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A FRIA SOMBRA QUE NOS ASSOMBRA

Sempre desconfiei daqueles caboclos que dizem, com o peito estufado, que não têm medo de nada, porque coragem é uma virtude que, como toda e qualquer virtude, dispensa alardes. De mais a mais, coragem não significa viver sem nada temer, mas sim viver e enfrentar os seus temores, mesmo estando se borrando de medo. O resto, te digo, é apenas encenação e efeito pirotécnico. Eu, de minha parte, admito: tenho um punhado de medos. Um deles é de pessoas e organizações que dizem que aqui estão para “restabelecer a verdade”, “salvaguardar as instituições” e tra-la-lá. Toda vez que uma turma se apresenta assim, com toda essa marra e sofisticação, não tenho dúvida alguma: são discípulos da Rainha de Copas que não medirão esforços para fazer imperar a insânia e o engodo. Por exemplo, ao voltarmos nossos olhos para a história desta terra de desterrados que é o nosso país, lembramos que, nos idos dos anos 60, quando aqui imperava o tempo do “Ame-o ou deixe-o”, o regime militar jurava, de coturnos juntos, que estava agindo em nome — adivinhe do quê? — da defesa das instituições. Aliás, vale muito a pena reler um trecho de um dos documentos históricos dessa época. Um trecho do famigerado AI-5, de 13 de dezembro de 1968, que marcou o começo do tempo mais sombrio deste período umbrífero da história do Brasil, que diz o seguinte: “conforme decorre dos Atos com os quais se institucionalizou, fundamentos e propósitos que visavam a dar ao País um regime que, atendendo às exigências de um sistema jurídico e político, assegurasse autêntica ordem democrática, baseada na liberdade, no respeito à dignidade da pessoa humana...”, e trelelé. Que coisa, hein? Então quer dizer que órgãos de imprensa, jornalistas, artistas e intelectuais foram censurados, prisões arbitrárias foram realizadas, pessoas foram torturadas e mortas em um regime de exceção em nome da “ordem democrática”? Isso mesmo. Agora, se voltarmos nossos olhos para o Velho Mundo, num outro contexto, quando o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, capitaneado por Adolf [bigodinho do satanás] Hitler, tomou o poder, eles juravam de pés juntos que, entre outras coisas, iriam restabelecer a verdade. Pois é: deu no que deu. Aliás, vale lembrar que esse partido, quando esteve à frente da Alemanha, tinha inclusive um órgão criado especificamente para restabelecer a “verdade”. Era o Ministério do Reich para o Esclarecimento Popular e Propaganda, chefiado por Joseph Goebbels. Ora, meu caro Watson, vale a pena lembrar que todo aquele que se dá ao trabalho de censurar nunca diz que está calando uma verdade inconveniente, nada disso. Todo bom censor, por definição, afirma que está agindo pelo bem do povo, das instituições e, é claro, para proteger a todos contra as mentiras, calúnias e fake news espalhadas por sujeitos tão “ardilosos” quanto “ameaçadores”. Por isso, não nos esqueçamos: arbitrariedades e tiranias raramente são implementadas declaradamente pelo vil prazer sádico e escancarado de abusar do poder. Nananinanão. Essas tranqueiras — autoritárias ou totalitárias — sempre foram, e sempre serão, implantadas em nome de algum ideal fofo que justifique e disfarce bem a sanha maquiavélica que as motiva. E quem diz o contrário, não sei não; talvez esteja — ou gostaria de estar — se locupletando com alguma farra dessas. Ainda bem que esse tipo de arbitrariedade suprema, em nosso país, é uma página virada da nossa história. Mas o que dá medo é que temos o péssimo hábito de ignorar as lições da mestra da vida, ou não?


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Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO LEVIATÔ, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela




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