O temor de Deus é o princípio da sabedoria, nos ensina a Sagrada Escritura (Provérbios I, 7). Em grande medida, o homem moderno virou as costas e fez pouco caso desta orientação, crendo que estaria livre para fazer o que lhe desse na ventana. Ledo engano: a partir do momento em que deixamos de lado o temor de Deus, passamos a nos borrar de medo da opinião alheia, do falatório dos sepulcros caiados, dos senhores deste mundo e, se bobear, até mesmo da nossa sombra. Enfim, por esse e por outros motivos é que não há a menor chance de cultivarmos a sabedoria se passamos a querer posar de galo véio prateado e cismar de ciscar para Aquele que é o princípio e o fim de todas as coisas.
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O insensato despreza a disciplina (Provérbios I, 7). Dito de outro modo, o homem moderno acredita que é capaz de tudo, inclusive de se autogovernar, sem ter que proceder com retidão em sua vida. Como nos ensinam os filósofos estoicos de forma simples e direta, disciplina é liberdade; e qualquer um que diga que é capaz de ser livre sem disciplinar-se terminará, cedo ou mais cedo do que imagina, reduzido à mais abjeta escravidão aos seus mais rasteiros instintos e inclinações desordenadas.
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Para ser bem sincero, nunca vi uma pessoa tornar-se estúpida por ter uma bela caligrafia e, até onde sei, ter uma letra ilegível — feia feito filhote de cruz-credo — nunca foi garantia de que o indivíduo tenha uma inteligência elevada.
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Muitos são os vícios morais que vão, sorrateiramente, corroendo a alma humana. São boleiras. Mas se há um que, além de carcomer a alma do sujeito, consegue ao mesmo tempo expô-lo ao ridículo, é a gabolice por méritos imaginários em ocasiões tremendamente inapropriadas.
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O limite não é uma forma de opressão que se exerce sobre a criatividade. Nada disso. O limite é o parâmetro imprescindível para que a criatividade possa ser exercida e se desenvolver, ampliando o horizonte de ação e de compreensão do indivíduo. Sem limites, a criatividade esmorece e, com ela, a inteligência também, reduzindo o seu raio de ação às cercanias do umbigo do sujeito que imagina que seus caprichos e inclinações desordenadas seriam os critérios mais elevados que existem.
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Um diálogo improvável. O aluno diz: "Eu escrevo do jeito que quiser e você tem que respeitar minha subjetividade!" O professor para, pensa, sorri sarcasticamente e diz, com serenidade estoica: "Ótimo. E eu, de minha parte, corrigirei o seu trabalho ao meu modo, e a nota que lhe for auferida por mim deverá ser aceita por ti, porque refletirá a minha “subjetividade”, pode ser?" O aluno parou, coçou a cabeça, pegou o trabalho de volta e resolveu refazê-lo com mais zelo.
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Devemos, como nos ensina o livro dos Provérbios (II, 1-5), aplicar o nosso ouvido à sabedoria e abrir o nosso coração à prudência. Dito de outra forma, devemos aprender a ouvir com a devida atenção as instruções que os mestres nos apresentam, desde as mais elevadas até as mais elementares; desde as mais eloquentes até as mais simplórias. Afinal, o bom ouvinte sabe que, se dedicarmos a devida atenção, até mesmo uma lição ministrada de forma maçante — ou errônea — pode nos apresentar um ensinamento precioso; e, procedendo assim, nosso coração se dilata, nossa compreensão se amplia e, consequentemente, tornamo-nos mais virtuosos ou, pelo menos, menos tontos.
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Quando aprendemos a arte de ouvir, tão elogiada por Plutarco, passamos a compreender que o segredo para encontrarmos o caminho que devemos seguir em nossa porca vida depende da forma como prestamos atenção a tudo o que a vida nos apresenta. Tudo em nossa vida é uma fonte preciosa de informação, tudo; porém, extrair o valor presente no que nos é informado através de palavras, gestos, ações e presença depende, sempre, do quanto estamos dispostos a aprender. E aprender é sempre uma questão de atenção. O resto é conversa fiada.
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Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS”, entre outros livros.
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