O finado Papa Bento XVI, em uma de suas preleções, nos chamava a atenção para a importância de procurarmos cultivar uma admiração particular por um santo, de sermos devotos de uma pessoa que procurou, com todas as forças de sua alma, amar a Deus e tomar o Evangelho como farol de sua vida.
E, ao recomendar isso, ele não estava nos dizendo para termos pôsteres de um santo no quarto e andarmos com camisetas e broches dele como se fôssemos um adolescente fã de uma banda, nada disso. Se somos devotos de um santo, deveríamos, em suas palavras, procurar nos tornar familiares a ele, buscando conhecer a sua vida, as suas obras e o seu pensamento para, desse modo, aprendermos a crescer em espírito e verdade com ele.
Bento XVI, por sua deixa, era devotíssimo de São José e de Santo Agostinho, o rochedo de Hipona. Não apenas isso: deste segundo, além de devoto, era um grande estudioso de sua obra; talvez um dos maiores do século XX.
Quando li isso, há mais ou menos umas duas décadas, meu coração encheu-se de júbilo — hum, que chique —, ao saber que Joseph Ratzinger tinha uma longa história de devoção com o referido Santo Doutor da Igreja, tendo em vista que esse intrépido esculhambador da língua portuguesa também tem uma história com o autor das Confissões. Uma história muitississíssimo mais modesta, diga-se de passagem, mas, ainda assim, uma história.
Nos meus tempos de juventude, como boa parte dos jovens que viveram seus verdes anos entre as décadas de 80 e 90 do século passado, eu era cheio de marra. E, depois que comecei a estudar umas coisinhas com um tantinho mais de profundidade, já comecei a me achar o bichão e, como tal, virei minhas costas para Deus e para a Igreja.
Bah! É incrível como somos capazes de ser presunçosos em nossa juventude. Basta que o nosso ego seja massageado só um tiquinho para que, do nada, a gente se ache "o protagonista". Na verdade, nem precisa massagear muito.
Em tenra idade, somos campeões em nos perder de nós mesmos só para discordar daqueles que são mais velhos do que nós porque — cê sabe — os adultos sempre ousam nos tratar como jovens e, como tal, sempre querem nos advertir, corrigir e ensinar algumas coisas que, sim, é necessário que sejam aprendidas.
Certíssimo estava Oscar Wilde quando dizia, com o seu jeitão, que não era tão jovem para ter, assim, tanta certeza a respeito de tudo; como também está certo por demais Ortega y Gasset que, de forma cirúrgica, analisou os conflitos que sempre se orquestram entre a nova geração e a geração adulta — e destas duas com os idosos —, porque, como ele mesmo nos lembra, essas três gerações têm perspectivas distintas que convivem, juntas e misturadas, na mesma época e no mesmo lugar.
Nesta fase da vida, perdido como estava, muitas foram as pessoas que me ajudaram em meu, como direi, caminho para Damasco; e uma delas foi, sem dúvida alguma, Santo Agostinho. Primeiramente, não pela sua obra, mas por sua vida pregressa; depois, principalmente pela sua obra, que corrigia a vida precedente sem negá-la.
Ora, era natural que um sujeito de vida torta como eu, ao conhecer a vida dele, simpatizasse com sua pessoa e se identificasse com seus dramas; e era inevitável que um rapaz curioso e vaidoso se encantasse com sua obra volumosa [lá ele de novo]. Através da sua vida, eu pude, como o filho pródigo que sou, reencontrar o caminho para a casa do Pai.
E, por isso mesmo, quando vejo adultos adulando jovens, chamando-os de "protagonistas" e trelelé, fico pra lá de cabreiro, pois lembro de mim mesmo quando estava nessa idade, e vejo o quão perverso isso pode ser. Afinal, ao invés de apontar o caminho para a morada da verdade, esse tipo de lisonja apenas envenena os corações juvenis — e como envenena.
*
Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO LEVIATÔ, entre outros livros.
Comentários
Postar um comentário