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A JOIA QUE FOI MALANDRAMENTE PERDIDA

No livro “A bacia de Pilatos”, de Humberto de Campos, há um conto que nos apresenta a história de um padre italiano que estava vindo para o Brasil. Quando o navio estava se aproximando da baía de Guanabara, ele se dirigiu ao convés para contemplar a paisagem.


E eis que, do nada, apareceram duas portuguesas. Pediram a bênção e perguntaram se o vigário conhecia o Brasil. Ele disse que sim e que, na sua humilde opinião, não existia lugar mais belo na face da Terra. Impressionadas com o entusiasmo do homem de Deus, perguntaram-lhe como era a fiscalização e, de pronto, ele disse: “Rígida, minhas filhas. Não passa nada.”


Então, as duas abriram o jogo. Disseram que estavam vindo para assumir a herança de um tio, uma propriedade em Barbacena (sempre em Barbacena), e que, por isso, estavam trazendo consigo as joias da família; joias essas que estavam há gerações na família e que, por essa razão, não dispunham de nota fiscal. Diante disso, elas temiam perdê-las na aduana.


E o que é que o padre tinha que ver com o peixe? Bem, as moças pediram: “O senhor poderia escondê-las embaixo de sua batina, entre suas pernas, para passá-las pela fiscalização?”


Na mesma hora o padre pensou: a simpatia era cilada. Mas, diante do olhar suplicante das senhoras, atendeu ao pedido delas. Afinal, o pleito tinha lá sua razoabilidade.


Chegando à aduana, o padre foi à frente das moças com as joias ocultas em sua batina. Colocou sua mala sobre o balcão e o fiscal a revistou, nada encontrando. Educadamente, o fiscal pediu ao padre para revistar seus bolsos e, num deles, encontrou um rosário; no outro, uma novena de Santo Antônio de Pádua.


Feito isso, perguntou ao pé do seu ouvido, com aquele humor e sotaque característicos: “Por um acaso o senhor não tem nada debaixo da batina?”


Leitor do céu! O padre ficou roxo, vermelho, lilás — como diria o Away de Petrópolis, ele ficou “perplecto”. Não sabia o que dizer, temia a repercussão, estava em pânico diante da possibilidade de ser preso como contrabandista. Seria o fim do mundo. No mínimo, o seu fim neste mundo, imaginava ele.


E antes que o temor tomasse conta de toda a sua alma, brotaram no seu coração as seguintes palavras do Santo Evangelho: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” Palavras estas que insuflaram em sua alma uma coragem incomum; e então, mirou nos olhos do fiscal e disse: “Sim, senhor, realmente tenho algo entre minhas pernas, mas o que tenho pertence às duas senhoras que estão comigo.”


Leitor safadinho. Tenho certeza de que você já imaginou outra coisa em sua cabecinha, não é mesmo? Pois é. Mas é bem desse jeito que nos portamos diante desse oceano de informações que nos circunda e nos inunda.


Seja por malícia, por vaidade, por pura arrogância ou por leviandade desmedida, frequentemente nós acabamos trocando, no ato de nos informar, as joias da verdade por qualquer outra ninharia que nossa imaginação deformada sugerir para nossa inteligência indisciplinada e desleixada.


Sem dúvida alguma, o fluxo contínuo de informações nos arrasta sem dó e, muitas vezes, sem que percebamos, acabamos servindo de câmara de eco para ideias e ideologias que, na maioria avassaladora das vezes, nunca paramos para analisar com a devida atenção.


Enfim, não é à toa, nem por acaso, que na oficina da nossa cumbuca a joia da verdade seja tão safadamente trocada pelo entulho do engano e da mentira, não é mesmo?


*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela




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