Pular para o conteúdo principal

UMA BÚSSOLA, UM MAPA E UM RUMO

Existem inúmeros livros que merecem ser revisitados de tempos em tempos. Um deles, sem dúvida alguma, é O homem medíocre, do filósofo argentino José Ingenieros — tendo em vista o estado em que se encontra o mundo contemporâneo e a forma como este afeta a nossa alma. Afinal, como o próprio autor nos lembra, muitos nascem neste mundão de meu Deus, mas poucos são os que realmente vivem. Para viver, é imprescindível dispor de uma personalidade bem formada, constituída de forma sólida; e, infelizmente, hoje em dia isso é coisa rara, mui rara. Resumindo o entrevero: os indivíduos desprovidos de personalidade apenas vegetam, feito samambaias que balançam suas folhas acompanhando a brisa — ou o vendaval — do momento, e nada mais.


Dito de outra forma, o homem medíocre apenas consegue existir imerso na agitação, no alarido do mundo, chegando a ter um piripaque se for entregue a um momento de solitude e silêncio. Afinal, nesses momentos, ninguém consegue esquivar-se do sussurrar dos conselhos e admoestações da própria consciência. Não tem lesco-lesco.


Naquele instante em que estamos sozinhos, em silêncio, prestes a nos recolher, é que ficamos diante do olhar atento de nossa consciência. Na verdade, estamos o tempo todo desnudos diante dela, mas mantemo-nos bem distraídos com toda sorte de ruídos que nos são apresentados pela enervante sociedade midiatizada em que vivemos.


Nesse sentido, cada um de nós tem ao menos uma palhinha desse tipo humano despersonalizado apresentado pelo filósofo argentino, tendo em vista que somos todos filhos desta época. Por isso mesmo, penso que a leitura da obra A força do silêncio: contra a ditadura do ruído, do Cardeal Robert Sarah, é de fundamental importância.


Ela é importante não porque sua leitura irá "blindar" a nossa alma contra todas as incursões perpetradas por essa sociedade espetacularizada — nada disso. Sua leitura é salutar porque nos ajuda a compreender melhor o tamanho do estrago que o excesso de informação, de distrações e de barulho causa em nós, promovendo em nosso coração um estado tal de alienação que pode nos levar a uma profunda dissociação do que há de mais elevado em nossa capenga humanidade.


Robert Sarah nos lembra inúmeras obviedades ululantes que, frequentemente, varremos para debaixo do tapete da vida. Por exemplo, lembra-nos de que a profundidade da alma é a casa de Deus e que, para não nos perdermos em uma vida superficial, o silêncio faz-se imprescindível.


Ora, como podemos estudar algo no meio da algazarra? É possível solver em profundidade uma leitura estando imerso num alvoroço? É possível estruturar os nossos pensamentos, juntamente com os contornos do nosso mundo interior, estando entregues a um escarcéu perene? Aliás, como poderemos nos abrir para esse mistério inefável que é Deus, para os valores espirituais, para tudo aquilo que é mais elevado, se preferimos ficar agrilhoados a uma contínua e incessante zoada? Esse é o ponto que, muitas e muitas vezes, preferimos ignorar das mais variadas formas possíveis.


Não é à toa, nem por acaso, que o silêncio assusta as figuras, figurinhas e figurões do mundo moderno porque, entre outras coisas, esfrega, de uma forma nem um pouco sutil, a inenarrável mediocridade que impera entre nós — e, é claro, em nós, que tanto valorizamos a excitação ininterrupta oferecida pelas redes sociais, pela vida massificada, pelas ideologias que elevam nossas veleidades e caprichos à categoria de traços distintivos de "um suposto modo de ser". Enfim, é apenas nele e com ele que poderemos voltar, de fato, a nos reencontrar com a nossa humildade perdida.


*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO LEVIATÔ, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela 





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PULANDO SEM PARAQUEDAS - Notas e reflexões heterodoxas

1. O nosso sentimentalismo não é — e nunca será — causa suficiente para gerar um ato de bondade. Na verdade, na grande maioria das vezes, ele é um grande obstáculo. # 2. Há uma diferença abissal entre parecer bom e ser bom; e, para uma pessoa de olhar e discernimento dispersos, distinguir uma coisa da outra é, praticamente, uma impossibilidade. # 3. Como reconhecer um tirano? Eis aí uma pergunta que vale ouro. Na real, há muitos sinais que podem denunciar um figurão desse naipe, mas de todos eles há um que é a sua marca distintiva: querer obstruir a livre circulação de informações sob a justificativa de que está fazendo isso em nome de um "bem maior". Meu amigo, qualquer um que venha insinuar algo assim, pode ter certeza, bom sujeito não é. # 4. Urge ter paciência quando tudo à nossa volta nos convida a mergulhar num oceano de histeria. Urge, mas é um trem danado de difícil manter a cabeça no lugar num quadro assim. E como é! # 5. Ler um e-book é uma maravilha pela comodidade...

XUCRISMO DECANTADO - Notas e reflexões heterodoxas

1. Uma coisa é planejar aquilo que iremos fazer; outra coisa é ficar ciscando em círculo feito galizé ao redor das miudezas de meia dúzia de papéis ornados com gráficos, tópicos e tabelas, achando que, fazendo isso, estamos resolvendo algum problema. # 2. Quando um gestor, chefe ou líder não quer resolver um problema, ele convoca uma reunião. E se as reuniões tornam-se uma fáustica rotina, é sinal de que, além de não quererem resolver os problemas existentes, esses burocratas querem inventar novos problemas para continuarem na mesma — porém, agora com um volume bem maior de pepinos sem solução alguma, só para dar stress e azia. # 3. Não se permita desanimar. Se há uma coisa que o mundo à nossa volta mais deseja é nos ver cabisbaixos, com os faróis da alma à meia-luz, arrastando os para-choques do caráter na poeira da vã-glória. Não se permita. Permita-se chorar, gritar bem alto — a ponto de fazer zunir os ouvidos das estrelas —, mas não se permita desanimar e desistir de seja lá o que ...

NÃO É ASSIM QUE A BANDA DEVERIA TOCAR

Estou lendo, entre outras coisas, o livro “Os Tempos Ásperos” de Jorge Amado. Um baita livro, para o meu gosto. Mas não é a respeito desta sua obra que pretendo parlar, mas sim sobre uma declaração proferida pelo autor em uma entrevista onde disse, de forma lacônica, feito pino de patrola, que ideologias, sem exceção, são todas um monte de fezes. Umas fedem mais, outras mais ainda, mas todas elas, juntas ou separadas, são o que são, e ponto final. Ainda na mesma entrevista, Amado, de uma forma não tão amável, disse com todas as letras que é importante lembrarmos e, se possível for, jamais esquecermos que existem filhos de uma boa mãe de direita, da mesma forma que existem filhos do mesmo naipe de esquerda — e de centro também —, porque, se há uma coisa que é muito bem distribuída neste país, é a canalhice; e se não somos capazes de perceber isso, imagino que está mais do que na hora de revermos alguns conceitos — e preconceitos — que carregamos em nossa algibeira mental. Sobre esse p...