Pular para o conteúdo principal

NA CAPELINHA DO BUTANTÃ

Uma pessoa, que não está com o senso das proporções avacalhado, se impressiona com a realidade dos fatos; agora, o sujeito que não está com seu juízo subvertido, se impressiona com grande facilidade com qualquer punhado de palavras que sejam repetidas de maneira histriônica pela grande mídia.

 

#   #   #

 

O escritor francês Romain Rolland nos lembra, de forma lacônica, feito pino de patrola, que todo o homem, que é um homem a sério, tem de aprender a ficar sozinho no meio de todos e, muitas vezes, a pensar sozinho por todos e, se for necessário, pensar e agir contra todos.

 

#   #   #

 

Todo caboclo que assiste religiosamente telejornais, similares ao Jornal Nacional, e acompanha fielmente programas de variedades como o famigerado Fantástico e, por fazer isso, credulamente acredita estar bem informado, com o perdão da palavra, um sujeito desse merece um atestado de perfeito abestado.

 

#   #   #

 

Se o caipora, pra puxar conversa, pergunta: “você viu o Jornal Nacional ontem”?  Não diga nada, nadica de nada, porque o pobre coitado acredita que já sabe tudo, porque viu alguma coisa que saiu na TV.

 

#   #   #

 

Vou lhes dizer uma coisa: já fui chamado de desinformado, já fui rotulado de alienado, porque tento entender os problemas da sociedade à luz dos livros que leio, ao invés de procurar compreender tudo à sombra dos telejornais que não assisto.

 

#   #   #

 

O Brasil está cheio de caboclos que enchem a boca pra chamar Deus e todo mundo de “negacionista” e, por se prestarem a esse tipo de papelão infantil, acreditam, piamente, que são figuras pra lá de científicas.

 

#    #    #

 

Onde perguntas inconvenientes e dúvidas desconcertantes são sumariamente caladas e tratadas como se fossem heresias, o que se tem não é, de jeito-maneira, um ambiente propício para a investigação científica, mas sim, uma capelinha de fanáticos tremendamente atordoados pela própria ignorância.

 

*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “REFAZENDO AS ASAS DE ÍCARO”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A EDUCAÇÃO QUE NÃO TEMOS

Uma vez um sacerdote, ao final de uma Missa, disse laconicamente — de forma curta e grossa, feito um pino de patrola — que Deus não resiste a um homem de joelhos e com seu coração na mão, porque não há nada mais encantador neste mundo do que um coração humilde voltando as batidas dos seus átrios e ventrículos para o Alto. E, sejamos francos: estes dois pontos foram excluídos do horizonte da vida moderna. E não estou falando de senso religioso, não. Refiro-me à virtude da humildade como alicerce do ato de aprender, como bem nos ensina Hugo de São Vítor em seus “Opúsculos sobre o modo de aprender”, e ao senso de hierarquia, que é um instrumento imprescindível para ordenar os nossos apetites, inclinações, aptidões e habilidades para que possamos nos aprimorar como pessoa e, consequentemente, nos elevar em dignidade e verdade, como bem nos lembram tanto Gustavo Corção quanto José Ortega y Gasset. De mais a mais, é importante lembrar que a virtude da humildade não pode, de jeito-maneira, ...

A DESTRUIÇÃO SILENCIOSA DAS BIBLIOTECAS

Todos, ao menos da boca para fora, afirmam que a prática da leitura é de fundamental importância para o desenvolvimento cognitivo de uma pessoa; porém, a maneira como o ato de ler é apresentado soa, no mínimo, engraçada porque, na grande maioria dos casos, ele é tratado como se fosse algo natural e simples que, uma vez aprendido, estaria sacramentado, pronto e acabado. Pois é. Mas não é bem assim que a banda toca. Como nos lembra Gregorio Luri, ler não é algo natural — nada disso. Seu aprendizado exige esforço e deve ser consistente porque, antes de qualquer coisa, ler é colocar um texto dentro de um contexto; do seu devido contexto. Isso exige um grande empenho de nossa parte, e é justamente aí que a porca torce o rabo. A decodificação de um texto exige do leitor, além da capacidade de situar o escrito em um contexto apropriado, um domínio crescente do vocabulário, uma fluência na decodificação das palavras, uma certa musicalidade no momento de entoá-las (seja verbal ou mentalmente...

O PESO DAS COISAS SIMPLES - Notas e Reflexões Heterodoxas Semanais

É muito fácil esquecer o enorme esforço psíquico que é exigido de nós para podermos aprender qualquer coisa com um mínimo de profundidade e destreza. No caso de algumas pessoas, nem isso — tendo em vista que inúmeros indivíduos nunca, nunquinha, se esforçaram minimamente para aprender algo com um mínimo de destreza e profundidade. # Todo brasileiro, inclusive eu e você, carrega no âmago de sua alma o cadáver de uma pessoa, de um indivíduo que poderia ter nascido e realizado mil e uma façanhas, mas que não nasceu porque foi abortado por nossa preguiça nem um pouco original. # Existem muitas coisas nesta vida que, por sua natureza, são complexas e, diante delas, devemos nos esforçar para estarmos à altura de sua complexidade. E não existe nada mais complexo neste mundo do que as coisas simples da vida. Não é à toa, nem por acaso, que nos complicamos por completo quando somos confrontados por elas. # Um dos elementos fundamentais que é, de certa forma, desdenhado por toda essa turma que v...