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ENTRE ATENAS E JERUSALÉM

Gosto de refletir a respeito do julgamento de Sócrates, especialmente no final do ano, neste tempo em que temos os nossos dias agitados pelos festejos do natalício de Nosso Senhor Jesus Cristo.


Se fosse listar todas as razões e motivações que predispõem minha alma a inclinar-se nesta direção, a prosa seria comprida uma barbaridade e o nosso intento não é chatear ninguém. Mentira, é sim, mas não tanto assim.


Sócrates era um homem que, na plenitude da sua vida, foi tocado pelo oráculo que o havia reconhecido como sendo o homem mais sábio que existia. Se esse anúncio tivesse sido feito a qualquer um de nós, possivelmente iríamos estufar o peito, nos achar os sabichões e declarar aos quatro ventos que caboclo mais tarimbado na face da terra não há.


Pois é. Mas Sócrates não era como um de nós. Ele era simplesmente quem ele deveria ser e, por isso, ao ouvir essa notícia, duvidou, porque não reconhecia nenhuma sabedoria em seu coração. Ao contrário de nós, ele era humilde; por isso, sábio.


O problema — e é aí que o trem fica pra lá de interessante — é que quem disse isso o disse em nome de Apolo e, como todos nós sabemos, Apolo não mente. Logo, o pobre Sócrates tinha o dever de encontrar essa sabedoria, pois, da mesma forma que uma verdade aprendida deve ser uma verdade obedecida, uma verdade anunciada por Deus deve ser procurada humildemente pelo homem. Aliás, é essa procura que define o sábio.


Mas a procura abnegada e amorosa pela verdade não é um passatempo, nem um entretenimento, ou algo similar, nada disso; essa jornada exige tudo de nós, porque não é possível sermos tocados pela verdade, e transformados por ela, se continuarmos sendo pessoas pela metade, com a alma dividida entre os nossos desejos miúdos e as miudezas do mundo.


E por sermos almas de estatura medíocre, Deus, em sua infinita misericórdia, nos enviou seu Filho Jesus Cristo para nos arrancar de nossa baixeza e nos salvar de nossa intratável ignorância nada original. Por piedade, Ele, que é a Verdade, se fez carne e habitou entre nós para iluminar a nossa vida com a luz da Sua vida.


Mas nós o matamos de forma ignóbil porque o nosso coração não é como o de Sócrates. Enquanto ele entregou a sua vida por amor à verdade, nós, em nosso dia a dia alienante, preferimos desdenhar a verdade em favor de uma consciência vaidosa e comodamente satisfeita.


É isso aí. Fim de causo.


*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “A QUADRATURA DO CÍRCULO VICIOSO”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela




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