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O PRIMEIRO PASSO DE UMA GRANDE JORNADA

O professor Antônio Cândido, em uma entrevista há muito concedida, disse uma obviedade ululante que, como todas as obviedades, precisa ser repetida porque nós, seres humaninhos, temos o péssimo hábito de esquecer tudo aquilo que realmente tem alguma importância. Disse ele que a leitura de Homero, Cervantes, Shakespeare, Dumas, Dostoiévski, Machado e companhia limitada, juntamente com o conhecimento de histórias folclóricas, literatura de cordel e demais preciosidades, nunca fez mal a ninguém. Aliás, até onde sabemos, ninguém ficou estúpido ou se tornou uma pessoa pior por ter se entregado a esse tipo de desfrute literário.


Além disso, Northrop Frye e Harold Bloom nos lembram que a literatura, por meio de suas páginas, nos apresenta vidas humanas possíveis que, se forem lidas, apropriadas e devidamente interiorizadas, enriquecem a nossa alma com perspectivas que seriam literalmente inacessíveis a uma pessoa que sabe ler e não lê.


E tem mais! Por termos contato com esses dramas humanos ficcionais — e, por isso, possíveis —, temos a oportunidade de experimentar nas entranhas da nossa alma o que realmente significa ser leal, ter coragem, ser um canalha de marca maior, agir de forma piedosa como um santo, ser audaz como um herói e, entre outras coisas, ter compaixão — ser empático — com quem sofre.


Se não temos contato com o fruto das obras destes e de outros grandes mestres da humanidade, sem querer querendo vamos nos condenando a ver a nossa vida apenas pela perspectiva apequenada da nossa existência medíocre.


Sim, a vida de um cidadão comum, como eu e você — como qualquer um de nós —, é, por definição, uma existência medíocre, apequenada, reduzida à perspectiva de meia dúzia de problemas banais. Agora, quando nos permitimos ter contato com esse universo, sem nos darmos conta vamos ampliando imaginativamente a gama de perspectivas da nossa alma e, ao fazer isso, vamos projetando essa dimensão aquilatada sobre a banalidade do nosso dia a dia, elevando o nosso modo de ver a vida e tornando-a uma grande epopeia vivida magistralmente entre os ditames limitantes de uma rotina alienante. Ou, como diria Rubem Alves, quem não lê vê o mundo apenas com os seus olhos — grande coisa; já quem lê vê o mundo com os seus olhos e com as janelas da alma dos autores que leu. E isso, como diria o senhor Spock, é fascinante.


Sim, eu sei que todos nós, neste mundinho imerso na mais vil tecnolatria, aprendemos que devemos ser práticos e objetivos — o que, em outros termos, quer dizer que esse mesmo mundinho quer apenas que sejamos uma peça autômata e alienada deste sistema maquinal e alienante.


Ainda por esse caminho, o professor Olavo de Carvalho recomendava aos seus alunos que tomassem uma obra da grande literatura universal e procurassem, religiosamente, lê-la e relê-la com relativa frequência para, com o passar do tempo, absorver e integrar em sua alma as várias nuances e camadas de significado que há nela.


Aliás, isso é algo que, instintivamente, as crianças manifestam quando pedem insistentemente para rever o mesmo desenho, o mesmo filme, para ouvir as mesmas músicas, as mesmas histórias, para assimilá-las em seus corações de seres humaninhos. Por essas e outras que Nietzsche dizia que a maturidade consiste em reencontrar, na idade adulta, a mesma seriedade que, quando crianças, colocávamos nos jogos e brincadeiras.


Eric Voegelin, por exemplo, todo inverno relia as obras completas de Shakespeare; Luiz Fernando Verissimo tinha a obra magna de seu pai, O Tempo e o Vento, na cabeceira da sua cama; João Nogueira da Silva Neto - O Rasta - todo ano relê O Senhor dos Anéis; e nós, o que relemos? Pois é, foi o que eu pensei.


E com uma resposta destas nós queremos — porque queremos — ficar dando pitaco sobre como deveria ser a educação dos outros quando, na verdade, mal principiamos a jornada da nossa, não é mesmo?


*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO LEVIATÔ, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela






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