Pular para o conteúdo principal

MUITO ALÉM DA ESTALAGEM DE PROCUSTO

Mêncio, o grande sábio chinês, nos ensina que um homem que se dobrou a si próprio, aos seus desejos e as suas paixões, nunca poderá endireitar os outros.


Um homem que se rendeu aos seus caprichos não pode servir de exemplo de retidão para ninguém e, por isso mesmo, não tem autoridade alguma para palpitar sobre a educação de alguém, tendo em vista que a essência do ato de educar é a apresentação da retidão através do constante esforço individual para retificar de si próprio.

 

Aliás, como bem nos ensina o velho brocardo romano, as palavras movem e isso, como todos sabemos, é bom, mas não é suficiente. Já os exemplos, estes arrastam, e isso é a própria excelência vestida de carne e ossos; ou a decadência, dependendo do que estará sendo apresentado como exemplo.

 

Infelizmente, tornou-se um lugar comum no mundo contemporâneo, acreditar que a presença de um monte de traquitanas eletrônicas seria mais do que suficiente para se educar uma pessoa, como se plataformas digitais, e coisinhas similares, fossem as colunas fundamentais para a edificação de uma educação de qualidade.


Além disso, os crédulos desse tipo de patacoada hi-tec, também creem que uma avalanche de controles burocráticos, estéreis e caducos, seriam a garantia de que tudo correrá muitíssimo bem na realização da formação das tenras gerações.


E o pior é que os tapados nem se tocam de que eles estão cada dia mais preocupados, preocupadíssimos, com os números apresentados, de forma Mandrake pelos sistemas digitais de controle; e, cada vez menos com o que efetivamente os infantes estão, de fato, aprendendo e, principalmente, com o tipo de pessoas que eles estão se tornando.

 

Pois é. Todos sabem que essa conversa toda de novas tendências em matéria de educação são uma cilada, uma baita cilada; mas, “sacumé” que são as coisas: todos sabem, todos veem e, por isso mesmo, praticamente todos preferem fingir não estar vendo a longa marcha da vaca para o brejo que está se descortinando diante de nossos olhos.

 

E esse clima de dissimulação que impera em torno das tais plataformas digitais, dos sistemas de controle burocrático e tutti quanti, é o retrato fidedigno daqueles que estão ditando os rumos do sistema educacional, imagem essa que fala por si só, contradizendo tudo, tudinho que está sendo dito a respeito das mesmas, tendo em vista que, como havíamos destacado linhas acima: as palavras muitas vezes podem ser dúbias, mas os gestos, os atos, os exemplos, estes são sempre transparentes e, por isso, arrastam.

 

Sim, eles podem empurrar para alto, mas também podem nos puxar para baixo. Eles podem nos convidar para almejarmos a excelência, como também podem nos aliciar a nos contentar com a mediocridade, ou com menos do que isso e, esse simulacro de educação hi-tec, com suas dissimulações sem fim, está ensinando, com a clareza de uma manhã de primavera, que fazer manha, fingir e dissimular, é essencial para se adaptar a mediocridade reinante, para corresponder aos números que não refletem nada que valha a pena ser mensurado.


Agora, conhecer, de fato, crescer e amadurecer em espírito e verdade, não. Isso seria, nas atuais circunstâncias, dominada por medalhões machadianos digitalizados, uma baita inconveniência.

 

Sim, eu sei, ninguém diz esse tipo de coisas, por meio de palavras, para uma criança, ou para um adolescente, porém, é bem isso o que todo o sistema educacional, de mãos dadas com a bestializada sociedade midiatizada, está fazendo com as tenras gerações, tendo em vista que todos nós, em alguma medida, nos dobramos caninamente aos nossos caprichos e nos curvamos, servilmente, para as veleidades da sociedade que se ufana de suas vergonhas, que não são poucas.

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

https://sites.google.com/view/zanela

 

Inscreva-se [aqui] para receber nossas notificações.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PULANDO SEM PARAQUEDAS - Notas e reflexões heterodoxas

1. O nosso sentimentalismo não é — e nunca será — causa suficiente para gerar um ato de bondade. Na verdade, na grande maioria das vezes, ele é um grande obstáculo. # 2. Há uma diferença abissal entre parecer bom e ser bom; e, para uma pessoa de olhar e discernimento dispersos, distinguir uma coisa da outra é, praticamente, uma impossibilidade. # 3. Como reconhecer um tirano? Eis aí uma pergunta que vale ouro. Na real, há muitos sinais que podem denunciar um figurão desse naipe, mas de todos eles há um que é a sua marca distintiva: querer obstruir a livre circulação de informações sob a justificativa de que está fazendo isso em nome de um "bem maior". Meu amigo, qualquer um que venha insinuar algo assim, pode ter certeza, bom sujeito não é. # 4. Urge ter paciência quando tudo à nossa volta nos convida a mergulhar num oceano de histeria. Urge, mas é um trem danado de difícil manter a cabeça no lugar num quadro assim. E como é! # 5. Ler um e-book é uma maravilha pela comodidade...

XUCRISMO DECANTADO - Notas e reflexões heterodoxas

1. Uma coisa é planejar aquilo que iremos fazer; outra coisa é ficar ciscando em círculo feito galizé ao redor das miudezas de meia dúzia de papéis ornados com gráficos, tópicos e tabelas, achando que, fazendo isso, estamos resolvendo algum problema. # 2. Quando um gestor, chefe ou líder não quer resolver um problema, ele convoca uma reunião. E se as reuniões tornam-se uma fáustica rotina, é sinal de que, além de não quererem resolver os problemas existentes, esses burocratas querem inventar novos problemas para continuarem na mesma — porém, agora com um volume bem maior de pepinos sem solução alguma, só para dar stress e azia. # 3. Não se permita desanimar. Se há uma coisa que o mundo à nossa volta mais deseja é nos ver cabisbaixos, com os faróis da alma à meia-luz, arrastando os para-choques do caráter na poeira da vã-glória. Não se permita. Permita-se chorar, gritar bem alto — a ponto de fazer zunir os ouvidos das estrelas —, mas não se permita desanimar e desistir de seja lá o que ...

NÃO É ASSIM QUE A BANDA DEVERIA TOCAR

Estou lendo, entre outras coisas, o livro “Os Tempos Ásperos” de Jorge Amado. Um baita livro, para o meu gosto. Mas não é a respeito desta sua obra que pretendo parlar, mas sim sobre uma declaração proferida pelo autor em uma entrevista onde disse, de forma lacônica, feito pino de patrola, que ideologias, sem exceção, são todas um monte de fezes. Umas fedem mais, outras mais ainda, mas todas elas, juntas ou separadas, são o que são, e ponto final. Ainda na mesma entrevista, Amado, de uma forma não tão amável, disse com todas as letras que é importante lembrarmos e, se possível for, jamais esquecermos que existem filhos de uma boa mãe de direita, da mesma forma que existem filhos do mesmo naipe de esquerda — e de centro também —, porque, se há uma coisa que é muito bem distribuída neste país, é a canalhice; e se não somos capazes de perceber isso, imagino que está mais do que na hora de revermos alguns conceitos — e preconceitos — que carregamos em nossa algibeira mental. Sobre esse p...