Pular para o conteúdo principal

NÃO É APENAS UM CAJUZINHO

Navegar é preciso, viver não é preciso, diz o poeta; mas, hoje em dia, tornou-se praticamente impossível não singrarmos com nossa nau existencial pelo remanso das águas virtuais da internet. E, em meio às venturas e desventuras deste mundo de possibilidades sem fronteiras, é muito difícil não nos depararmos com um ou outro vídeo ou postagem falando das bonitezas da filosofia e do quanto esse trem nos faria um bem danado. E as pessoas que entram nessa vibe dizem que curtem esse embalo porque gostam muito de trocar opiniões com outras pessoas e, é claro, de discutir. Bem, isso pode ser divertido, pode inclusive ajudar a desenvolver habilidades retóricas que podem ser muito úteis em nossa vida, mas o fiar do nosso passo por essa trilha não nos leva ao filosofar, porque isso não é filosofia nem aqui, nem na casa do chapéu. O filosofar é, em sua essência, a procura amorosa e abnegada pela verdade; é a procura da unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa. Em resumidas contas, filosofar é aprender a morrer. Por isso, não se pode tratar a filosofia como sendo um tipo exótico de entretenimento. Não que não possamos fazer isso, mas algo me diz que não deveríamos ser levianos a tal ponto porque, no ato de filosofar, devemos ter sempre presente a brevidade da vida, a real presença de nossa mortalidade. Aliás, não apenas Sócrates, Sêneca e companhia nos convidam a fazer isso, mas grandes santos como Santo Afonso de Ligório também o fazem; porque é apenas diante do nosso destino derradeiro que conseguimos estabelecer um substancial contato com a realidade e, desta forma, compreendermos quem nós somos e, principalmente, quem nós deveríamos ser. Sobre isso, há uma historieta sobre Filipe II, rei da Espanha, de quando estava em seu leito de morte. Conta-se que, certa noite, ele mandou chamar seu filho e, quando estava diante dele, levantou o manto com que se cobria, expondo o peito já roído pelos vermes, e então disse ao rapaz: “Vede como se morre e como se acabam todas as grandezas deste mundo”. Pois é, vaidade das vaidades, sim, tudo neste mundo é apenas isso: vaidade. Todos nós sabemos de cor e salteada essa passagem do Eclesiastes, mas, infelizmente, raramente permitimos que as profundezas abissais de suas palavras lavem nossas feridas e mágoas, decepções e fracassos. Isso porque o filosofar tornou-se apenas uma modinha, um jargão de rede social, apenas mais uma onda de verão (ou de qualquer estação), e não mais uma atitude que leva o indivíduo a procurar o fundamento da vida e da realidade que se faz presente nas sutilezas da nossa existência.

*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “O SEPULCRO CAIADO”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela 




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O PESO DAS COISAS SIMPLES - Notas e Reflexões Heterodoxas Semanais

É muito fácil esquecer o enorme esforço psíquico que é exigido de nós para podermos aprender qualquer coisa com um mínimo de profundidade e destreza. No caso de algumas pessoas, nem isso — tendo em vista que inúmeros indivíduos nunca, nunquinha, se esforçaram minimamente para aprender algo com um mínimo de destreza e profundidade. # Todo brasileiro, inclusive eu e você, carrega no âmago de sua alma o cadáver de uma pessoa, de um indivíduo que poderia ter nascido e realizado mil e uma façanhas, mas que não nasceu porque foi abortado por nossa preguiça nem um pouco original. # Existem muitas coisas nesta vida que, por sua natureza, são complexas e, diante delas, devemos nos esforçar para estarmos à altura de sua complexidade. E não existe nada mais complexo neste mundo do que as coisas simples da vida. Não é à toa, nem por acaso, que nos complicamos por completo quando somos confrontados por elas. # Um dos elementos fundamentais que é, de certa forma, desdenhado por toda essa turma que v...

É NO FOGO BRANDO QUE SE PREPARAM OS GRANDES MANJARES

Com o objetivo de resolver pequenos problemas é que surgem grandes inventos. Um destes, sem dúvida alguma, é a panela de pressão. Quem gosta das lides junto ao fogão sabe o quanto essa abençoadinha facilita a nossa vida. Há muito comprei uma para, é claro, ver se eu cozinho mais depressa. Sim, para cozinhar certas coisas e resolver determinados problemas, a urgência acaba sendo necessária; já outros, por sua natureza peculiar, demandam tempo e paciência — tempo que muitas vezes nos falta e paciência de que frequentemente não dispomos. E se há algo que todos nós deveríamos apreciar e ponderar com muita paciência são os “debates” que, de tempos em tempos, acabam tomando o centro das atenções. Estes, do seu jeitão todo especial, instigam-nos a nos indignarmos do nada e, com sangue nos olhos, a bradarmos aos quatro ventos a nossa opinião, tomando partido por essa ou por aquela bandeira, ideia, proposta ou por qualquer esparrela deste gênero. Tal fenômeno torna-se mais curioso quando esses ...

ESPARRELAS PUBLICITÁRIAS NADA EDIFICANTES

É curioso ver que na arena do poder — e fora dela também — muitíssimas pessoas se esforçam para mostrar para todo mundo, menos para Deus, que são pessoas de valor e não sujeitinhos cuja dignidade tem um preço, sempre devidamente atualizado e corrigido pela inflação. E o que mais chama a atenção é que, quanto mais essas figuras, figurinhas e figurões tentam provar que são criaturas de alma ilibada, mais se enrolam nos próprios pés. Na verdade, todos nós, em algum momento de nossas vidas, acabamos por cair nesse tipo de esparrela e terminamos por pagar aquele mico existencial nada original de querer posar de detentores de uma dignidade que não nos pertence. Bem, noves fora zero, há um momento em que todos nós podemos ver com clareza de que material é feito o nosso caráter e qual é a têmpera de nossa alma: é quando estamos diante da morte; da nossa morte. É quando estamos frente à possibilidade de ficarmos cara a cara com ela que realmente iremos descobrir qual é a envergadura do noss...