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A EDUCAÇÃO QUE NÃO TEMOS

Uma vez um sacerdote, ao final de uma Missa, disse laconicamente — de forma curta e grossa, feito um pino de patrola — que Deus não resiste a um homem de joelhos e com seu coração na mão, porque não há nada mais encantador neste mundo do que um coração humilde voltando as batidas dos seus átrios e ventrículos para o Alto. E, sejamos francos: estes dois pontos foram excluídos do horizonte da vida moderna. E não estou falando de senso religioso, não. Refiro-me à virtude da humildade como alicerce do ato de aprender, como bem nos ensina Hugo de São Vítor em seus “Opúsculos sobre o modo de aprender”, e ao senso de hierarquia, que é um instrumento imprescindível para ordenar os nossos apetites, inclinações, aptidões e habilidades para que possamos nos aprimorar como pessoa e, consequentemente, nos elevar em dignidade e verdade, como bem nos lembram tanto Gustavo Corção quanto José Ortega y Gasset. De mais a mais, é importante lembrar que a virtude da humildade não pode, de jeito-maneira, ser confundida com o “fazer-se de coitadinho”. Isso nada tem que ver com a referida virtude porque ser humilde significa reconhecer com sinceridade quem de fato nós somos para que, a partir do húmus do solo fértil de uma alma lavrada pelo arado da sinceridade, possamos plantar as sementes daquilo que queremos realizar e, principalmente, da pessoa que almejamos nos tornar. E é muito fácil — fácil demais — falsear a consciência frente a quem nós de fato somos. Com muita facilidade, imaginamos ser detentores de qualidades que não possuímos e possuidores de defeitos que nunca deitaram suas raízes em nosso peito. É facílimo não darmos a devida atenção às falhas que realmente se fazem presentes em nós e desprezarmos as habilidades de que, realmente, dispomos e para as quais não damos a menor pelota. Aí, diante deste quadro, o que sobra para o “Betinha”? Somente arrogância e algumas pitadas de petulância. E a educação é importante por isso. Porém, vale lembrar, há uma distância abissal entre educar e mimar; há uma diferença mastodôntica entre formar e superproteger; existe uma fronteira nada tênue entre querer o bem de alguém e desejar parecer bem diante de alguém. Ora, se ignoramos a importância da humildade no processo de aprendizagem em favor da supervalorização de um protagonismo postiço, acaba sendo inevitável que o senso de hierarquia vá para as cucuias e, sem essa ferramenta, ficamos perdidos tal qual um cachorro que caiu da mudança. Porque, sem critérios sólidos, pouca valia tem o acesso a toneladas de informação; sem critérios, nos perdemos. E perdemo-nos não apenas no mar sem fim da “Era da Comunicação”, mas também, e principalmente, de nós mesmos.


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Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela




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