Estou lendo, entre outras coisas, o livro “Os Tempos Ásperos” de Jorge Amado. Um baita livro, para o meu gosto. Mas não é a respeito desta sua obra que pretendo parlar, mas sim sobre uma declaração proferida pelo autor em uma entrevista onde disse, de forma lacônica, feito pino de patrola, que ideologias, sem exceção, são todas um monte de fezes. Umas fedem mais, outras mais ainda, mas todas elas, juntas ou separadas, são o que são, e ponto final.
Ainda na mesma entrevista, Amado, de uma forma não tão amável, disse com todas as letras que é importante lembrarmos e, se possível for, jamais esquecermos que existem filhos de uma boa mãe de direita, da mesma forma que existem filhos do mesmo naipe de esquerda — e de centro também —, porque, se há uma coisa que é muito bem distribuída neste país, é a canalhice; e se não somos capazes de perceber isso, imagino que está mais do que na hora de revermos alguns conceitos — e preconceitos — que carregamos em nossa algibeira mental.
Sobre esse ponto, meio fora de prumo, há algumas considerações que, há muito, foram feitas por José Ortega y Gasset em um discurso que ele proferiu na Câmara dos Deputados do Chile (Obras Completas — tomo VIII), onde nos chama a atenção para a sutil distinção que há entre aquilo que ele qualificou como sendo as ideias na política e as políticas de ideia.
A primeira dimensão refere-se à importância das ideias na vida política; ideias que podem ser, ao mesmo tempo, faróis que guiam as decisões humanas e âncoras para nos equilibrar diante das tempestades que vez por outra assolam a sociedade. Quanto à segunda, ele nos adverte para o perigo que ronda as sociedades quando, com base em uma ideia quista como iluminadíssima — como se ela fosse a salvação da lavoura —, se procura não apenas corrigir e reformar a sociedade, mas transformá-la de fio a pavio como, aliás, querem porque querem todas as ideologias, independentemente do seu matiz.
Neste caso, o ser humano, enquanto pessoa que integra uma comunidade, com todas as suas virtudes e defeitos, desaparece; em seu lugar, os indivíduos passam a se identificar com rótulos ideológicos que os desfiguram e, assim, os desumanizam, esgarçando as relações sociais e, deste modo, inviabilizando a tomada de decisões políticas de forma serena, tendo em vista o bem comum. E isso, com o perdão da palavra, vale para todos nós, independentemente do posicionamento político que tenhamos diante dos problemas e mazelas que se fazem presentes em nossa sociedade.
E tem outra. Quando enxergamos a vida apenas através destes filtros, além de não resolvermos problemas candentes em nossa sociedade, conseguimos a façanha de piorá-los de uma forma como nunca se viu antes na história do nosso país.
E em meio a todo esse angu encaroçado, um bom exemplo desse triste entrevero é o estado lamentável em que se encontra a educação como um todo. Qualquer um, com um mínimo de bom senso, reconhece o estado caótico a que chegamos; porém, na hora de enfrentar os fatos, muitos os encaram — parcial ou totalmente — através de um filtro ideológico que os distorce, tornando a sua resolução algo praticamente impossível.
Pais, professores e burocratas; políticos, sociedade e grande mídia; intelectuais, comentaristas e palpiteiros: todos temos nossa cota de responsabilidade diante deste caos e, se não nos vemos como corresponsáveis no quadro, como parte do problema, dificilmente teremos, um dia, a autoridade necessária para caminhar rumo a uma solução. E, se insistirmos nesse passo ideologicamente marcado, continuaremos assim, feito cachorro que caiu da mudança — da mudança que nunca irá ocorrer.
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Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO LEVIATÔ, entre outros livros.
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