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A ARMADURA QUE NOS FALTA

Quando alguém, numa roda de conversa, resolve falar da importância da leitura, todos os presentes — e, talvez, até mesmo os ausentes — concordam que ela é realmente um trem indispensável para o bom desenvolvimento de uma pessoa. Até mesmo aqueles que têm alergia à leitura fazem pose, cara de gente séria, e concordam com o babado, porque é muito chique dizer que com livros e bons leitores se constrói uma grande nação.


Sim, isso é chique e é a mais pura verdade, porque a leitura nos faz parar e nos convida a seguir num passo mais lento e, por isso, mais atento. E essa é a chave para a boa formação de um indivíduo, principalmente no mundo em que vivemos, onde somos praticamente o tempo todo instados a seguir o fluxo acelerado e sem fim de uma sociedade que tem o seu ritmo maquinal regido pelo pulso contínuo de vídeos desconexos e imagens fragmentadas.


A leitura de uma obra literária exige a nossa entrega; ela não abre mão da nossa atenção para nos guiar pelas páginas codificadas de um livro. Lendo, somos obrigados a nos concentrar para não perder o fio da meada, conectando o que está sendo lido na página atual com o que já havia sido lido nas páginas anteriores e, de forma imaginativa, desenhando possíveis cenários que possam se descortinar nas páginas que estão por vir. E isso, meu amigo, é muito phoda.


Mas não somos uma sociedade de leitores e, por isso, é salutar lembrarmos que podemos avaliar o estado em que se encontra a consciência de uma sociedade pelo estado em que se encontra a linguagem utilizada pelos indivíduos, porque o estado da consciência humana reflete-se diretamente na linguagem por eles utilizada.


Ora, se voltarmos nossos olhos para o emaranhado de palavras que são utilizadas por nós em nosso dia a dia, constataremos que grande parte delas não passa de cacoetes mentais, jargões publicitários, trocadilhos oriundos de memes, termos vagos disseminados pela grande mídia, pelas redes sociais e demais traquitanas similares.


De mais a mais, uma sociedade que toma como referência apenas aquilo que as mídias apresentam é um mundo onde as pessoas se encontram presas em um círculo vicioso que, de tempos em tempos, se renova artificialmente, ao mesmo tempo que vai erodindo a nossa capacidade de discernir.


Um bom exemplo dessa erosão são as pessoas que, de um modo geral, dizem acreditar apenas na “ciência” e ponto final. Na real, essa gente acredita em qualquer bobagem que for apresentada pela televisão e confirmada pelo algoritmo de suas redes sociais — e nada mais.


Parece grosseria, mas não é. De um modo geral, todo aquele que diz que acredita apenas na “ciência” não tem uma ideia clara do que seja essa tal de ciência, do que é um objeto de estudo e do que são conceitos, definições, fenômenos e teorias; nunca teve contato com um estudo científico e, provavelmente, não tem o menor interesse em saber o que são procedimentos de pesquisa. Mesmo assim, afirma que crê nela, na ciência, porque essa palavra, em seu uso midiático — esvaziada do seu sentido original e convertida em um “lugar-comum” —, traz para ela uma ilusória e aconchegante sensação de segurança.


E o mesmo pode ser dito a respeito de inúmeros outros termos, como fascismo, comunismo, justiça social, iluminismo, libertário, liberdade, educação, família, amor, democracia — enfim, a lista é longa.


Todos esses termos — e muitos outros — encontram-se, no cenário atual, mutilados dos pés à cabeça. Por isso, te digo uma coisa: se não restaurarmos em nós a gravidade e o peso da linguagem, continuaremos presos neste “samsárico” círculo vicioso. E o caminho para isso — para defendermos a nossa alma do lixo midiático — é a grande literatura universal, pois, como bem nos lembra Saul Bellow, apenas ela pode nos libertar e nos proteger dos estereótipos. Ela não fala a linguagem de uma época ou de um grupo em particular; a grande literatura fala a linguagem da humanidade de todos os tempos para a humanidade de todas as épocas.


*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO LEVIATÔ, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela





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