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COM QUANTAS GRACINHAS SE FAZ UMA DEMOCRACIA

Uma frase que é repetida por inúmeras pessoas após um pleito eleitoral é aquela que, com todas as letras, afirma que o povo não sabe votar, e que esse seria o grande problema da nossa sociedade. Aliás, sempre achei muito gozada essa mania pequeno-burguesa da esquerda engajada, da direita militante e dos isentões petulantes de fazer cara de desdém e dizer, com empáfia e nojinho, que o povo não sabe isso e não sabe aquilo. Pois é, mas seria apenas o tal do povo — sempre ele — que não sabe votar? Para ser bem franco, eu mesmo não sei votar. Sim, sei muito bem apertar os botões das maquininhas de pililim que animam a festa da democracia brazuca, mas confesso que não sei escolher muito bem os nossos representantes. Isso mesmo que você acabou de ler, cara-pálida. Desde que me conheço por gente, venho votando errado pelas razões certas e, de vez em quando, votando certo pelas razões erradas. E tem outra! Não tenho a menor dúvida de que, provavelmente, irei votar errado novamente; mas tentarei, com sinceridade, não cometer os mesmos erros que já cometi nos pleitos anteriores — tentarei, mas, "sacumé", a carne é fraca. Dito isso, voltemos ao ponto do conto. Todo pleito eleitoral é um trem encenado às pressas para chamar a atenção dos cidadãos; e essa encenação é, em grande medida, acertada e orquestrada em acordos firmados bem longe da vista de todos. Acordos esses que irão determinar os rumos da nossa nação. E aí, eis que vem a questão que não quer calar: quem de nós sabe o que foi acertado nestes acordos velados? Pois é. Uns dizem que sabem muito bem o que foi acordado, mas, na real, estão apenas repetindo um monte de frases feitas e um punhado de bordões. Outros afirmam não apenas que sabem o que Cicrano fará se ganhar, mas também o que Beltrano fará se sair vitorioso; mas, na verdade, são apenas indivíduos que alegremente servem de câmara de eco para as opiniões prontas que são apresentadas pelos grupos interessados como contrainformação para animar esse picadeiro [nada]republicano. Ah! E existem aqueles que sempre votam na mesma legenda, sem pestanejar, sem questionar, sem avaliar, porque, é claro, se consideram críticos — críticos demais para ponderar sobre a possibilidade de estarem redondamente errados. Tendo isso em vista, penso que todos nós, pouco importa qual seja a nossa inclinação ideológica, deveríamos bater no peito e, com sinceridade e humildade, reconhecer que erramos muitas e muitas vezes nos pleitos eleitorais porque, como bem nos lembra Vilfredo Pareto, o universo político, por sua própria natureza, em muitas de suas facetas, é regido pelas inclinações irracionais que se agitam na alma humana. Aliás, lembremo-nos de que Platão, com toda a sua sabedoria, apoiou duas aventuras políticas e, nas duas ocasiões, se ferrou de verde e amarelo; logo, se ele, com toda a sua fodereza platônica, errou, quem somos nós na fila do pão nosso de cada dia para jamais termos errado? Sei. Estou sabendo. Por isso, digo e repito: que atire a primeira cédula quem nunca votou errado em sua vida; caso contrário, guardemos silêncio e reflitamos sobre a nossa abjeta covardia [depre]cívica de cada dia.


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Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO LEVIATÔ, entre outros livros.

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