Pular para o conteúdo principal

O CAJADO DO VELHO ANCIÃO

Desde os tempos de vovó que todo mundo sabe, de cor e salteado, que é muito importante consultarmos mais de uma fonte de informação antes de chegarmos a uma conclusão sobre qualquer assunto.

 

Aliás, a confrontação de ideias que contrariam uma a outra, a contraposição de propostas de solução para um problema é a base para aquilo que nossas avós chamavam simplesmente de bom-senso e que, atualmente, as pessoas mais comedidas, diriam que isso seria o mínimo que se espera de uma pessoa que tenha um pouquinho de razoabilidade.

 

Para tanto, é imprescindível que tenhamos a tal da paciência para, é claro, realmente conhecermos os pontos de vista divergentes e, com esforço e diligência, possamos chegar a uma resposta minimamente convergente e suficientemente razoável.

 

Não apenas isso. Antes de qualquer coisa é de fundamental importância que consideremos a possibilidade de que podemos estar redondamente errados sobre o que pensamos a respeito do que está sendo analisado por nós.

 

Se estivermos certos, se a confrontação das descrições dos fatos, das ideias e propostas apenas revelarem que aquilo que tínhamos como correto é a mais cristalina verdade, ótimo. Que delícia. Agora, se ao final dessa trabalheira toda descobrirmos que nós estávamos redondamente equivocados, ótimo também, porque poderemos nos corrigir e isso, por mais desconfortável que seja, é muito bom, não é mesmo?

 

O problema é que não são poucas as pessoas que preferem apenas informar-se com aquilo que, em alguma medida, e de certa forma, confirma as suas “convicções”, e isso é grave, muito grave.

 

Infelizmente, admitamos ou não, não são poucas as ocasiões em que agimos desse modo, fechando-nos e copas, porque na maioria das vezes o que mais queremos não é conhecer a verdade para que ela nos liberte da nossa ignorância. Não. Infelizmente, na grande maioria dos casos, nós queremos apenas vencer o bate-boca, mesmo que isso nos leve a abraçar uma farsa, a mutilar o nosso coração e ferir de morte a nossa razão.

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

https://sites.google.com/view/zanela

 

Inscreva-se [aqui] para receber nossas notificações.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

NA NOITE MAIS ESCURA

Lembro-me de ter lido, num dos livros de Domenico De Masi — Criatividade e Grupos Criativos: Descoberta e Invenção —, que um cidadão ateniense adulto, por volta dos seus trinta anos de idade, teria assistido a aproximadamente trezentas peças de teatro. Ao ler isso, mais que depressa, coloquei-me a matutar com meus alfarrábios e a me perguntar quantas peças assisti em minha porca vida. Quantas? Pouquíssimas, tendo em vista que sempre fui um caipira que vive entocado no mato. Na verdade, poucas são as pessoas que podem se vangloriar de ter tido a grata satisfação de assistir a tantas peças. Pouquíssimas mesmo. Ao constatar isso, porca miséria, fiquei pensando em minha inenarrável miséria cultural e no quão apartada minha alma encontrava-se do terapêutico efeito catártico que o teatro pode proporcionar ao coração humano, instalando-nos na realidade e ordenando as nossas paixões e inquietações. Mas então, lembrei-me da grande paixão que, desde menino, nutro pela sétima arte e toquei-me da ...

A VIDADE DA CRÍTICA DESNECESSÁRIA - Notas e reflexões heterodoxas

1. Todo bom mané gosta de dizer que pensa criticamente, como se afirmar isso transformasse sua opinião sem valia em alguma coisa que preste. # 2. Toda vez que dizemos que apreciamos a opinião de alguém por considerarmos a pessoa crítica, não estamos dizendo que o que foi dito seja algo inteligente pra caramba. Nada disso, cara-pálida. Na real, estamos apenas dizendo que concordamos com o que foi dito pelo fulano porque está de acordo com aquilo que nós pensamos. Só isso e olhe lá. # 3. Quando o assunto é esse trololó de criticidade, estou com o filósofo espanhol Gregorio Luri, que, de forma curta e grossa, feito pino de patrola, nos lembra que apenas podemos dizer que pensamos criticamente quando somos capazes de pensar a partir dos corolários opostos às nossas convicções e, vez por outra, sermos capazes de discordar de nós mesmos — de admitir que estávamos redondamente errados. Se não somos capazes disso, sinto muito, mas nós não somos críticos nem na casa do chapéu. # 4. Colocar defe...

A PEDREGOSA ESTRADA DA CIDADANIA

É curioso quando começamos a refletir sobre o tempo e, ao fazê-lo, as primeiras palavras que nos vêm à cabeça são aquelas presentes nas páginas do livro Confissões, de Santo Agostinho, onde o bispo de Hipona pergunta: o que é o tempo? E, na sequência, responde-nos: se ninguém me pergunta, eu sei; mas, se quero explicá-lo a quem me pergunta, já não sei. E é curioso refletirmos sobre isso porque, quando paramos para prestar a devida atenção na forma como experienciamos o tempo em nossas venturas e desventuras pra lá de humanas, notamos, num piscar de olhos, que suas três dimensões estão sempre presentes — juntas, fundidas e misturadas — em nosso horizonte de percepção. Como bem nos ensinam Gilberto Freyre e Peter Berger, todos nós guardamos em nossa consciência os fragmentos do passado, de tudo aquilo que foi vivido e testemunhado por nós. Por isso mesmo, esse passado em cacos sempre pode sofrer uma ressignificação, uma nova interpretação à luz daquilo que está sendo vivido por nós no pr...