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MUITO ALÉM DO MEGAMENTE - Notas e reflexões heterodoxas

1. A sabedoria nos convida a ouvi-la (Provérbios VIII). Ouvir com atenção aquilo que ela sussurra em nosso coração. Porém, no mundo atual, quantas são das pessoas que realmente procuram ouvir o seu semelhante com a devida reverência que ele merece? Aliás, quem procura ouvir com o coração aberto as palavras ditas ou berradas pelos seus inimigos e desafetos, procurando meditar sobre elas para, assim, poder separar o que é verdadeiro daquilo que é falso? Pois é. Se agimos assim uns em relação aos outros, dificilmente a sabedoria encontrará morada nos átrios do nosso coração porque, na real, nós a recusamos com a nossa intratável malícia.


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2. O humor é fundamental para podermos crescer em espírito e verdade — o bom humor, a ironia e companhia limitada; quanto à criancice, não (Provérbios IX). Neca de pitibiriba. Para podermos realmente robustecer a nossa alma, é imprescindível que procuremos deixar nossas atitudes petulantes para trás e, gradativamente, passarmos a cultivar novos hábitos que nos movam na direção de nos tornarmos uma pessoa mais digna, prestativa e boa. Mas se insistirmos em continuar com nossas criancices, crentes de que tudo e todos à nossa volta estão ao nosso serviço e que nos devem satisfação, podemos até prosperar, mas dificilmente seremos uma pessoa realmente madura.


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3. Que aproveita ao homem iníquo dos tesouros que foram por ele mal adquiridos? (Provérbios X, 2-3). O indivíduo malicioso e hedonista dirá que aproveita muito, pois pode desfrutar com esses tesouros inúmeras delícias deste mundo e, sim, isso é verdade; porém, como nos lembra Santo Antônio de Pádua, de forma lacônica, a vida não termina aqui. Ela apenas começa nestes pampas e, por isso, perguntamos mais uma vez — porque perguntar não ofende e não paga imposto —, que aproveita ao homem iníquo dos tesouros que foram por ele mal adquiridos? Bem, foi o que eu pensei.


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4. Deus abomina muitas coisas e, uma dessas coisas, é a balança fraudulenta (Provérbios XI, 1). O famoso — e nada formoso — dois pesos e duas medidas que nós utilizamos três por quatro para julgar e condenar tudo e todos, de acordo com a leviandade que vier a se abater sobre nosso destemperado temperamento no momento em que formos emitir o nosso veredicto desprovido de valor e importância.


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5. Muitos são os elementos que podem corroborar para o bom desenvolvimento da nossa inteligência e, por certo, muitas também são as traquitanas que podem contribuir para o seu aviltamento. De todos eles há um que, penso eu, é de fundamental importância: o amor à correção (Provérbios XII, 1). O amor pela correção é a manifestação confessa de uma alma que deseja ardentemente encontrar-se com a verdade; e rejeitá-la é a afirmação descarada de uma alma que está satisfeita consigo mesma e que, por isso, está condenando o seu discernimento ao embrutecimento.


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6. Todo bom leitor — e, consequentemente, todo bom cidadão — necessariamente precisa saber diferenciar um fato de uma opinião (Provérbios XII, 17). Não apenas isso: é preciso compreender que um fato, uma opinião e a verdade não são a mesma coisa e que o critério para verificar a veracidade de um fato e de uma opinião não pode ser nossos gostos, preferências e inclinações. E tem outra! Se não somos capazes de compreender essas sutilezas, ao menos tenhamos a decência de não ficar bancando o bonzão, apontando o dedo para todos como se fôssemos o “Megamente do pensamento hipoteticamente crítico”.


7. A sabedoria não é escandalosa — diferente da tonteria que, portando-se como uma matraca, não para de dar pitacos sobre assuntos que conhece apenas de orelhada (Provérbios XII, 23). Sim, ao lermos isso, mais do que depressa todos nós, em nossa imensurável “humildade”, lembramos de alguém que fala até pelos cotovelos borbotões de sandices e groselhas, mas nunca, nunquinha, fazemos questão de rememorar as incontáveis vezes em que nós agimos desse modo. Afinal, é muito mais fácil — e mais gostoso — xingar os outros daquilo que a gente é do que nos emendarmos e mudarmos de vida, não é mesmo?


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Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela 





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