Pular para o conteúdo principal

VIRANDO A PÁGINA DE UMA VIDA ESTABANADA

Rachel de Queiroz, em sua obra “O Quinze”, nos apresenta os desencontros amorosos entre o rude Vicente e a refinada e culta Conceição, em um dos planos da referida obra. Desencontros esses que geram um punhado de mal-entendidos que acabam por levar as personagens a seguirem rumos apartados, bem diferentes do que poderia ter sido.

 

Aliás, quantas e quantas vezes nós não acabamos vivendo situações assim, que mudam de forma brutal o caminho que estava sendo trilhado por nós. Com toda certeza não são poucas as decisões que tomamos que acabam tendo essa feição, da mesma forma que são muitas as situações, similares a essa, onde não temos a menor consciência dos seus efeitos sobre nossa vida. Na verdade, raramente paramos para pensar a respeito disso.

 

E o mais gozado é que somos capazes de nos manter “serenos”, imperturbáveis diante de incontáveis equívocos, de inumeráveis mentiras, como se essas não tivessem o menor efeito sobre nossas vidas, apesar delas estarem arrastando para a lama tudo aquilo que, algum dia, teve algum valor para nós.

 

As razões para tal estado de sonambulismo existencial, provavelmente são muitas, mas, de um modo geral, creio que há uma razão central, que há muito foi apontada por George Orwell, que ajuda muito a alumiar o nosso entendimento sobre a questão.

 

Ele nos lembra que tal estado de sonsice em muito se deve ao fato de que nos esquecemos com facilidade de tudo aquilo que ficamos sabendo; e esquecemos, assim, de um dia para o outro, porque somos submetidos a um bombardeio constante de informações, que chegam até nós das mais variadas formas, anestesiando nosso entendimento e entorpecendo a nossa consciência.

 

Anestesiados e entorpecidos, acabamos não mais diferenciando aquilo que é ilusório daquilo que é real e invertemos, sem a menor cerimônia, a ordem dos valores, a hierarquia das prioridades, o sentido da realidade.

 

Podemos dizer que, de certa forma, agimos de modo similar a personagem Conceição, preferindo muitas e muitas vezes nos apegar a uma interpretação distorcida, pretensamente culta e "sabida", ao invés de procurarmos, com humildade, nos abrir para a realidade como, de certa forma, fazia a avó da referida mocinha, a Mãe Nácia.

 

Pois é. A abundância de informações acaba tendo pouca serventia quando não nos encontramos munidos das questões certas para trabalhá-las. Vai ver que é por isso que, atualmente, mesmo tendo acesso a tantas informações, estejamos cada vez mais desorientados em nossa vida.

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

https://sites.google.com/view/zanela

 

Inscreva-se [aqui] para receber nossas notificações.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

FRAGMENTOS DE UM DIÁRIO HETERODOXO #029

O que muitos chamam de cultura, de alta cultura, não passa de siricuticos de uma alma medíocre que se consome em risinhos histéricos. # Há algum antídoto para um simulacro de cultura e para uma consciência criticamente fingida? Sim: vergonha na cara e estudar com zelo e seriedade. # Ao romper de uma crise, podemos derramar lágrimas de angústia ou de arrependimento. Estas são lágrimas que lavam nossa alma; aquelas são as que irrigam nossas dores e excitam nossas mágoas. # Para entendermos de uma vez por todas que modismos não têm força para ditar as regras e guiar os rumos da história, basta que vejamos algumas fotos antigas. # Ser alguém na vida, muitas vezes, é uma forma de punição. # Ser autêntico é a base da genialidade. O problema é sabermos o que, de fato, seria essa tal de autenticidade neste mundo de simulacros. # É mais fácil manter a disciplina do que querer estar o tempo todo motivado. # Pecados que não provocam uma contrição em nosso coração geralmente nos levam a outros pec...

UMA VERSÃO MALACAFENTA DE NÓS MESMOS

A vida não é estática, por mais atarracada que seja a nossa maneira de encará-la. Ela é dinâmica, como nos lembra José Ortega y Gasset, e está em constante fluxo e refluxo, bonança e agitação, conforme as nossas decisões e frente às circunstâncias que se apresentam a nós.   Saber compreender e assimilar as circunstâncias da vida é a chave para que nos tornemos cientes das oportunidades e obstáculos que estão latentes e, principalmente, para nos tornarmos mais conscientes da pessoa que estamos nos tornando através das decisões que tomamos todo santo dia.   À primeira vista essa é uma tarefa simples por demais, porém (porque sempre há um porém), o nosso coração vive em desassossego, inquieto consigo, com tudo e com todos e, tal inquietude, é malandramente instigada pelo estilo de vida modernoso que levamos.   Aceitamos de bom-grado ser bombardeados com informações de relevância duvidosa, informações essas que chegam até nós pelas ondas da grande mídia, das redes sociais e d...

FRAGMENTOS DE UM DIÁRIO HETERODOXO #028

Camus nos lembra que, para muitos homens, o êxito é uma lei e a brutalidade, uma tentação. # Patriotismo não é profissão. # Muitas vezes, aquilo que é considerado improvável pode tornar-se possível. # Os fins justificam os meios; por isso, se equivocam terrivelmente aqueles que estão embriagados com seus fins. # A vida, como nos ensina Umberto Eco, nada mais é do que uma lenta rememoração da infância. # Os imbecis acreditam que são sempre juízes mais serenos e justos do que Deus. # Os vícios precisam ser amados e defendidos por aqueles que são escravizados por eles. É assim que o mundo moderno funciona. # Os vícios precisam ser esfolados, não protegidos. * Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “REFAZENDO AS ASAS DE ÍCARO”, entre outros livros. https://lnk.bio/zanela