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OS CRÍTICOS DO PAU OCO

Quando uma palavra passa a ser utilizada em demasia pela grande mídia e pelos autoproclamados “bem-pensantes”, é sinal de que o pobre vocábulo acabou perdendo praticamente todo o seu crédito cognitivo. Quando isso ocorre, ela passa a ser utilizada para sinalizar qualquer coisa e, por isso mesmo, termina significando coisa alguma. E isso, cara pálida, é uma tremenda enrascada porque abre as porteiras da vida para toda ordem de barbaridades. Um bom exemplo disso são os usos e abusos da palavra “crítico”. É educação crítica para cá, é opinião crítica para lá, pensamento crítico acolá; enfim, é um Deus nos acuda porque a única coisa que se faz presente em meio a tanta pretensa criticidade é o espírito de rebanho que, por sua própria natureza, sufoca qualquer possibilidade de uma opinião serena, de um pensamento independente e de uma educação emancipatória. Mas é claro que nós não iremos vestir, jamais, essa carapuça porque, “sacumé”, nós somos “críticos de fato”, não apenas de nome, como aqueles que consideramos sinistramente alienados, não é mesmo? Pois bem, mas mesmo assim, façamos um pequeno exame de consciência, se ainda tivermos a nossa em bom estado. Dito isso, vem comigo, o exercício é bem simples: pense numa figura pública do atual cenário político que você despreza com todas as forças do teu ser, que você considera um ser humano desprezível. Pensou? Muito bem. Agora aponte algumas qualidades que você reconhece nesse indivíduo e, em seguida, liste alguns momentos em que você concordou com algo que ele tenha dito ou feito (Tempo! Tic-tac-tic-tac...). Ora, se nós não somos capazes de fazer isso com tranquilidade estoica, se não somos capazes de pensar esses pontos a respeito de uma pessoa que temos na conta de nosso supremo desafeto, é sinal de que nossa criticidade é apenas e tão somente um adorno postiço para ocultar a nossa total falta de amor pela procura sincera e abnegada pela verdade, procura essa que é a coluna vertebral de uma sã consciência. Dá-se a impressão de que muitos usam apenas a palavra “crítico” para tapar o sol da realidade e, assim, poder ficar mais confortável sob a sombra do seu pedantismo ideológico e no remanso caudaloso da sua insciência autocomplacente. Enfim, por essas e outras, desconfio, como desconfio, de qualquer um que se ufane de ter sido sempre coerente com suas ideias, ideais e opiniões, porque, bem provavelmente, nunca as examinou, nunca cogitou a possibilidade de estar equivocado, e essas, meus amigos, por definição, são as pessoas criticamente perigosas porque jamais foram perigosamente críticas. É isso. Fim de causo.


*

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “A QUADRATURA DO CÍRCULO VICIOSO”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela 




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