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QUANDO A ÁGUA DO POÇO NÃO É MUITO LIMPA

Quanto mais o nome e a fisionomia de uma pessoa são conhecidos, mais ignorada é a sua história. Não que não existam obras que falam a respeito da abençoada. Não é disso que se trata, tendo em vista que a vida de um personagem histórico como, por exemplo, Napoleão Bonaparte, é esmiuçada até dizer chega é, as pessoas, de um modo geral, acabam contentando-se em conhecer apenas e tão somente o seu nome e uma e outra curiosidade sobre o dito-cujo.

 

O fato é que nos contentamos apenas com a imagem que é apresentada de figuras titânicas como essa que, a ferro e fogo, imprimiram sua presença no devir das areia do tempo. Imagem que, diga-se de passagem, tem suas tintas carregadas com os tons do momento e, por isso, acabam falando muito mais a respeito dos valores, anseios e temores do tempo em que foram forjadas do que a respeito delas.

 

Falando de personagens titânicos, o livro “Três vezes Zumbi”, de Ricardo Alexandre Ferreira e Jean Marcel Carvalho França, é uma obra que bem ilustra como as brumas do tempo podem turvar a nossa compreensão a respeito de um personagem histórico.

 

Os autores nos chamam a atenção para a imagem que, tanto a literatura quanto a historiografia, produziram a respeito de Zumbi de Palmares em momentos distintos da nossa desventura histórica, permitindo que vejamos como os valores, preceitos, preconceitos e ideologias de um dado momento impregnam na forma como o passado é representado.

 

Devido a essa impregnação, podemos dizer que cada época acabou tendo um “Zumbi” para chamar de seu. Um líder militar cuja bravura indômita valorizava a vitória dos colonizadores; outro como um líder revolucionário e, por fim, um Zumbi herói de todas as minorias.

 

O conhecimento das várias faces que foram sendo construídas através do tempo para justificar valores e preconceitos de um determinado momento, enriquece uma barbaridade a nossa compreensão da história e, principalmente, da maneira como a história é construída.

 

Ora, houve um tempo em que, como bem nos lembra o historiador Manolo Florentino, a historiografia brasileira se lambuzava no colonialismo cultural e nas sandices nacionalistas. O tempo passou e hoje a historiografia se empanturra com um radicalismo anacrônico e com a praga do politicamente correto.

 

Mais ou menos por esse caminho, a escritora polonesa Olga Tokarczuk, nos lembra que não há nenhuma dúvida de que os livros nos modificam, mas, pergunta ela: nós podemos modificar os livros que lemos? Quando lemos uma obra, aos doze anos de idade e depois o relemos aos dezesseis, aos vinte oito, aos trinta e tantos anos, não estamos lendo a mesma história, apesar de estar relendo o mesmo livro, porque não somos mais a mesma pessoa e, consequentemente, já não somos mais o mesmo leitor.

 

O mesmo pode ser dito com relação aos personagens e acontecimentos históricos diante dos vários momentos em que eles são evocados. Eles acabam sempre revelando novas facetas e desmistificando outras tantas, porque estão dialogando conosco a partir das páginas que foram escritas e reescritas sobre eles.

 

Mesmo uma farsa, ou um equívoco, com o tempo acabam se convertendo numa ferramenta útil para desvelarmos a verdade que esteve, o tempo todo, diante de nossas ventas, encoberta com boleiras de camadas de anacronismos e dissimulações. Algumas projetadas sobre nós, outras maquinadas por nós mesmos.

 

Por fim, quanto aos personagens que hoje ocupam o centro da arena da vida, o que será dito a respeito deles daqui a cem anos? Muitos, provavelmente, não mais serão lembrados; outros, muitas coisas serão ditas. Coisas que, hoje, não seriam aceitas como críveis por nós, porque, admitamos ou não, a verdade é filha do tempo e, a história, a mestra da vida.

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “REFAZENDO AS ASAS DE ÍCARO”, entre outros livros.

https://lnk.bio/zanela



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