Pular para o conteúdo principal

O LABIRINTO DE ESPELHOS

Para todas as direções que voltamos nossas vistas, vemos pessoas clamando em alto e bom tom para que a "justiça" seja feita em nosso país, digo, para que aquilo que elas entendem por justo impere sobre aqueles que elas detestam com todas as forças do seu ser, pois, todos nós sabemos, para muitos, tudo torna-se "moralmente" válido quando feito em nome do partido e da revolução, conforme a muito fora proclamado por Leon Trotski, em seu livro “Moral e Revolução”.

 

Detalhe importante: tais alminhas chamam de clamor por justiça o que, em outras épocas, era chamado simplesmente de denuncismo, motivado pelo clima de histeria coletiva que era insuflado por aqueles que desejavam, manobrando a horda de militantes e simpatizantes, perpetuar-se no poder, custe o que custar.

 

E todos aqueles que entram nessa “vibe”, esquecem-se bem rapidinho que prova de covardia maior não há do que querer destruir a vida de alguém em nome de uma crendice ideológica, que justifica um projeto totalitário de poder, travestido com as firulas retóricas de “um mundo melhor possível”, ou algo parecido com isso.

 

Chega a ser, no mínimo, curioso vermos pessoas que ficam todas arrepiadas, do pescoço até o garrão, quando ouvem alguém, em algum beco qualquer da vida, reverberando alguma palavra de ordem contra “ditaduras fascistas imaginárias”, ou contra algo similar, cujo eco as fazem estremecer por dentro e, ao mesmo tempo, vibram de alegria [depre]cívica, ficando com seus olhos marejando em lágrimas, quando uma campanha de cancelamento consegue ferrar com a vida de uma pessoa, principalmente se ela for uma ilustre desconhecida.

 

Incontáveis indivíduos, crentes de que estão construindo um "mundo melhor" nessas bases, deletam sem dó todas as pessoas que não se encontram dentro do seu estreito riscado ideológico e perseguem, com voracidade canina, qualquer um que não se enquadre dentro dos ditames canhestros da sua visão política.

 

Nesse sentido, tais atitudes, manifestas através de tranqueiras como “Sleeping Giants” e similares, não diferem muito não do denuncismo calhorda que havia na Alemanha Nacional-Socialista, na URSS, em Cuba e demais tranqueiras totalitárias do gênero.

 

Abre parêntese: o tal do “Sleeping Zap”, uma imitação tosca do “Sleeping Giants”, também é um exemplo desse tipo de mentalidade tacanha e covarde. Fecha parêntese.

 

Por essas e outras que o filósofo argentino José Ingenieros, em seu livro “As forças Morais”, nos adverte vivamente para o fato de que, acima de tudo, a justiça não pode ser reduzida ao ato de ocultar, com supostas “elevadas intenções”, os vícios que corrompem o nosso coração e as nossas ações.


A justiça, enquanto virtude, deve ser impelida pelo esforço de suprimir nossas más inclinações, de forma inclemente, para que possamos, com o auxílio da Graça divina, realmente crescer em espírito e verdade para que, desse modo, possamos aprender a refletir, mesmo que palidamente, a luz da misericórdia em nossa maneira de ser.

 

Agora, se continuarmos a confundir o tal do denuncismo, motivado por vendetas rasteiras, com as joias da coroa do senso de justiça, isso é sinal de que estamos com o nosso coração mortalmente ferido pelo rancor e imerso no cálice do ressentimento, ao ponto de não mais sermos capazes de reconhecer em nossos antagonistas, inimigos e desafetos, a imagem de um semelhante.

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

https://sites.google.com/view/zanela

 

Inscreva-se [aqui] para receber nossas notificações.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O SENHOR DAS MOSCAS SOB NOVA DIREÇÃO

Dias atrás, todos devem ter tomado conhecimento do acontecido em uma escola de ensino fundamental, onde os alunos de uma turma colocaram cacos de vidro na água da professora. Diante do ocorrido, penso que há dois pontos que devem ser levados em conta. Primeiramente, não há o que discutir: isso foi uma monstruosidade. Em segundo lugar, temos muito que discutir, porque isso é uma monstruosidade. E a primeira pergunta que todos nós deveríamos fazer é como permitimos que algo assim acontecesse. E não me refiro apenas às autoridades constituídas, às famílias, aos professores e tutti quanti. Refiro-me, sim, à sociedade — toda ela —, porque o tempo todo as crianças estão aprendendo, e estão aprendendo conosco através de nossas palavras, atos e omissões. De todas as nossas falhas, há uma que está no cerne desta trágica questão: a nossa recusa, o nosso medo de agir como adultos diante dos infantes. Isso mesmo! A nossa recusa em educá-los. A sociedade se nega a esse papel porque exercê-lo é desc...

A JOIA QUE FOI MALANDRAMENTE PERDIDA

No livro “A bacia de Pilatos”, de Humberto de Campos, há um conto que nos apresenta a história de um padre italiano que estava vindo para o Brasil. Quando o navio estava se aproximando da baía de Guanabara, ele se dirigiu ao convés para contemplar a paisagem. E eis que, do nada, apareceram duas portuguesas. Pediram a bênção e perguntaram se o vigário conhecia o Brasil. Ele disse que sim e que, na sua humilde opinião, não existia lugar mais belo na face da Terra. Impressionadas com o entusiasmo do homem de Deus, perguntaram-lhe como era a fiscalização e, de pronto, ele disse: “Rígida, minhas filhas. Não passa nada.” Então, as duas abriram o jogo. Disseram que estavam vindo para assumir a herança de um tio, uma propriedade em Barbacena (sempre em Barbacena), e que, por isso, estavam trazendo consigo as joias da família; joias essas que estavam há gerações na família e que, por essa razão, não dispunham de nota fiscal. Diante disso, elas temiam perdê-las na aduana. E o que é que o padre t...

NÃO É ASSIM QUE A BANDA DEVERIA TOCAR

Estou lendo, entre outras coisas, o livro “Os Tempos Ásperos” de Jorge Amado. Um baita livro, para o meu gosto. Mas não é a respeito desta sua obra que pretendo parlar, mas sim sobre uma declaração proferida pelo autor em uma entrevista onde disse, de forma lacônica, feito pino de patrola, que ideologias, sem exceção, são todas um monte de fezes. Umas fedem mais, outras mais ainda, mas todas elas, juntas ou separadas, são o que são, e ponto final. Ainda na mesma entrevista, Amado, de uma forma não tão amável, disse com todas as letras que é importante lembrarmos e, se possível for, jamais esquecermos que existem filhos de uma boa mãe de direita, da mesma forma que existem filhos do mesmo naipe de esquerda — e de centro também —, porque, se há uma coisa que é muito bem distribuída neste país, é a canalhice; e se não somos capazes de perceber isso, imagino que está mais do que na hora de revermos alguns conceitos — e preconceitos — que carregamos em nossa algibeira mental. Sobre esse p...