Pular para o conteúdo principal

QUANDO O NAUFRÁGIO É (IN)EVITÁVEL

José Ortega y Gasset dizia que as únicas ideias que realmente importam, que deveriam ser mortalmente levadas a sério por nós, são as ideias dos náufragos. Ora, se estivéssemos em um naufrágio, boiando entre o nada e lugar nenhum, com o firmamento sobre nossas cabeças, a imensidão diante de nossas vistas e apenas uma fugidia possibilidade de sobrevivência, as imagens, lembranças e ideias que, neste quadro, viessem à sua mente seriam, definitivamente, as coisas que realmente importam, tenhamos dado ou não importância a elas em nossa vida. A imagem do naufrágio, utilizada pelo filósofo espanhol, é muito ilustrativa, tendo em vista que viver, de certa forma, é uma sucessão de naufrágios existenciais; por isso, como dizia Fernando Pessoa, viver não é preciso, navegar é. E navegamos pelos dias da nossa vida, muitas e muitas vezes, como se não tivéssemos um rumo a seguir, cantando: “deixa a vida me levar, vida leva eu”. Noutros casos, de forma pouco refletida, escolhemos destinos que satisfazem o nosso desejo por bens materiais, status, fama e demais traquitanas do gênero, como se estas fossem preencher plenamente o vazio que há em nosso peito — vazio que, por definição, não pode ser completado por nenhuma dessas tranqueiras. Dentro do automatismo, seguimos nossos dias, que são intercalados por períodos de entretenimento vazio, para continuarmos sorumbaticamente perdidos, crentes de que estamos no caminho certo rumo à nossa realização plena como pessoas (só que não). Porém, muitas pessoas, exitosas em seu navegar rumo a esses inconfessos destinos materialistas e hedonistas, acabam, em algum momento, tendo de encarar o esfacelamento de suas realizações, que pode ser causado por qualquer vicissitude da vida. Podemos dizer que, nessa situação, nos encontramos com um naufrágio para chamar de nosso, todinho nosso. Tais momentos, se devidamente refletidos e meditados, podem ser ocasiões de grande aprendizado e de profunda transformação se, é claro, estivermos com nosso coração aberto para isso — para singrarmos pelas águas que nos são apontadas por Ortega y Gasset e passarmos a nos centrar naquilo que realmente importa e que pode dar sustentação e sentido à nossa vida. É mais ou menos como na historieta contada por Eduardo Marinho, o “filósofo das ruas”, na qual ele explicava o porquê de ter deixado tudo (um bom emprego e um futuro promissor). Ele estava na portaria do edifício onde os pais moravam e viu um senhor, na casa dos 80 anos, acompanhado de uma senhora. Gentilmente puxou prosa e, lá pelas tantas, o homem disse: “Veja só, meu rapaz: quando meus filhos eram pequenos, eu pagava para outras pessoas cuidarem deles. Mal os via. Hoje, pago para cuidarem de mim. Meus filhos não me visitam e mal conheço meus netos”. Ao ouvir isso, Marinho disse para si mesmo que não ia esperar chegar ao final da vida para descobrir que tinha perdido tudo o que tem valor por ter preferido bens forjados com pó e sombras. Dito de outro modo: ele não esperou sua vida naufragar para tomar consciência de que é preciso viver bem a vida, e não viver em função dos bens que nos roubam a vida. Fim.


*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “O SEPULCRO CAIADO”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela 




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

NÃO É ASSIM QUE A BANDA DEVERIA TOCAR

Estou lendo, entre outras coisas, o livro “Os Tempos Ásperos” de Jorge Amado. Um baita livro, para o meu gosto. Mas não é a respeito desta sua obra que pretendo parlar, mas sim sobre uma declaração proferida pelo autor em uma entrevista onde disse, de forma lacônica, feito pino de patrola, que ideologias, sem exceção, são todas um monte de fezes. Umas fedem mais, outras mais ainda, mas todas elas, juntas ou separadas, são o que são, e ponto final. Ainda na mesma entrevista, Amado, de uma forma não tão amável, disse com todas as letras que é importante lembrarmos e, se possível for, jamais esquecermos que existem filhos de uma boa mãe de direita, da mesma forma que existem filhos do mesmo naipe de esquerda — e de centro também —, porque, se há uma coisa que é muito bem distribuída neste país, é a canalhice; e se não somos capazes de perceber isso, imagino que está mais do que na hora de revermos alguns conceitos — e preconceitos — que carregamos em nossa algibeira mental. Sobre esse p...

A FRIA SOMBRA QUE NOS ASSOMBRA

Sempre desconfiei daqueles caboclos que dizem, com o peito estufado, que não têm medo de nada, porque coragem é uma virtude que, como toda e qualquer virtude, dispensa alardes. De mais a mais, coragem não significa viver sem nada temer, mas sim viver e enfrentar os seus temores, mesmo estando se borrando de medo. O resto, te digo, é apenas encenação e efeito pirotécnico. Eu, de minha parte, admito: tenho um punhado de medos. Um deles é de pessoas e organizações que dizem que aqui estão para “restabelecer a verdade”, “salvaguardar as instituições” e tra-la-lá. Toda vez que uma turma se apresenta assim, com toda essa marra e sofisticação, não tenho dúvida alguma: são discípulos da Rainha de Copas que não medirão esforços para fazer imperar a insânia e o engodo. Por exemplo, ao voltarmos nossos olhos para a história desta terra de desterrados que é o nosso país, lembramos que, nos idos dos anos 60, quando aqui imperava o tempo do “Ame-o ou deixe-o”, o regime militar jurava, de coturnos ...

LULA E AS MÁS COMPANHIAS

 por Percival Puggina (*) Pais responsáveis certamente não cansam de repetir a seus filhos frases feitas e perfeitas que ecoam mundo afora, através dos milênios, expressas em milhares de idiomas. Uma delas é esta: “Evita as más companhias”. É um ensino da mais rigorosa prudência. As más companhias agenciam o mal e são fonte de desgraça e infelicidade. Quanto mal se evitou no mundo cada vez que essa frase, repetida de modo oportuno, encontrou adesão prudente em quem a ouviu! Escrevo este artigo na noite de sexta-feira 26 de julho. Já repercutem os vilipêndios à fé cristã durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. É a má companhia que os mal intencionados proporcionam aos idiotas. Estes aceitam os impedimentos às manifestações religiosas populares e majoritárias para que os mal intencionados possam exercer com total liberdade o suposto direito “laico” de desrespeitar a fé alheia. Domingo, a Venezuela decide entre Nicolas Maduro e o banho de sangue prometido à nação caso sej...