Pular para o conteúdo principal

UM CORAÇÃO INDISFARÇADAMENTE IGNORANTE

Declarar-se crítico de tudo e de todos tornou-se, no mundo contemporâneo, uma espécie de qualificação que inúmeras pessoas amam de paixão ostentar junto aos seus nomes como se isso fosse um “título de nobreza”, ou algo que o valha.

 

É cidadão crítico pra lá, é educação crítica pra cá, é cidadania crítica acolá, enfim, é tanta criticidade exalando dos corações que formam-se névoas e mais névoas com esses odores, impedindo que os indivíduos percebam o quão presunçoso é esse tipo de declaração.

 

Desde a aurora dos tempos sabe-se muito bem que para se trilhar o caminho da sabedoria, da procura amorosa pelo conhecimento da verdade, é exigido dos caminhantes uma boa dose de paciência e humildade.

 

É imprescindível que sejamos pacientes com tudo e com todos, tendo em vista que nada, praticamente nada, ocorre no tempo do nosso querer. Tudo tem o seu momento e, por isso, toda e qualquer conquista exige que sejamos capazes de esperar que ela, a tal quadra alvissareira, chegue.

 

E para que a virtude da paciência floresça, é imprescindível que ela possa deitar suas raízes no fértil solo da virtude da humildade, para aprendermos a ver as coisas como elas realmente são e, a partir da realidade, agirmos com convicção.

 

Por essa razão, e por muitas outras, que o declarar-se crítico, como se isso fosse um símbolo de distinção, ou um selo de aceitação grupal, ao invés de contribuir para a ampliação do nosso horizonte de consciência, apenas colabora, de forma significativa, para que a nossa soberba, demasiadamente humana, prospere em nosso coração que insiste em permanecer tão rancoroso quanto arrogante.

 

[CADINHO DE PROSA # 18/08/2022]

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

https://sites.google.com/view/zanela

 

Inscreva-se [aqui] para receber nossas notificações.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A EDUCAÇÃO QUE NÃO TEMOS

Uma vez um sacerdote, ao final de uma Missa, disse laconicamente — de forma curta e grossa, feito um pino de patrola — que Deus não resiste a um homem de joelhos e com seu coração na mão, porque não há nada mais encantador neste mundo do que um coração humilde voltando as batidas dos seus átrios e ventrículos para o Alto. E, sejamos francos: estes dois pontos foram excluídos do horizonte da vida moderna. E não estou falando de senso religioso, não. Refiro-me à virtude da humildade como alicerce do ato de aprender, como bem nos ensina Hugo de São Vítor em seus “Opúsculos sobre o modo de aprender”, e ao senso de hierarquia, que é um instrumento imprescindível para ordenar os nossos apetites, inclinações, aptidões e habilidades para que possamos nos aprimorar como pessoa e, consequentemente, nos elevar em dignidade e verdade, como bem nos lembram tanto Gustavo Corção quanto José Ortega y Gasset. De mais a mais, é importante lembrar que a virtude da humildade não pode, de jeito-maneira, ...

A DESTRUIÇÃO SILENCIOSA DAS BIBLIOTECAS

Todos, ao menos da boca para fora, afirmam que a prática da leitura é de fundamental importância para o desenvolvimento cognitivo de uma pessoa; porém, a maneira como o ato de ler é apresentado soa, no mínimo, engraçada porque, na grande maioria dos casos, ele é tratado como se fosse algo natural e simples que, uma vez aprendido, estaria sacramentado, pronto e acabado. Pois é. Mas não é bem assim que a banda toca. Como nos lembra Gregorio Luri, ler não é algo natural — nada disso. Seu aprendizado exige esforço e deve ser consistente porque, antes de qualquer coisa, ler é colocar um texto dentro de um contexto; do seu devido contexto. Isso exige um grande empenho de nossa parte, e é justamente aí que a porca torce o rabo. A decodificação de um texto exige do leitor, além da capacidade de situar o escrito em um contexto apropriado, um domínio crescente do vocabulário, uma fluência na decodificação das palavras, uma certa musicalidade no momento de entoá-las (seja verbal ou mentalmente...

O PESO DAS COISAS SIMPLES - Notas e Reflexões Heterodoxas Semanais

É muito fácil esquecer o enorme esforço psíquico que é exigido de nós para podermos aprender qualquer coisa com um mínimo de profundidade e destreza. No caso de algumas pessoas, nem isso — tendo em vista que inúmeros indivíduos nunca, nunquinha, se esforçaram minimamente para aprender algo com um mínimo de destreza e profundidade. # Todo brasileiro, inclusive eu e você, carrega no âmago de sua alma o cadáver de uma pessoa, de um indivíduo que poderia ter nascido e realizado mil e uma façanhas, mas que não nasceu porque foi abortado por nossa preguiça nem um pouco original. # Existem muitas coisas nesta vida que, por sua natureza, são complexas e, diante delas, devemos nos esforçar para estarmos à altura de sua complexidade. E não existe nada mais complexo neste mundo do que as coisas simples da vida. Não é à toa, nem por acaso, que nos complicamos por completo quando somos confrontados por elas. # Um dos elementos fundamentais que é, de certa forma, desdenhado por toda essa turma que v...