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NÃO É PRECISO SER UM PSICOPATA PARA SER MAU

Seja ou não um ano eleitoral, sempre aparece aqui e acolá aquela turma que franze a testa, aperta bem os olhos para secar os outros com sua visão aquém do alcance e, com o dedo em riste, diz a todo e qualquer desavisado que ele precisa, urgentemente, tomar consciência — a seco, sem nenhum golinho de água. O engraçado nesse tipo de conversa fiada é que, em regra, as pessoas que mais curtem aparecer em público — nas redes sociais ou num universo botecológico — para cobrar dos outros uma postura mais consciente sobre isso e aquilo são justamente as que, de forma escancarada, apresentam inequívocos sinais de um profundo estado de, como direi, decomposição cognitiva. E o pior é que, muitas vezes, somos nós mesmos que nos encontramos nesta putrefata condição, onde somos capazes de identificar o cisco e a remela nos olhos de terceiros, mas fazemos uma senhora de uma vista grossa para os entulhos e crostas que estão acumulados em nossa própria vista. Podemos dizer que, quando agimos assim, estamos nos portando como se fôssemos uma espécie de pretenso descendente de J. J. Rousseau que, tal qual o autor de “O Emílio”, vê-se como se fosse a alma mais cândida, pura e boa de toda a Via Láctea, capaz de amar teatralmente toda a humanidade, mas incapaz de amar genuinamente o seu semelhante de carne e osso. Sem nos darmos conta, muitas vezes agimos assim: virando as costas para o altar da nossa consciência e voltando o nosso coração para os ditames que são sentenciados, tiranicamente, pela opinião pública, pelas patotinhas, ideologias, partidos, algoritmos e demais trambolhos de que tanto queremos conquistar a aprovação; e, faceiros da vida, sem perceber, vamos amortecendo nossa consciência. Agora, o jogo muda de figura quando, ao invés de colocarmos esses trens fuçados no centro da nossa consciência, preferimos nos colocar diante do olhar onisciente de Deus. Dito de outro modo, quando deixamos de agir como mascotes de J. J. Rousseau e passamos a nos portar como se fôssemos seguidores esforçados dos ensinamentos de Santo Agostinho. O Bispo de Hipona, quando escreve as suas “Confissões” — ao contrário do filósofo de Genebra, que também escreveu um livro com o mesmo título —, coloca-se diante de Deus que, segundo suas próprias palavras, é Aquele que é mais eu do que eu mesmo; Deus é Aquele que sabe exatamente quem nós somos e, mesmo assim, nos ama. Quando nos colocamos, humildemente, diante Daquele que nos ama incondicionalmente — mesmo sabendo que somos o que somos —, nós vamos gradativamente tomando uma medida mais realista a respeito da vida, dos nossos semelhantes, dos nossos atos e das suas possíveis consequências e, por isso mesmo, vamos nos tornando mais nós mesmos; digo, mais quem nós deveríamos ser eternamente, mas nos recusamos a ser, por pura vaidade. Agora, quando nos portamos — inconscientemente — de forma canina diante das multidões que, por definição, não amam ninguém — nem a si mesmas — para conquistar sua aprovação, seus likes, seu apreço e, por que não, um tapinha nas costas, acabamos mergulhando num pútrido fosso de autoengano e terminamos negando a nós mesmos. Por isso, não é por acaso que, em muitas ocasiões, tramamos, nas sombras do nosso coração, planos sórdidos; não é à toa que, sem nos darmos conta, nos juntamos aos enxames digitais — de forma pública ou velada — para destruir a vida de pessoas de quem mal sabemos o nome, mas estamos “cônscios” de que merecem nosso desprezo, porque é isso que precisamos sinalizar para conquistar o “afeto” daqueles que, de forma canhestra, tomaram o lugar da nossa consciência. Enfim, não é preciso ser um psicopata para ser uma pessoa má, não é mesmo?


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Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO LEVIATÔ, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela





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