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MATUTANDO A PARTIR DO LIVRO DOS PROVÉRBIOS (parte II) - Notas e reflexões heterodoxas semanais

Não repute ser sábio (Provérbios III, 7). Dito de outro modo: não se ache; não fique pensando que você é a última bolacha do pacote. Todos nós, lá no nosso íntimo, temos uma centelha de soberba — centelha essa que, às vezes, incendeia a nossa alma inteira. Sim, sei que muitas e muitas vezes afirmamos que não somos assim nem assado; porém, basta que alguém nos aponte um erro em nosso modo de ser ou em algo que realizamos para que, mais do que depressa, a centelha de soberba que habita em nós ateie fogo em tudo. Afinal, "sacumé", a gente é "humilde" — desde que não apontem as nossas falhas, não é mesmo?


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O primeiro grande sinal de que uma pessoa é tremendamente estúpida é a aversão à correção (Provérbios III, 11-14). Ora, meu caro Watson, quem imagina que sempre está certo, coberto de razão da cabeça aos pés, com o perdão da palavra, pediu para ser tonto e deu eco. Sim, eu sei, todo mundo sabe que ser corrigido não é algo agradável, da mesma forma que os remédios, de um modo geral, são amargos; por isso, minimizar a importância da correção é uma forma nada sutil de matar o nosso caráter e, junto com ele, a nossa inteligência.


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A maior força que existe é a disciplina (Provérbios IV, 13-15). Através dela, gradativamente, nós conquistamos um poder descomunal: o autocontrole. Não apenas isso: com ela, vamos também desenvolvendo o zelo pelas pequenas obrigações, o senso de responsabilidade, a atenção e, principalmente, a perseverança. Menosprezar a importância dela em nossa porca vida é declarar, a plenos pulmões, que preferimos enterrar e esquecer os talentos que nos foram confiados por Deus, ao invés de cultivá-los.


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Ser preguiçoso é uma lástima (Provérbios VI, 6-8), não precisa nem dizer. Mas cabe uma observação: preguiçoso, vadio de doer as vistas, não é o caboclo que simplesmente não faz nada. Se fosse assim, bebês, crianças e enfermos estariam incluídos nesta vil categoria. Preguiçosos, na real, são as pessoas que simplesmente se recusam a fazer aquilo que lhes cabe. Quando agimos assim, procrastinando — como dizem as pessoas finas e elegantes —, não estamos apenas deixando de cumprir uma obrigação, mas também, e principalmente, mutilando uma parte da nossa humanidade, da nossa dignidade.


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Todos nós, infelizmente, temos algumas sementes perversas em nosso coração e, por isso mesmo, temos que nos manter vigilantes frente a essa nossa mania terrível de abrir a boca apenas para semear a discórdia que, sem nos darmos conta, maquinamos em nosso íntimo (Provérbios VI, 14). Não estamos afirmando que não devemos ser críticos, nada disso. Estamos, sim, dizendo que é necessário sermos críticos frente à nossa petulância de criticar tudo e todos pelo simples ato de criticar. Se pararmos para refletir um pouco, iremos notar que, muitas e muitas vezes, nós apenas criticamos algo para, intimamente, nos sentirmos “superiores” e, noutros casos, somente para destilar a nossa bile e, tal atitude, não preciso nem dizer, é perversa do princípio ao fim.


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Durante muito tempo, mantive afixada na parede da minha biblioteca uma sentença de Johann Goethe que diz: quando você não sabe o que fazer, cumpra com o seu dever. Passou-se o tempo, as estantes foram tomando o lugar dos poucos espaços que ainda havia, o que me levou a retirar o papel com a frase da parede — o que não significa que a excluí do meu coração. Por isso, toda vez que os quatis da preguiça têm a petulância de sondar minha vil carcaça, mais do que depressa lembro-me do conselho do poeta e coloco-me a fazer algo que devo fazer, que apenas eu posso realizar.


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Se você não sabe o que fazer com suas horas vadias, ao invés de se perder nas redes sociais, pegue um livro e leia. Ao invés de deixar o ícone das suas redes sociais no centro da primeira tela do seu celular, procure colocá-las na última e, na primeira, no centro, deixe o ícone de um leitor de e-books ou um atalho para o livro em PDF que você está lendo. Não marque bobeira, não dê sorte para o azar. Tenha disciplina para não ter a sua atenção e sua mente sequestradas por uma timeline aleatória sem fim.


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Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela 




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