O Brasil é um país com uma história cheia de paradoxos interessantíssimos. É um cadinho de terra americana que, em pleno século XVII, ao final da União Ibérica, aclamou o senhor Amador Bueno como rei e este, por sua deixa, não aceitou, tendo de fugir da turba e se esconder num mosteiro para não ser trucidado pelo povo que queria coroá-lo de qualquer jeito. Ao mesmo tempo, é uma nação que teve um imperador, Dom Pedro II, que presenteou um idealista italiano chamado Giovanni Rossi com uma faixa de terras no Paraná para realizar o experimento de uma sociedade anarquista. Enfim, esse é o Brasil que eu tanto amo.
#
No Brasil contemporâneo, temos, entre aqueles que se dizem letrados e diplomados, a presença de uma indiscreta — digo, de uma aversão confessa — à grande literatura. Uma aversão tão grande que chega a ser manifestada nos currículos escolares. Por outro lado, no submundo do crime, junto a organizações como o PCC, testemunhamos a organização daquilo que os seus membros chamam de "Academia Brasileira de Letras do Cárcere".
#
Muitos adultos, quando veem certas atitudes dos mais jovens, costumam chamá-los “carinhosamente” de “sem futuro”, como se esses homens e mulheres nunca tivessem sido jovens e cometido erros similares aos deles — e, em muitos casos, erros bem piores.
#
É curioso, mas é a mais pura verdade: os mesmos adultos que olham para os jovens e dizem, com todas as letras, que a Geração Z é um amontoado de figuras “sem futuro” são os mesmos que, com a maior cara de pau — e muito óleo de peroba —, bajulam os zoomers, dizendo que eles são os "protagonistas do seu aprendizado". Bah! E depois essa gente não sabe por que as tenras gerações não levam a educação a sério.
#
Todo burocrata, seja ele de carreira ou de ocasião, bem como todo político, seja ele oportunista ou por convicção, deveria saber que ninguém leva a sério uma proposta canalha defendida por bajuladores.
#
Protagonista, originalmente, não era aquele que brilhava no centro das atenções, nada disso. No princípio, o protagonista era aquele que abraçava o sofrimento, chamava para si a responsabilidade e assumia os dramas da vida, sem se preocupar se seria ou não o centro das atenções. Enfim, dá para notar que, da Antiguidade para os dias atuais, a coisa mudou muito; por isso, é patético por demais ver um bocó-de-mola ficar se pavoneando para um punhado de sem-noção, chamando-os de “protagonistas” no mesmo instante em que eles viram as costas para todas as responsabilidades que a vida lhes apresenta.
#
O primeiro passo para aprendermos qualquer coisa é decidirmos que iremos empregar todo o tempo e esforço necessários para chegar à dita-cuja da compreensão. Se não estivermos dispostos a dar esse passo, definitivamente estaremos nos condenando à total boçalidade.
*
Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS”, entre outros livros.
Comentários
Postar um comentário