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UM GUETO CERCADO POR PALAVRAS

Muito se fala hoje em dia a respeito dessa tal de empatia. Em todas as direções para as quais voltamos os nossos olhos cansados, inevitavelmente iremos avistar uma figura falando a respeito; e o mais curioso é que, via de regra, os sujeitos que não param nem para respirar para falar sobre isso o fazem sempre com um certo ar de superioridade em relação a todos os demais mortais que, diferentemente deles, nunca pararam para pensar com a mesma “seriedade” a respeito do assunto. Ao apontar isso não estou, de modo algum, dizendo que não devemos procurar nos colocar no lugar do outro para ver a vida a partir dos seus olhos, e sentir as dores do mundo a partir do seu nervo da alma exposto. Nada disso, cara pálida. O que digo e repito é que “empatia”, como toda palavra que é repetida à exaustão, acaba perdendo toda a sua substancialidade e, por conta disso, termina sendo apenas mais um jargão publicitário, um cacoete mental que as almas desavisadas — e as levianas também — utilizam para rotular e desclassificar tudo aquilo que não se encaixa em seu nada fabuloso universo de estereótipos pré-fabricados. Para melhor expor o meu ponto, permitam-me contar um breve causo sobre a vida de São Francisco de Assis. Conta-se que, nos idos em que o pobrezinho de Assis habitou neste mundão de meu Deus, havia um homem, um terrível assassino que seria enforcado. E ele lá estava, no meio da multidão, testemunhando a execução, em lágrimas. Um amigo seu, ao vê-lo chorando pelo vil assassino, disse que ele não deveria chorar por aquele homem porque ele não merecia a sua compaixão. Ao ouvir isso, Francisco disse: “Muito pelo contrário. Ele merece toda a minha compaixão porque, possivelmente, se esse homem tivesse tido a vida que eu tive, ele seria uma pessoa muitíssimo melhor do que eu. E tem outra: se eu tivesse vivido a vida que esse infeliz viveu, provavelmente eu seria um homem tremendamente mais cruel do que ele.” Em resumidas contas, isso é saber colocar-se no lugar do outro e, para fazer isso, não há necessidade de manter a palavra empatia na boca para disfarçar o mau hálito da alma. De mais a mais, para que eu não venha a parecer crica, façamos um experimento simples: quando nós testemunhamos uma tragédia, ou uma injustiça, que ocorre com uma pessoa que, porventura, encontra-se num espectro político e ideológico contrário ao nosso — ou que simplesmente seja um desafeto pessoal —, como nós reagimos interiormente, junto ao altar da nossa consciência? De que maneira nos portamos diante do púlpito das redes sociais? Pois é. Sentir compaixão por aqueles que amamos, pelas pessoas que estão na mesma sintonia que a nossa, francamente, não é um trem de outro mundo não; e simular empatia por uma pessoa que parece indiferente aos nossos pudores ideológicos, com o perdão da palavra, também não nos torna o bicho da goiaba. Agora, sermos capazes de, realmente, nos colocar no lugar dos nossos adversários e desafetos e nos esforçarmos, com sinceridade, para sentir o mundo a partir das suas dores, isso sim nos torna mais humanos. Infelizmente, no mundo no qual vivemos, desaprendemos a fazer isso e não é à toa, nem por acaso, que se festeja de forma tão efusiva a morte de um desafeto político ou os dissabores vividos por uma pessoa que não respira os mesmos ares plúmbeos da nossa bolha. E desaprendemos porque a empatia, no contexto atual, está se tornando uma palavra que, ao invés de edificar pontes que propiciam encontros, apenas constrói e consolida muralhas que nos encerram em guetos que nos desumanizam sem a menor cerimônia.


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Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela




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