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VOTO DE ABSTINÊNCIA

Não tenho o costume de ler as notícias logo que elas saem, fresquinhas, na última edição de um jornal. Tento evitar isso porque procuro seguir à risca um conselho que a muito me foi dado pela minha finada nona: quem tem pressa sempre acaba queimando os beiços.


Sim, ela não estava se referindo as notícias. Estava, na época, me advertindo sobre a minha gula frente aos quitutes que ela preparava amorosamente; mas, seu conselho, que é um ditame dado por todas as nonas desse mundão de meu Deus, é algo que se aplica a inúmeras situações, inclusive essa, principalmente essa: os entreveros no universo da informação.


Por isso, desde muito cedo, procurei não dar muita importância para as informações da última hora. Na verdade, não apenas por isso. Há outras razões por detrás dessa atitude motivada por um velho brocardo popular. Dito isso, vamos por partes.


Primeiro: não sou tão importante assim para necessitar saber quais são os últimos acontecimentos que afetam os altos círculos do poder. Sou apenas um homem comum com sua vidinha bem comum.


Sim, o que esse diabedo decide e faz acaba, cedo ou tarde, afetando minha vida, mas, feliz ou infelizmente, não tenho como reagir de modo eficiente, eficaz e efetivo contra esses desatinos, logo, estaria eu desperdiçando um tempo precioso que poderia estar sendo utilizado em algo que realmente poderia ser edificante em minha porca vida.


Segundo: o noticiário moderno, de um modo geral, é similar a um dramalhão mexicano de quinta categoria. É um negócio que fica ensebando um assunto de relevância duvidosa por um longo período de tempo, como se a pauta apresentada fosse o centro pulsante do universo e, mais uma vez, lá está ela, a grande mídia e as redes sociais, furtando nossa atenção de maneira descarada e nos levando a mergulhar num lamaçal de distração que, definitivamente, não nos leva a lugar algum.


Terceiro: percebamos que tudo aquilo que por algum tempo ocupa as manchetes da grande mídia, como se fosse algo que poderia mudar o rumo de nossas vidas, com o passar do tempo, e não precisa passar muito, acaba tomando a sua real dimensão: a insignificância.


Lembremos: tudo o que é realmente relevante apenas aparece com o passar do tempo.


Pois é. E enquanto damos uma profunda importância para algo duvidoso, provavelmente deixamos de dar o devido valor para algo que realmente poderia ser significativo em nossa vida.


Quarto: quando ficamos demasiadamente atentos aos últimos acontecimentos que são midiaticamente dimensionados, ganhamos, de quebra, um aumento escabroso da nossa ansiedade. Sim, o culto das últimas notícias não é o único fator que contribui para isso; mas, não há dúvida alguma que ele colabora significativamente para o aumento da nossa inquietação.


Quinto: se ficamos o tempo todo aguardando as últimas novidades, estamos permitindo que pessoas - muitas vezes maliciosas que servem a corporações obscuras e facções políticas sombrias - ditem o que ocupará o foco de nossa curiosidade e o que irá habitar a nossa imaginação; e isso, francamente, não é nem um pouco bom.


Enfim, por essas e outras que minha querida nona, que Deus a tenha, estava coberta de razão, como todas as nonas. Quem tem pressa acaba sempre comendo cru, queimando as beiçolas e virando o pote. 


Sim, sim, mas nós não deveríamos estar atentos a tudo que está acontecendo, a tudo que nos é noticiado para sermos “bons cidadãos criticamente críticos”? É, ficarmos atentos, gastando nosso tempo, focados e ansiosos por aquilo que pessoas buliçosas irão nos dizer e sugerir, sob a justificativa de que estamos nos inteirando dos fatos, para sermos mais “conscientes e atuantes” é, definitivamente, o instrumento mais do que perfeito de manipulação.


Não é à toa que, sem nos darmos conta, acabamos muitas vezes sendo levados a repetir os estereótipos, jargões e frases feitas que nos são sugeridos dia e noite, como se tais elementos fossem produtos originalíssimos da nossa própria cumbuca.


Por fim, quando Saul Bellow dizia que uma das funções da grande literatura universal é nos defender dos estereótipos do presente, era disso que ele estava falando.


Por isso, mais do que nunca, a realização de um voto de abstinência e matéria de novidades, e o início de uma dieta muito bem balanceada com quitutes e manjares que se fazem presentes no cardápio do cânon da literatura de todos os tempos, é algo fundamental para que a Era da Informação não torne a nossa vida um poço de desassossego.

*

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela (publicado originalmente em 12/09/2020) - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “A QUADRATURA DO CÍRCULO VICIOSO”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela 




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