Pular para o conteúdo principal

AOS TRANCOS E BARRANCOS

Um lugar comum, repetido aqui e acolá, quando o assunto é essa tal de educação, é aquele que afirma que nós deveríamos apenas e tão somente estudar aquilo que gostamos, que nos traz algum tipo de satisfação. Bem provavelmente, todos nós já ouvimos alguém dizer isso.

 

Ora, se formos apenas direcionar a nossa atenção para aquilo que nos apetece, se deixarmos a gurizada apenas se dedicar àquilo que lhes agrada, com o perdão da palavra, estaremos todos nos entregando de braços abertos à idiotia sem fronteiras, não à educação.

 

Se apenas procuramos “aprender” aquilo que não nos causa nenhum tipo de “desconforto intelectual”, estaremos limitando o nosso horizonte, ao mesmo tempo em que dizemos, para nós mesmos, que estamos “nos realizando” como pessoa.

 

Essa atitude lúdica e hedonista, frente ao aprendizado, é uma deformidade que domina a mentalidade contemporânea. Essa é uma justificativa esfarrapada feita sob medida para legitimar o desdém pelo conhecimento.

 

Esquecemo-nos que o aprendizado de qualquer coisa é, necessariamente, a assimilação de algo novo e que, tal assimilação, leva tempo, é muitas vezes cansativo e exige, de nossa parte, uma grande disposição para superarmos as nossas limitações.

 

Se não enfrentamos tarefas que, num primeiro momento, nos parecem difíceis de serem executadas, tudo o mais em nossa vida irá parecer insuportável, tendo em vista que nunca procuramos ampliar o nosso espectro de ação e compreensão.

 

E é claro que muitos caboclos irão afirmar que tudo o que for ensinado deve parecer interessante, divertido e assim por diante, repetindo mais uma vez a cantilena hedonista e lúdica, para não lembrar a ninguém que todos nós temos a responsabilidade de nos interessar por tudo o que a vida tem de bom a nos ensinar e assim, quem sabe, possamos, com o tempo, nos tornar pessoas minimamente mais interessantes.

 

Enfim, enquanto continuarmos caminhando por esse riscado, que apenas valoriza aquilo que nos parece “legal” e “divertido”, continuaremos a ser os mesmos caboclos tediosos e desinteressantes de sempre, que pensam que sua idiotização voluntária seria sinônimo de uma excelsa educação, crítica e de qualidade, como tantos gostam de dizer por aí.

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

https://sites.google.com/view/zanela

 

Inscreva-se [aqui] para receber nossas notificações.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A EDUCAÇÃO QUE NÃO TEMOS

Uma vez um sacerdote, ao final de uma Missa, disse laconicamente — de forma curta e grossa, feito um pino de patrola — que Deus não resiste a um homem de joelhos e com seu coração na mão, porque não há nada mais encantador neste mundo do que um coração humilde voltando as batidas dos seus átrios e ventrículos para o Alto. E, sejamos francos: estes dois pontos foram excluídos do horizonte da vida moderna. E não estou falando de senso religioso, não. Refiro-me à virtude da humildade como alicerce do ato de aprender, como bem nos ensina Hugo de São Vítor em seus “Opúsculos sobre o modo de aprender”, e ao senso de hierarquia, que é um instrumento imprescindível para ordenar os nossos apetites, inclinações, aptidões e habilidades para que possamos nos aprimorar como pessoa e, consequentemente, nos elevar em dignidade e verdade, como bem nos lembram tanto Gustavo Corção quanto José Ortega y Gasset. De mais a mais, é importante lembrar que a virtude da humildade não pode, de jeito-maneira, ...

A DESTRUIÇÃO SILENCIOSA DAS BIBLIOTECAS

Todos, ao menos da boca para fora, afirmam que a prática da leitura é de fundamental importância para o desenvolvimento cognitivo de uma pessoa; porém, a maneira como o ato de ler é apresentado soa, no mínimo, engraçada porque, na grande maioria dos casos, ele é tratado como se fosse algo natural e simples que, uma vez aprendido, estaria sacramentado, pronto e acabado. Pois é. Mas não é bem assim que a banda toca. Como nos lembra Gregorio Luri, ler não é algo natural — nada disso. Seu aprendizado exige esforço e deve ser consistente porque, antes de qualquer coisa, ler é colocar um texto dentro de um contexto; do seu devido contexto. Isso exige um grande empenho de nossa parte, e é justamente aí que a porca torce o rabo. A decodificação de um texto exige do leitor, além da capacidade de situar o escrito em um contexto apropriado, um domínio crescente do vocabulário, uma fluência na decodificação das palavras, uma certa musicalidade no momento de entoá-las (seja verbal ou mentalmente...

O PESO DAS COISAS SIMPLES - Notas e Reflexões Heterodoxas Semanais

É muito fácil esquecer o enorme esforço psíquico que é exigido de nós para podermos aprender qualquer coisa com um mínimo de profundidade e destreza. No caso de algumas pessoas, nem isso — tendo em vista que inúmeros indivíduos nunca, nunquinha, se esforçaram minimamente para aprender algo com um mínimo de destreza e profundidade. # Todo brasileiro, inclusive eu e você, carrega no âmago de sua alma o cadáver de uma pessoa, de um indivíduo que poderia ter nascido e realizado mil e uma façanhas, mas que não nasceu porque foi abortado por nossa preguiça nem um pouco original. # Existem muitas coisas nesta vida que, por sua natureza, são complexas e, diante delas, devemos nos esforçar para estarmos à altura de sua complexidade. E não existe nada mais complexo neste mundo do que as coisas simples da vida. Não é à toa, nem por acaso, que nos complicamos por completo quando somos confrontados por elas. # Um dos elementos fundamentais que é, de certa forma, desdenhado por toda essa turma que v...