou de se equivocar. Pois, se esse risco deixa de existir, a verdade jamais terá espaço para abrir suas majestosas asas sobre nós.


5. A liberdade é um dom divino e, por isso mesmo, deve ser defendida com todas as forças do nosso ser. Quando ela fenece e deixa de imperar em nossa vida, muito rapidamente a verdade deixa de ser o caminho seguido pelos nossos passos. A existência, com o tempo, deixa de ser vida por perder a chama que guia as almas embebidas de boa vontade — que é a justiça, a qual, sem a liberdade, também fenece.


6. Querer ser sempre melhor do que os outros é uma tremenda bobagem, da mesma forma que viver dizendo para si mesmo que devemos nos esforçar para ser uma "versão melhor de nós mesmos" é outra besteira. Na real, a única coisa que realmente importa é nos esforçarmos para sermos melhores para melhor servir ao próximo — apenas isso e nada mais.


7. Um sistema educacional que não reconhece que a humildade é a virtude fundamental para o aprendizado de qualquer coisa é, na real, um sistema que fomenta o contrário da educação. E um sistema que vive falando da importância de valorizar esse tal de "protagonismo juvenil" está apenas preocupado em mimar as tenras gerações, não em educá-las — porque ignora soberbamente a importância da virtude da humildade na formação da personalidade humana.


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Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela 





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