Pular para o conteúdo principal

HAVIA MAIS DE UMA PEDRA

Há décadas um hábito me acompanha: sempre tenho comigo ao menos um livro para fazer-me companhia nas horas vagas — que, na maioria das vezes, são apenas alguns minutos. Mesmo tendo um punhado de e-books no celular, ainda continuo tendo sempre em mãos um ou dois títulos para aproveitar bem as migalhas de tempo que a rotina do dia a dia sempre me regala e que, sem a menor cerimônia, procuro aproveitar ao máximo. Tento seguir à risca uma regra simples: a ocasião faz quem a gente quer ser, sempre. Por isso, seja numa aula vaga, no intervalo, durante a aplicação de uma prova (enquanto caminho pela sala, silenciosamente, fico com um olho no livro e com o outro na turma), na fila do correio, no ônibus, na antessala de um consultório médico ou odontológico, enfim, procuro sempre lembrar-me da lição do sociólogo italiano Domenico De Masi: atualmente, o tempo ocioso e livre é abundante em nossa vida; o problema é que ele, o tempo livre, é mal distribuído, mal utilizado e, na grande maioria das vezes, desperdiçado, sem a menor cerimônia, por todos nós. Tendo isso em vista, como muitas pessoas nesse mundão de meu Deus, tento otimizar o pouco que tenho, sem me entregar a lamúrias sem fim por aquilo que jamais tive (no caso, tempo de sobra). Tento porque, da mesma forma que o tempo ocioso é abundante, também é grande o número de possibilidades que temos ao alcance das mãos para desperdiçá-lo. Ah! E como é fácil desperdiçar o nosso tempo com passatempos que, com o passar dos dias, vão dilacerando a nossa capacidade de concentração e minando o nosso poder de manter a atenção focada. É muito fácil. E como não sou um sujeito com a mente “blindada”, tal qual o senhor Sherlock Holmes, prefiro me precaver, evitando ao máximo a fadiga propiciada pelo entretenimento vazio. Aliás, creio que muitos devem proceder de maneira similar. Pois bem, por cultivar esse hábito, em algumas ocasiões, quando estou lendo em algum canto, sou abordado por uma ou outra pessoa — na maioria das vezes crianças e jovens — e, de todas as perguntas e comentários que me são apresentados, há um que é bastante recorrente: a pessoa quer saber por que estou lendo a Bíblia. Quando ouço isso, com um sorriso no rosto, respondo que não estou lendo a Sagrada Escritura e explico que nem todo livro de capa dura é uma Bíblia, da mesma forma que nem todo livro volumoso é um exemplar do Livro Sagrado. Após dizer isso, esclareço que, na verdade, sempre carrego a Sagrada Escritura em meu aparelho celular, junto com um breviário litúrgico. Então, mostro os livros para os infantes, falo um cadinho a respeito dos títulos que estão comigo e sobre os seus autores. Aí é o momento em que seus olhinhos brilham, que a mágica acontece (... ou não), especialmente se a edição da obra é antiga ou em uma língua estrangeira. Seja como for, penso que é de fundamental importância termos sempre claro em nossa mente que os mesmos instrumentos que podem servir de caminho para a degradação do nosso poder de atenção e para a erosão da nossa capacidade de entendimento podem, também, ser ferramentas muito úteis para nos defender de todo entretenimento massificante e alienante que sitia a nossa alma. Tudo depende, como sempre, de como nós procuramos aproveitar a vida, se aproveitamos bem o que ela nos regala e, principalmente, do que nós entendemos por aproveitar bem a vida. Tudo depende dos propósitos que dão a nota e o tom que marcam o ritmo do bater do nosso coração.


*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “O SEPULCRO CAIADO”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela 




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A VOZ QUE NINGUÉM QUER OUVIR

Um dos bens mais preciosos de que dispomos é o silêncio interior. Bem esse que o mundo moderno, através dos mais variados subterfúgios, tenta nos furtar, aliciando-nos a nos entregarmos de corpo e alma ao alarido e à dispersão, em uma farta variedade de manifestações. Se temos ciência do real valor deste bem, sabemos que todo santo dia temos que travar o bom combate para defendermos nossa solitude e, com ela, resguardar a nossa sanidade mental, moral e espiritual. Como bem nos lembra Umberto Eco, a cultura de massa não é um elemento externo, presente apenas na caixola dos outros — nada disso. Todos nós estamos imersos nela, somos afetados direta ou indiretamente por ela e, em maior ou menor medida, a dita-cuja se faz presente dentro de nós (lá ele!), perturbando e deformando o nosso modo de ser, turvando a nossa percepção de tudo, de todos e de nós mesmos. Sim, temos que pelejar um dia de cada vez, mas o Tempo Quaresmal é um momento propício para reforçarmos as trincheiras e defende...

REFLEXÕES HETERODOXAS DE UM ESCREVINHADOR #006

Na medida das nossas possibilidades, sejamos úteis. Esforcemo-nos ao máximo para isso. # Procuremos, sempre que estivermos lendo algo, realizar a anotação das reflexões que nos ocorrerem durante a leitura. # Contracultura, lealdade, espontaneidade e vitalidade. # Santo Tomás de Aquino nos ensina que virtude é o que uma pessoa faz com paixão; já o vício é o que uma pessoa, por paixão, não consegue deixar de fazer. # Que essa seja a nossa divisa: que todo o mal que me fizeram seja o combustível que me mova a fazer o bem. # Pensar é um incômodo tão grande quanto andar na chuva. # Filosofar é uma perene procura pela verdade; uma verdade que nos completa e que se completa em nós. * Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “BEM LONGE DO CORAÇÃO SELVAGEM”, entre outros livros. https://lnk.bio/zanela  

AQUELA PEQUENEZ QUE NÃO NOS ABANDONA

O escritor Josué Montello nos ensina que o dever número um de um crítico é compreender. Com base nesta lição devidamente aprendida com o mestre, sempre procuro deixar claro para meus alunos que eles não têm a menor obrigação de concordar com uma opinião quando essa lhes é apresentada, pouco importa quem seja o seu autor; entretanto, eles têm o dever moral de, com sinceridade, esforçar-se para realmente compreendê-la. Lição similar é-nos ensinada através da obra do filósofo Mário Ferreira dos Santos, que procurava, nas palavras dele, identificar em todas as filosofias de que tomava conhecimento as suas “positividades” e, é claro, as suas “negatividades”, através de uma análise “decadialética”. Procedendo por este riscado, ele conseguia ter uma visão ampla e profunda a respeito das ideias e opiniões de que discordava e, de quebra, acabava aprofundando e ampliando os fundamentos de suas próprias interpretações e pontos de vista. Um exemplo mui ilustrativo de seu modus operandi foi o deb...