Pular para o conteúdo principal

MUITO ALÉM DE PERPÉTUA E TIETA

Costumamos nos apresentar com as dignidades que consideramos "apropriadas" diante dos demais que, naturalmente, também não deixam de se vestir com as distinções que eles consideram vistosas perante os olhos de todos, inclusive, é claro, dos seus.

 

É aquele festival de afetação. Não há uma única direção em que não encontramos pessoas honradas, muitíssimo honradas, desavergonhadamente honradas e, por incrível que possa parecer, nunca conseguimos avistar, nem de longe, um único canalha sequer.

 

Porém, sempre há aquele carcará, ressabiado que só ele, que ao ver tanto bom-mocismo reunido, mais do que depressa percebe que há algo muito estragado nos ares da praça.

 

Na verdade, ele percebe a obviedade das obviedades: debaixo de tanta pomba, escondido sob muitas camadas de pelos, pele, gordura, carne, tripas e outras vísceras, o que temos é um monte de indignidades que, cada uma ao seu modo, procura ocultar-se com seus mil e um disfarces.

 

Ao apontar para esse fato, junto com o carcará anônimo, não estou fazendo votos para que todos nós deixemos de lado essas poses de superioridade postiça e passemos a, cinicamente, exibir publicamente nossas vergonhas como se elas fossem algo meritório.

 

Na verdade, para infelicidade geral da nação, não são poucas as figuras que, realmente, apresentam-se com seus feitos indecorosos como se esses fossem um exemplo de virtude. Sim, os casos são muitos, mas não é disso que estamos falando.

 

Penso apenas que, ao invés de ficarmos com nossas afetações cotidianas de indignação ferina de moralismo ferido, poderíamos, só para variar, vestir os andrajos do silêncio diante da nossa consciência e lembrarmos que não temos muito que nos ufanar, que temos pouco para nos vangloriar e, por sinal, temos muito o que aprender.

 

O silêncio interior pode, em grande medida, nos ajudar a sermos mais justos conosco e, principalmente, mais misericordiosos para com os nossos semelhantes. Isso, é claro, se tal mudança de hábito for realmente da nossa vontade, não é mesmo?

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

https://sites.google.com/view/zanela

 

Inscreva-se [aqui] para receber nossas notificações.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

NÃO É ASSIM QUE A BANDA DEVERIA TOCAR

Estou lendo, entre outras coisas, o livro “Os Tempos Ásperos” de Jorge Amado. Um baita livro, para o meu gosto. Mas não é a respeito desta sua obra que pretendo parlar, mas sim sobre uma declaração proferida pelo autor em uma entrevista onde disse, de forma lacônica, feito pino de patrola, que ideologias, sem exceção, são todas um monte de fezes. Umas fedem mais, outras mais ainda, mas todas elas, juntas ou separadas, são o que são, e ponto final. Ainda na mesma entrevista, Amado, de uma forma não tão amável, disse com todas as letras que é importante lembrarmos e, se possível for, jamais esquecermos que existem filhos de uma boa mãe de direita, da mesma forma que existem filhos do mesmo naipe de esquerda — e de centro também —, porque, se há uma coisa que é muito bem distribuída neste país, é a canalhice; e se não somos capazes de perceber isso, imagino que está mais do que na hora de revermos alguns conceitos — e preconceitos — que carregamos em nossa algibeira mental. Sobre esse p...

A FRIA SOMBRA QUE NOS ASSOMBRA

Sempre desconfiei daqueles caboclos que dizem, com o peito estufado, que não têm medo de nada, porque coragem é uma virtude que, como toda e qualquer virtude, dispensa alardes. De mais a mais, coragem não significa viver sem nada temer, mas sim viver e enfrentar os seus temores, mesmo estando se borrando de medo. O resto, te digo, é apenas encenação e efeito pirotécnico. Eu, de minha parte, admito: tenho um punhado de medos. Um deles é de pessoas e organizações que dizem que aqui estão para “restabelecer a verdade”, “salvaguardar as instituições” e tra-la-lá. Toda vez que uma turma se apresenta assim, com toda essa marra e sofisticação, não tenho dúvida alguma: são discípulos da Rainha de Copas que não medirão esforços para fazer imperar a insânia e o engodo. Por exemplo, ao voltarmos nossos olhos para a história desta terra de desterrados que é o nosso país, lembramos que, nos idos dos anos 60, quando aqui imperava o tempo do “Ame-o ou deixe-o”, o regime militar jurava, de coturnos ...

LULA E AS MÁS COMPANHIAS

 por Percival Puggina (*) Pais responsáveis certamente não cansam de repetir a seus filhos frases feitas e perfeitas que ecoam mundo afora, através dos milênios, expressas em milhares de idiomas. Uma delas é esta: “Evita as más companhias”. É um ensino da mais rigorosa prudência. As más companhias agenciam o mal e são fonte de desgraça e infelicidade. Quanto mal se evitou no mundo cada vez que essa frase, repetida de modo oportuno, encontrou adesão prudente em quem a ouviu! Escrevo este artigo na noite de sexta-feira 26 de julho. Já repercutem os vilipêndios à fé cristã durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. É a má companhia que os mal intencionados proporcionam aos idiotas. Estes aceitam os impedimentos às manifestações religiosas populares e majoritárias para que os mal intencionados possam exercer com total liberdade o suposto direito “laico” de desrespeitar a fé alheia. Domingo, a Venezuela decide entre Nicolas Maduro e o banho de sangue prometido à nação caso sej...