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NÃO TINHA COMO TER UM RESULTADO DIFERENTE

Esta semana me sobrou um tempinho e, por isso, dei um pulo no sebo de que sou freguês de longa data para dar uma olhadela nas velhas novidades que lá havia. Para minha felicidade, encontrei o livro Meretrizes e Doutores: saber médico e prostituição no Rio de Janeiro (1840–1890), de Magali Engel. Ao folheá-lo, tenho uma grata surpresa: o referido livro tinha pertencido à minha ex-professora Terezinha Saldanha — que Deus a tenha. Sempre que podia, levava meus filhos comigo a sebos, livrarias e bibliotecas. Hoje raramente faço isso, pois atualmente eles vão por conta própria e, às vezes, para minha alegria, são eles que me convidam para fazer um tour entre estantes de livros novos e usados. Amo livros. Não vivo sem eles. E o gozado nessa paixão é que ela surgiu em mim antes mesmo do gosto pela leitura germinar. Quando criança, passava muitas e muitas vezes a tarde toda na biblioteca do colégio. Lendo livros? Não. Admirando-os nas estantes, pegando um e outro para folheá-los e, é claro, para contemplar as ilustrações. Bah! Não foram poucos os mundos que criei em minha imaginação a partir das imagens em que fixava os meus traquinos olhos de menino. Quando adolescente, fui para um colégio agrícola e lá, de forma similar, vez por outra fazia o mesmo. Não tanto na biblioteca do colégio, que dispunha de um acervo mirrado, mas sim na biblioteca municipal, que era anexa à prefeitura. O ambiente possuía belas estantes de madeira, mesas sólidas para estudo e era muito bem organizada. Batia altos papos com a bibliotecária e até pegava alguns livros emprestados, mas não os lia. A mosca azul da leitura não havia me mordido ainda, pois até aquela idade escolar eu não havia conhecido uma viva alma devotada à leitura para me inspirar na direção desta devoção. Isso mesmo! Ler, de certa forma, é um ato devocional que, para ser assimilado e cultivado — além da instrução e de uma e outra admoestação —, precisa do exemplo vivo de um leitor; de uma pessoa que lê um livro não porque o professor mandou, ou porque sua leitura é necessária para passar em uma prova, vestibular ou algo que o valha, mas porque a leitura é uma atividade integrada em sua personalidade da mesma forma que o é jogar bola ou ir para a balada na de outras. Graças a Deus, conheci muitas pessoas em minha mocidade que me inspiraram e, com seu exemplo, me arrastaram para o multiverso de Gutenberg, onde seguimos em nossa jornada sem fim entre páginas e letras. E em se falando de letras, livros e litros, saiu o resultado do PISA e todos, em alguma medida, ficaram estarrecidos com os números apresentados, tanto no Brasil quanto no mundo de um modo geral. Motivo: houve um retrocesso danado, e não foi apenas por aqui que se constatou que a capacidade leitora ficou esmilinguida. Diante desse resultado, pergunto: era preciso aguardar a divulgação do PISA para constatar o óbvio ululante de que estamos caminhando a passos largos para a beira do abismo? Não, não carecemos disso para saber que, se continuarmos nesta toada, iremos, muitíssimo em breve, parar muito mais longe nesta longa marcha da vaca para o brejo. Dito de outro modo, como nossos estudantes poderão obter um melhor desempenho nos estudos se, de um modo geral, nós temos um refinado desprezo pelo amor ao conhecimento? Sem dúvida alguma, temos um afeto danado pelos títulos, pelo status, pelos rendimentos que estes nos podem regalar; mas quantos de nós, realmente, amam o conhecimento não apenas por seu valor instrumental, mas pelo seu valor em si? Tempo! Tic-tac! Tic-tac! E a resposta é essa mesma. Se nossos jovens estudantes estão entre os piores do mundo, talvez seja porque nós, adultos de um modo geral, estamos bem longe de ser bons exemplos em que as tenras gerações possam se espelhar. Ora, se nós, adultos, não somos capazes de demonstrar um amor sincero pelo conhecimento, é mais do que certo que as crianças irão desprezá-lo com o mesmo despudor e intensidade com que o desprezamos em nosso dia a dia — tendo em vista que os infantes são excelentes imitadores nossos, logo, não adianta nada resmungar.



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Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO LEVIATÔ, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela 




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