O ditado popular afirma que, em terra de cego, quem tem um olho é rei; porém, há quem desconfie de que, em terra de cego, quem tem um olho pode ser tido na conta de maluco. Bem, diante das duas possibilidades, algo me diz que a segunda seja a mais razoável.
Compreender qualquer coisa com um mínimo de profundidade sempre nos traz uma sensação de satisfação, porque dissipa as brumas que até então turvavam o nosso entendimento a respeito de um determinado assunto; mas também, de lambuja, projeta sobre nós a impressão de que uma fatia significativa das pessoas irá nos olhar de soslaio, como se fôssemos uma figura esquisita, para dizer o mínimo. E está tudo bem.
E está tudo bem porque conhecer não é repetir aquilo que nós e nossos semelhantes já sabemos. Aliás, fazer isso é apenas reforçar o senso comum que cultivamos e partilhamos com os demais. Conhecer é expor-se ao risco de equivocar-se e, equivocando-se, sentir-se obrigado a corrigir-se ou ser corrigido; e, como todos nós muito bem sabemos, esse é um trem danado de desconfortável.
Todo aquele que se esforçou para aprender algo sabe muito bem quantas e quantas vezes nós temos que, humildemente, repetir um exercício; quantas e quantas vezes precisamos reler um texto para realmente compreender algo com um mínimo de maestria. Como dizem os antigos, a repetição é a mãe do aprendizado. Ou, dito de outro modo: a insistência é a mãe dos bons hábitos, a perseverança é o pai da autodisciplina e, juntas, elas forjam o nosso conhecimento e, consequentemente, formam o nosso ser; pois, como os escolásticos nos ensinam, quanto mais eu sei, mais eu sou.
Tendo isso em vista, podemos dizer que a substancialidade do conhecimento que construímos em nosso ser é a medida do nosso caráter — ou da falta dele. Não tem lesco-lesco.
Detalhe importante: quando falamos que o nosso conhecimento é a medida do nosso ser, não estou me referindo à quantidade de títulos e diplomas que ostentamos; refiro-me, sim, àquilo que se encontra integrado à nossa personalidade e que transparece em nosso modo de agir.
Sim, eu sei — todos sabemos — o quanto nós, brasileiros, damos importância para os títulos, diplomas e canudos e, ao mesmo tempo, ignoramos soberbamente o conhecimento. Essa idolatria bacharelesca que impera nestas terras brasílicas, desde a aurora de nossa triste nação, fala mais a respeito da alma que anima a nossa cultura — ou a precariedade dela — do que qualquer outra métrica atualmente utilizada para avaliar os resultados obtidos pelo nosso sistema educacional.
No fundo — e não é tão fundo assim —, somos uma nação de diplomados iletrados que cobiçam vantagens, benesses e cargos, mas que raramente cogitam cortejar o conhecimento unicamente pelo valor intrínseco que ele tem. Por isso, em nossa sociedade, não são muitos os que ousam olhar para além dos olhos de nossos concidadãos e dos olhares dos nossos semelhantes.
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Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “O SEPULCRO CAIADO”, entre outros livros.
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