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UM SIRICUTICO DANADO

Muito se fala hoje em dia na importância da alta cultura para a formação das futuras gerações. Existem, inclusive, boleiras de cursos sobre isso. Muito se parla também a respeito do quão fundamental é o fomento do desenvolvimento de um pensamento crítico nas tenras gerações, para que elas possam vir a ser indivíduos autônomos. Via de regra, tanto os defensores de uma coisa quanto aqueles que advogam em favor da outra têm as suas razões e argumentos e, para ser sincero, grande parte deles me parece muito justa; porém — porque sempre há um porém — tem muito caroço nesse angu. É curioso vermos pessoas que falam até pelos cotovelos a respeito da importância da tal alta cultura sem o menor amor pelo seu cultivo. Figuras que viram mil e um vídeos falando sobre a importância da leitura dos clássicos, mas que nunca se dedicaram com esmero à leitura de um. Aliás, o que mais há em nosso país são pessoas que falam, com o peito estufado, sobre a importância da leitura sem nunca terem lido um livro...

FRAGMENTOS DE UM DIÁRIO HETERODOXO #028

Camus nos lembra que, para muitos homens, o êxito é uma lei e a brutalidade, uma tentação. # Patriotismo não é profissão. # Muitas vezes, aquilo que é considerado improvável pode tornar-se possível. # Os fins justificam os meios; por isso, se equivocam terrivelmente aqueles que estão embriagados com seus fins. # A vida, como nos ensina Umberto Eco, nada mais é do que uma lenta rememoração da infância. # Os imbecis acreditam que são sempre juízes mais serenos e justos do que Deus. # Os vícios precisam ser amados e defendidos por aqueles que são escravizados por eles. É assim que o mundo moderno funciona. # Os vícios precisam ser esfolados, não protegidos. * Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “REFAZENDO AS ASAS DE ÍCARO”, entre outros livros. https://lnk.bio/zanela

O GRANDE MAL DA NOSSA ÉPOCA

Qual é o sentido da vida? Eis a pergunta que nos acompanha desde priscas eras e, dificilmente, um dia deixará de nos acompanhar. Muitas pessoas, altamente gabaritadas, se debruçaram — e se debruçam — sobre essa questão e procuram respondê-la a partir das suas luzes e, é claro, por meio da forma como elas vivenciaram as agruras e delícias da vida. Do mesmo modo, nós também, do nosso jeitão, refletimos sobre essa pergunta e, com base nos mesmos parâmetros, nos debatemos para encontrar uma resposta minimamente satisfatória. Naturalmente, a resposta a essa questão não é unívoca e não pode ser esquadrinhada dentro dos limites asfixiantes de um esqueminha. Fazer isso seria o mesmo que tentar varrer a sujeira da sala para debaixo do tapete, o que pode até trazer alguma satisfação e contentamento num primeiro momento, mas não elimina o problema, que vai se acumulando e, com o tempo, exalando o seu mau cheiro em todo o ambiente até tornar-se insuportável. Ora, é mais ou menos desse jeito que ...

FRAGMENTOS DE UM DIÁRIO HETERODOXO #027

Se alguma alma de boa vontade, como nos lembra G. K. Chesterton, tentar ter uma discussão real e honesta com um jornalista ou formador de opinião que sustente uma posição política oposta à sua, este não terá nenhuma resposta, exceto, é claro, os velhos jargões ocos ou um silêncio cínico. # Onde houver soberba, aí também haverá ofensa e desonra. # Quando, em um momento de bobeira, nos empolgamos e passamos a crer que nosso entendimento diminuto seria o centro do universo, sem que percebamos, sentimos ecoar em nosso coração a velha tentação que nos convida a querer ser como deuses. # Miguel de Unamuno nos ensina que a letra mata e que o espírito vivifica. Porém, lembremos que o espírito não é o sentido, porque o sentido não é mais que a razão; e o espírito está além disso: ele é a verdade que envolve e sustenta a razão. # A palavra, como nos ensina Ortega y Gasset, é um sacramento de mui delicada administração. # Os vícios destroem tudo, principalmente o nosso precioso e escasso tempo. #...

ENTRE ATENAS E JERUSALÉM

Gosto de refletir a respeito do julgamento de Sócrates, especialmente no final do ano, neste tempo em que temos os nossos dias agitados pelos festejos do natalício de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se fosse listar todas as razões e motivações que predispõem minha alma a inclinar-se nesta direção, a prosa seria comprida uma barbaridade e o nosso intento não é chatear ninguém. Mentira, é sim, mas não tanto assim. Sócrates era um homem que, na plenitude da sua vida, foi tocado pelo oráculo que o havia reconhecido como sendo o homem mais sábio que existia. Se esse anúncio tivesse sido feito a qualquer um de nós, possivelmente iríamos estufar o peito, nos achar os sabichões e declarar aos quatro ventos que caboclo mais tarimbado na face da terra não há. Pois é. Mas Sócrates não era como um de nós. Ele era simplesmente quem ele deveria ser e, por isso, ao ouvir essa notícia, duvidou, porque não reconhecia nenhuma sabedoria em seu coração. Ao contrário de nós, ele era humilde; por isso, sábio. O ...

PARA QUE A AURORA POSSA CHEGAR

Tudo em nossa vida é uma questão de tempo — tudo, inclusive e principalmente o aprendizado e o amadurecimento. Há uma passagem do livro “De la estupidez a la locura” na qual Umberto Eco nos conta que, quando completou treze anos de idade, ia contando com muita alegria para todos os amigos, conhecidos e familiares que estava mais velho, e todos amavelmente o felicitavam. Chegando à Igreja, foi ter com o padre Celi e contou-lhe que estava completando anos; o padre, então, disse-lhe: “Muito bem, treze anos desperdiçados”. Isso tudo teria ocorrido em 5 de janeiro de 1945. Tais palavras causaram-lhe um forte impacto. Essa observação o fez mergulhar dentro de si mesmo e refletir, em sua meninice, sobre o que ele tinha feito de sua porca vida até ali; podemos dizer que, de certa forma, aquelas ríspidas palavras provocaram a gestação daquele que viria a ser o Umberto Eco que todos nós conhecemos. Aliás, realmente o conhecemos ou apenas e tão somente reconhecemos a sua fama, que não é pequena...

DIANTE DAS FACES DE JANO

Quando nos aproximamos do final de um ciclo, é natural que germine em nosso íntimo uma certa inclinação para a reflexão, que nos convida a meditarmos um cadinho a respeito de tudo o que foi vivenciado por nós. Meditativos, em meio a regozijos e arrependimentos, voltamos nossos olhos para trás e revivemos em nosso coração nossas alegrias e tristezas, os desafios que encaramos e superamos e, bem como, os obstáculos que enfrentamos e que nos deixaram em vários pedaços. Lembramos dos males que fizemos, das feridas que nos foram causadas, e isso tudo, inevitavelmente, nos leva a ponderar sobre o sentido da vida e a respeito da natureza da justiça. Aí, meu amigo, quando entramos nesta sintonia, a porca torce o rabo, e torce bonito, porque nossa noção sobre a virtude da justiça é torta e nosso entendimento sobre o sentido da vida é estreito. Por conta disso, o jardim de nosso coração, ao final de um ano, encontra-se tomado de inúmeras ervas daninhas, como a buva do arrependimento, a guanxuma ...