Pular para o conteúdo principal

GRANDEZAS DESDENHADAS

Há algumas questões que deveriam ser consideradas centrais quando o assunto é a educação, mas que, na época em que vivemos, acabam sendo varridas para debaixo do tapete da vida. A primeira delas é, conforme nos ensina a professora Inger Enkvist, que o aprendizado — pouco importa do que seja — exige o esforço de quem pretende aprender, o qual deve comprometer-se por inteiro naquilo que está executando para realmente fazer-se presente; e esse esforço pressupõe uma consequente mudança na personalidade do sujeito como nos ensina Hugo de São Vitor. Sua atitude diante da vida, frente a si mesmo e perante os estudos deve, gradativamente, levá-lo a transubstanciar-se da água para o vinho, deixando as atitudes dispersivas para trás e centrando-se em novas ações de forma responsável. Um detalhe que muitíssimas vezes é desdenhado é o fato de que o aprendizado — repito, de qualquer coisa — não existirá se este não levar o aluno a sofrer uma transformação tangível porque o aprendizado, seja do que for, presume a conquista, a realização de metas de curto, médio e longo prazo. Tomemos como exemplo as artes marciais, a música e o aprendizado de uma língua estrangeira. Me digam uma coisa: um karateca pode tornar-se um faixa preta (primeiro dan) sem dominar com o mínimo de maestria as técnicas exigidas? Não. Ele pode passar de uma faixa para outra se não atingir o desempenho que é exigido para alcançar a nova graduação? Novamente, não. Um guitarrista pode ser considerado um músico se não tiver as habilidades mínimas indispensáveis para executar algumas músicas? Outra vez, não. Por fim, uma pessoa que não é capaz de ler uma obra em uma língua estrangeira e manter uma conversação com um nativo desta pode ser considerada um indivíduo fluente? Mais uma vez, não. Porém, todavia e entretanto, toneladas e mais toneladas de estudantes, todos os anos, obtêm a devida certificação de conclusão do Ensino Médio e do Fundamental detendo apenas algumas noções rudimentares daquilo que deveriam saber com um mínimo de razoabilidade; e a isso, em nosso triste país, dá-se o nome de educação. Os apressadinhos, de forma assanhada, rapidamente preparam as suas pedras gastas para atirar e responsabilizar os professores — e sim, estes, como todos, têm a sua cota de responsabilidade —; entretanto, é importante lembrar que essa farra de aprovação a torto e a direito não é algo realizado porque os docentes assim desejam, mas sim porque autoridades, preocupadas fundamentalmente com números vistosos, que tenham um apelo publicitário garboso, o exigem. E como a transformação do aluno, que é o cerne da educação, não é algo que possa ser reduzido a numerozinhos pomposos, ela acaba sendo desdenhada e, em seu lugar, termina sendo colocado algum slogan pomposo, como “protagonismo juvenil”, que soa bonito, mas não quer dizer muita coisa. Ora, por mil raios e trovões, como é possível falar em protagonismo quando todo o sistema educacional induz os alunos a agirem de modo inconsequente? Isso mesmo. Um sistema que permite a qualquer um avançar de uma etapa para outra no jogo escolar está, de forma sutil, ensinando o quê para as tenras gerações? Que nada tem consequência, que eles podem fazer o que quiserem e que "essa é toda a lei" — apesar da quantidade mastodôntica de leis de que dispomos em nosso triste país.


*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O SENHOR DAS MOSCAS SOB NOVA DIREÇÃO

Dias atrás, todos devem ter tomado conhecimento do acontecido em uma escola de ensino fundamental, onde os alunos de uma turma colocaram cacos de vidro na água da professora. Diante do ocorrido, penso que há dois pontos que devem ser levados em conta. Primeiramente, não há o que discutir: isso foi uma monstruosidade. Em segundo lugar, temos muito que discutir, porque isso é uma monstruosidade. E a primeira pergunta que todos nós deveríamos fazer é como permitimos que algo assim acontecesse. E não me refiro apenas às autoridades constituídas, às famílias, aos professores e tutti quanti. Refiro-me, sim, à sociedade — toda ela —, porque o tempo todo as crianças estão aprendendo, e estão aprendendo conosco através de nossas palavras, atos e omissões. De todas as nossas falhas, há uma que está no cerne desta trágica questão: a nossa recusa, o nosso medo de agir como adultos diante dos infantes. Isso mesmo! A nossa recusa em educá-los. A sociedade se nega a esse papel porque exercê-lo é desc...

A JOIA QUE FOI MALANDRAMENTE PERDIDA

No livro “A bacia de Pilatos”, de Humberto de Campos, há um conto que nos apresenta a história de um padre italiano que estava vindo para o Brasil. Quando o navio estava se aproximando da baía de Guanabara, ele se dirigiu ao convés para contemplar a paisagem. E eis que, do nada, apareceram duas portuguesas. Pediram a bênção e perguntaram se o vigário conhecia o Brasil. Ele disse que sim e que, na sua humilde opinião, não existia lugar mais belo na face da Terra. Impressionadas com o entusiasmo do homem de Deus, perguntaram-lhe como era a fiscalização e, de pronto, ele disse: “Rígida, minhas filhas. Não passa nada.” Então, as duas abriram o jogo. Disseram que estavam vindo para assumir a herança de um tio, uma propriedade em Barbacena (sempre em Barbacena), e que, por isso, estavam trazendo consigo as joias da família; joias essas que estavam há gerações na família e que, por essa razão, não dispunham de nota fiscal. Diante disso, elas temiam perdê-las na aduana. E o que é que o padre t...

NÃO É ASSIM QUE A BANDA DEVERIA TOCAR

Estou lendo, entre outras coisas, o livro “Os Tempos Ásperos” de Jorge Amado. Um baita livro, para o meu gosto. Mas não é a respeito desta sua obra que pretendo parlar, mas sim sobre uma declaração proferida pelo autor em uma entrevista onde disse, de forma lacônica, feito pino de patrola, que ideologias, sem exceção, são todas um monte de fezes. Umas fedem mais, outras mais ainda, mas todas elas, juntas ou separadas, são o que são, e ponto final. Ainda na mesma entrevista, Amado, de uma forma não tão amável, disse com todas as letras que é importante lembrarmos e, se possível for, jamais esquecermos que existem filhos de uma boa mãe de direita, da mesma forma que existem filhos do mesmo naipe de esquerda — e de centro também —, porque, se há uma coisa que é muito bem distribuída neste país, é a canalhice; e se não somos capazes de perceber isso, imagino que está mais do que na hora de revermos alguns conceitos — e preconceitos — que carregamos em nossa algibeira mental. Sobre esse p...